DOM, 28 de Setembro de 2008 - 04:08 (DOM, 28 de Setembro de 2008 - São Paulo - 15:08)

Considerações finais sobre a China

Já em casa, após uma cansativa viagem de volta, e com o corpo ainda sentindo os efeitos da mudança de fuso, são muitas as idéias que me vêem à cabeça após essas duas semanas acompanhando a Missão Exame na China. Para concluir este Diário de Bordo, aqui vão minhas considerações finais sobre este país surpreendente e também algumas fotos de diversos lugares visitados:
 
Cidade Proibida, Pequim


1.   Novo eixo do poder econômico. Fareed Zakaria, editor da Newsweek International, em seu livro "The Post American World", que tive a oportunidade de ler durante a viagem, diz que os primeiros anos do novo milênio surpreenderam por apresentarem uma mudança do centro do poder econômico mundial para lugares inesperados há apenas dez anos. E a China desponta de longe nesse cenário. Para o autor, esse fenômeno cria uma nova etapa no processo de globalização impondo desafios para os Estados Unidos, que passam por uma fase dura de reavaliação de regras até então consagradas no seu papel de domínio da economia mundial. O arrefecimento da crise dos EUA nas duas últimas duas semanas demonstrou claramente isso. Por um lado, esse cenário afeta diretamente a China que tem no mercado norte-americano seu maior importador. Por outro, após esse período de turbulência, que deve durar até o final de 2009, a China deverá sair ainda mais fortalecida.

Rua de Pequim em um dia cinzento, típico das grandes cidades da China

 
2.   Criando oportunidades de negócios. Ficou clara que a expansão de empreendimentos brasileiros para a China é altamente complexa. Tivemos contato também com experiências negativas nessa tentativa de estar presente no maior país do mundo dada a realidade peculiar de seus aspectos econômicos, políticos, culturais e sociais. Mas uma coisa é evidente: há um projeto de desenvolvimento do país que não só busca oportunidades no contexto global como também está criando suas próprias. Quem souber navegar nessa nova onda que dará uma outra cara ao incipiente século que se abre diante de nós fincará sua marca na história.

Cenário bucólico do restaurante Bai Family, Pequim
 
3.   Na comunicação, o processo está ainda começando.  Na área de comunicação, o mercado chinês está em uma fase de crescimento primeiro para poder ganhar musculatura e finalmente amadurecer. Com a velocidade que as coisas acontecem no país, é impossível prever quanto tempo levará esse ciclo. Para se ter uma idéia do estágio atual da propaganda chinesa, o uso de celebridades é algo que começa a ser utilizado só agora. Em um país que controla os sermãos e discursos dos líderes religiosos em seus cultos e cerimônias, conviver com a restrição à mensagem publicitária é um dado da realidade mais do que absorvido. Afinal de contas, como diria Naomi Klein, as marcas são a nova religião do mundo. Não devemos, porém, pressupor que apesar dessas peculiaridades, a China não irá acordar para o mundo publicitário também em termos criativos. O primeiro Leão de Ouro conquistado esse ano no Festival de Cannes, em Press para um anúncio da Adidas criado pela TBWA é considerado pelo mercado publicitário local um divisor de águas.

Vista noturna do majestoso Cubo D'Água, Pequim
 
4.   O inacreditável bloqueio digital: Eu constatei. Busquei pelo computador do hotel no Google a frase "massacre da Praça da Paz Celestial" e apareceram várias referências sobre o assunto, mas na hora em que você clica nos sites listados aparece a mensagem de página não encontrada. Sites tidos como perigosos pelo governo chinês, como Wikipédia, BBC e diversos blogs são bloqueados pelo chamado "Great Firewall da China". Estima-se que mais de 30 mil funcionários do governo chinês vigiem os hábitos dos usuários de internet e as leis para quem pular essa muralha são rígidas e prevêem até mesmo a execução. A censura torna o mercado digital local extremamente sensível para empresas como Google e Yahoo, que acabam tendo que fazer concessões ao governo chinês para conseguirem estar presente em um país com 220 milhões de usuários de internet. Por conta disso, os sites locais dominam o mercado.

