“Automação é preocupante e não está na agenda brasileira”

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“Automação é preocupante e não está na agenda brasileira”

Em seu primeiro livro, Abel Reis aborda dilemas políticos e éticos da revolução digital, como a valorização da privacidade como moeda de troca no digital

Karina Balan Julio
4 de dezembro de 2018 - 6h00

Mais do que a reinvenção das indústrias, o digital deu aos indivíduos a chance de viver múltiplas personalidades, mesmo que às custas de sua privacidade — a moeda de troca mais efetiva dos tempos atuais. Já a indústria 4.0 vai trazer maiores margens e produtividade para empresas, mas também pode culminar em uma massa de indivíduos subempregados e sem poder de consumo para fazer a roda da economia girar.

Foto: Divulgação

Estes são alguns dos dilemas explorados por Abel Reis, CEO da Dentsu Aegis Network Brasil e da Isobar Latam, em seu livro recém-lançado, intitulado “Sociedade.com – Como as tecnologias digitais afetam quem somos e como vivemos”. Abel, que também é formado em filosofia e engenharia da computação, quis dar vazão a reflexões profundas — quase existenciais — sobre a política, a ética e as dinâmicas de poder que cercam a revolução digital.

“Sei que sou um insider da indústria e acabo lidando muito com o digital, mas tentei ter uma visão distanciada sobre os temas e formular um tom de conversa que faça sentido para o público geral”, conta Abel.

Lançado pela Arquipélago Editorial, o livro conta ainda com análises de profissionais como Ronaldo Lemos (advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio) e Giselle Beiguelman (artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP). O autor doará os royalties referentes aos direitos autorais da obra ao Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio).

Na entrevista abaixo, Abel fala sobre como o digital vem alterando as noções de vida pública e privada, e sobre como tecnologias inteligentes impactarão o mercado de trabalho, inclusive na publicidade.

Meio & Mensagem — Um dos tópicos do seu livro é a relação entre humanidade, privacidade e novas realidades. De que forma o digital redimensionou a vida pública e privada dos indivíduos?
Abel Reis —
A noção do que é público ou privado não foi escrita em pedra na história da humanidade. O público e o privado tiveram significados diferentes de acordo com cada sociedade ou momento histórico. Do começo do século 19 para cá, a sociedade é marcada pela aceleração do capitalismo, pelo surgimento e questionamento do amor romântico e da família nuclear, em um contexto onde as noções de público e privado ficaram mais claras e bem definidas. A separação econômica em classes configurou a ideia de que eu sou eu, e os outros são os outros, ou seja, minha vida privada pertence a mim e a quem eu decidir que ela pertença. Existe a casa e existe a rua. Contudo, o digital deixa essa separação muito menos evidente, pois podemos viver múltiplas personalidades: você pode se apresentar de uma forma no LinkedIn, de outra no Instagram e de outra em um game virtual. Para poder participar destes ambientes virtuais, é inevitável que você tenha que contar muito sobre você.

Como esta experiência digital alterou nossa forma de efetivamente pensar sobre privacidade?
Como precisam participar dos espaços virtuais, as pessoas acabam cedendo muitas informações para as plataformas em que se engajam. Quando mais cedem, mais agradável e útil é a experiência. A privacidade se mostra uma espécie de moeda de troca: você pode ceder mais ou menos e receber mais ou menos benefícios, dependendo do volume de informações que está disposto a ceder. De qualquer forma, você concorda com uma série de regulamentos e com o fato de que suas informações vão ser usadas para outras finalidades, além de aperfeiçoar sua experiência. Estamos caminhando para um mundo onde verdadeiramente vamos atribuir valor e comercializar nossos dados.

“O digital deixa a separação entre público e privado muito menos evidente, pois podemos viver múltiplas personalidades: você pode se apresentar de uma forma no LinkedIn, de outra no Instagram e de outra em um game virtual” – Abel Reis

Qual é o reflexo deste comportamento coletivo sobre a indústria publicitária?
A publicidade sempre criou para audiências anônimas. Até era possível saber por aproximação o segmento e o perfil de pessoas com quem você falava, mas não os indivíduos exatamente. A privacidade é a moeda que permite às marcas estabelecer diálogos e interações customizadas. Agora temos um momento desafiador do ponto de vista regulatório para permitir que possamos, enquanto consumidores, controlar o quanto os outros sabem sobre nós, o tipo de ferramenta que teremos para cancelar ou desabilitar dados que fornecemos involuntariamente.

Por um lado, fala-se muito de como o consumidor está empoderado para tomar decisões, mas, por outro, vemos o controle de seus dados