Os disciplinadíssimos seguranças marchando em frente ao Ninho do Pássaro, Pequim

 
5.   Necessidade de uma agenda sustentável. O crescimento anual da economia chinesa próximo dos dois dígitos só é possível porque o estágio atual de desenvolvimento empresarial do país privilegia o resultado e a eficiência em detrimento da preocupação com o impacto ambiental e social que determinados negócios possam trazer à sociedade. A mão-de-obra em condições precárias e a poluição são na visão do governo chinês o preço do desenvolvimento. No entanto, esse parece ser o maior desafio da China: inserir-se de fato no mundo globalizado e ser o motor da economia mundial exige uma agenda para garantir a sustentabilidade desse processo. As recentes mudanças na lei trabalhista e o impacto positivo que as medidas de restrição à poluição e ao trânsito em Pequim, durante a Olímpiada, causou na população local - gerando inclusive protestos para que essas medidas continuem - são evidências de que a própria sociedade chinesa começa aos poucos a exigir uma mudança de postura. 

A imponente Grande Muralha, arredores de Pequim
 
6.   O que está faltando para o Brasil dançar essa música? A China possui reservas de US$ 1,4 trilhão e o crescimento previsto é de algo entre 7% e 8% ao ano até 2010. Ou seja, esses recursos são maiores do que o PIB total do Brasil, que ficou em US$ 1,3 trilhão, em 2007. Para se ter uma idéia do que isso significa, o investimento total na Olimpíada de Pequim foi de US$ 50 bilhões, ou seja, muito pouco em relação ao que o país tem de reserva. Com todos esses números, apenas sete missões empresariais brasileiras visitaram a China, em 2007. Por sua vez, 30 missões chinesas vieram ao Brasil no mesmo período. O que será que está faltando ao empresário brasileiro para aproveitar esse cenário?

Old Town, Xangai
 
7.   Efeito rolo compressor. A impressão que se tem é que literalmente um trator irá te atropelar nas ruas de centros como Pequim e Xangai. Cerca de 1/3 de todos os guindastes do mundo estão na China. E esse processo se reproduz em tudo. O país está passando por cima de tudo para colocar de pé seu projeto de ser a maior economia do mundo.

Mercado de rua em Old Town, Xangai
 
8.   Paraíso para as marcas, mas também um desafio. Grandes players globais como Unilever e Nestlé têm preferido focar em uma master brand na China do que lançar várias linhas de produtos pelo fato de a mídia de massa lá ser bastante cara e também simplesmente porque alguns produtos que são extremamente comuns para os ocidentais não terem o mesmo apelo para os chineses. No caso das marcas de luxo, por exemplo, as lojas de praticamente todas as grandes grifes estão na China, mas muitas ficam às moscas porque os chineses ainda consomem mais esse tipo de produto quando viaja.

Exemplo típico de marca plagiada, Dongguan
 
9.   Respeito à hierarquia e conservadorismo: Nos relatos de experiências mal sucedidas de empresas brasileiras que tentaram fazer negócios na China há dois aspectos que chamam a atenção e são fundamentais para se evitar alguns erros. Mandar um emissário nem sempre é o melhor caminho. O chinês preza muito o status e a hierarquia e por isso gosta de falar com o comandante do negócio. Os 5 mil anos de política fechada deixou marcas profundas na cultura e uma delas é o conservadorismo e o ceticismo em relação aos não chineses. Portanto, na hora de fazer negócios é necessário demonstrar interesse pela cultura local e estar aberto a aprender com o seu interlocutor.

Rua movimentada de comércio em Hong Kong
 
10. A reinvenção Big Brother. No mais famoso romance de George Orwell, "1984", ele descreve uma sociedade disfarçada de democracia que vive o totalitarismo desde que o Partido chegou ao poder sob a batuta do onipresente Grande Irmão (Big Brother). Não há como estar na China e ver o funcionamento do país para não se lembrar do livro. Ao controlar a internet, censurar a livre expressão, deter o monopólio da telefonia celular (China Mobile) e controlar uma rede com 18 emissoras de televisão (CCTV), o governo chinês consegue a bem sucedida façanha de dirigir os passos dos mais de 1,3 bilhão de chineses. O Partido Comunista controla o que os chineses lêem, vêem e fazem e dita as regras para que a economia agora seja "de mercado". Exatamente por isso, também na área de business todos os passos precisam ter a benção de alguma instância do governo para que os projetos sejam aprovados e consigam deslanchar. Algo que assusta, mas que deverá ser cada vez mais digerido por aqueles que querem ser parceiros comerciais da China.
 
Eu poderia continuar escrevendo muito mais sobre a China, sem dúvida alguma um país incrível, encantador e também assustador. Em breve o material recolhido por mim na Missão Exame na China e também em entrevistas e visitas a algumas agências locais irá virar uma grande Reportagem Especial na qual poderei detalhar mais os diversos aspectos que fazem a China ser hoje o país mais comentado do planeta. Por hora, fico por aqui. Até a próxima!

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SEX, 26 de Setembro de 2008 - 00:48 (SEX, 26 de Setembro de 2008 - Dubai - 11:48)

O primeiro tufão a gente nunca esquece

Do alto da cobertura do prédio do HSBC também foi possível avistar a aproximação do tufão Hagupit (só fui descobrir o nome acessando a Reuters). Ele não atingiu o nível mais grave (dez), ficou em oito, mas já foi o suficiente para sermos orientados a não sairmos do hotel, muitas lojas de rua foram fechadas e cerca de 80 vôos cancelados - inclusive o da Missão Exame na China que iria de Hong Kong para Dubai. Como consequência passamos mais um dia em Hong Kong com a volta sendo feita direto, sem aquele dia em Dubai - previsto inicialmente no roteiro - que seria ótimo para, além de conhecer um pouquinho esse luxuoso Emirado Árabe, dar aquela paradinha básica para o corpo ir se acostumando novamente à mudança de fuso. A passagem por Dubai é só para conexão, mas isso significa cinco horas de espera, e lá estou eu aqui aproveitando para escrever. O tufão pegou intensidade maior em algumas cidades do sul da China, onde chegou a provocar alguns estragos. Como esse tipo de fenômeno meteorológico é comum nessa região da Ásia, HK é toda preparada para acontecimentos assim com intercomunicação subterrânea entre os diversos shoppings, hotéis e estações de metrô. Além disso, todos os prédios possuem passarelas cobertas para interligação com a rua e entre os demais edifícios. Tudo para que a vida seja o mais normal possível. Confesso que fiquei um pouco tensa. Mas de dentro do meu quarto, aproveitei a tarde "tufânica" para atualizar este blog e me acalmei rapidinho.

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SEX, 26 de Setembro de 2008 - 00:33 (SEX, 26 de Setembro de 2008 - Dubai - 11:33)

Longe das turbulências dos EUA

O encerramento da Missão Exame na China foi feito com uma palestra seguida de almoço no último andar do prédio do HSBC (The Hong Kong and Shanghai Banking Corporation Ltd.), de onde se tem uma visão privilegiada de um dos principais centros financeiros da Ásia. O grupo foi recepcionado pelo catarinense Conrado Engel, responsável pelas operações de varejo do banco em 19 países asiáticos e pelo chinês Peter Wong, diretor geral do banco. A tradição de 142 anos de atividades e sua história de bom relacionamento com o governo da China fazem com que o HSBC (maior banco do mundo em valor de mercado) esteja hoje em uma posição privilegiada em relação às turbulências do mercado financeiro mundial que tem como epicentro a crise do sistema financeiro norte-americano.Peter Wong, diretor geral do HSBC  
Peter Wong


Na opinião de ambos, essa instabilidade continuará até o final de 2009, fazendo com que a China se fortaleça ainda mais depois desse período. Interessante acompanhar esses últimos dias de arrefecimento da crise global das finanças a partir da China. Enquanto estava em Pequim e Xangai, ficava claro que os jornais dão uma certa maquiada no alcance real da crise. Tanto que o Departamento de Propaganda do Partido Comunista da China enviou aos maiores portais financeiros do país uma determinação para que censurem comentários negativos sobre o mercado ou sobre as ações do governo no setor financeiro. No entanto, em Hong Kong, os jornais já fazem uma análise melhor do contexto global dessa crise, mas não houve como não acessar os portais de notícias brasileiros para saber o impacto dela em solo tupiniquim. Conrado Engel, diretor regional do HSBC Conrado Engel


Peter Wong enfatizou que a África e a América Latina, na qual se destaca o Brasil, devem se tornar cada vez mais parceiros comerciais importantes para a China pelo fato de serem regiões ricas em recursos naturais. Hoje, o país já é o maior investidor internacional no continente africano. Para as empresas brasileiras de setores como água, mineração, siderurgia, energia e alimentos há inegavelmente uma oportunidade enorme nesse cenário. Confira algumas fotos do almoço do HSBC:



Eu ao lado de Cristine V.M. Martins Fontes (Silicate) e Alexandre Caldini (Abril)
 

Luciano Deos (Gad), José Candido da Silva (Kaiapós), Edivan Pereira da Costa (Sollos), José Filho (Soarescim Calçados),  João Francisco de Menezes Neto (Vale) e Marco Antonio Matioli Sabará (Beraca Química)



Os três intérpretes e consultores da Missão Exame na China: Hsieh Yuan, Hsieh Ling e Vilson Yao


Carlos Henrique Custódio (Correios) e Nelson Alvarenga Filho (Ellus)

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QUI, 25 de Setembro de 2008 - 02:40 (QUI, 25 de Setembro de 2008 - Dongguan - 13:40)

Expertise brasileira, produção chinesa

A Missão Exame na China visitou a sede da empresa da área de calçados Paramont. Até o o início da década de 90, a companhia fazia parte do pólo calçadista do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, quando começou a fazer negócios com fornecedores chineses. Desde 1994, a Paramont tem sua sede na cidade de Dongguan, no sul da China, cidade localizada há 80 quilômetros da fronteira com Hong Kong.

Fizemos a viagem de ôninus e chamou a atenção a ótima qualidade da auto estrada. A Paramont comercializa 42 milhões de pares de sapatos por ano, o que rende um faturamento anual em torno de US$ 700 milhões. Com produção totalmente terceirizada em cinco fábricas da qual é sócia e outras 12 fornecedoras, ela produz sapatos para marcas internacionais como Nine West, Kenzo, Via Spiga, entre outros e tem 75% de sua produção comercializada nos Estados Unidos.

Para o sócio diretor Ricardo Ernesto Correa da Silva, o fato de hoje a empresa estar localizada na China possibilitou uma redução de custos, fazendo com que seus preços fiquem mais competitivos. A Paramont não é a única empresa brasileira de calçados em Dongguan, o que tem feito com que a cidade chinesa tenha hoje uma comunidade de cerca de 3 mil brasileiros. Como ela não produz, apenas comercializa sapatos feitos por terceiros, seguimos de lá para uma das fábricas de calçados da Stella International Holding, um dos fornecedores da Paramont e pertencente ao grupo que abriu o capital no ano passado, possui 70 mil empregados e fatura US$ 1,1 bilhão ao ano.

De acordo com o COO, Laurence Chen, 45% das ações estão nas mãos dos sócios fundadores e o restante com os novos acionistas oriundos da abertura de capital. A empresa tem um plano ambicioso de alcançar os US$ 2 bilhões de faturamento até 2012. Acompanhamos as linhas de produção das novas coleções da Guess e Nine West e para uma apaixonada por sapatos como eu foi muito interessante ver como é a confecção deles de perto.

 

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QUA, 24 de Setembro de 2008 - 06:16 (QUA, 24 de Setembro de 2008 - Hong Kong - 17:16)

556 milhões de usuários de celular

O número de pessoas com telefone celular na China representa mais de um terço da população do país, o que significa 556 milhões de pessoas. Ou seja, é quatro vezes e meia maior do que a base de telefones móveis do Brasil. Por conta desse altíssimo número, o celular é tratado como uma importante mídia emergente na China. Ao lado das telas de LCD, que estão presentes em táxis, metrôs, fachadas de prédios e interior de lojas, a publicidade desses meios emergentes vai crescer nada menos que 82% neste ano e 47% em 2009, segundo relatório do GrupoM, holding das agências de mídia do grupo WPP. Na área da celular, há praticamente um monopólio da estatal China Telecom, que está desenvolvendo ferramentas de marketing e de publicidade para seus clientes. Assim como no Brasil, os celulares 3G, aqueles que permitem uma combinação de voz, dados, vídeo e internet, está chegando este ano à China, o que deve potencializar ainda mais esse mercado. Mesmo antes da chegada do 3G, até o final de 2007, 50 milhões de usuários chineses acessavam a internet via celular e 35 milhões receberam notícias sobre os Jogos Olímpicos nos seus aparelhos móveis. Por conta desse potencial todo, a publicidade no celular e em telas de LCD deve se tornar uma opção de mídia interessante e barata, o que faz com que as previsões para seu crescimento sejam bem animadoras.  

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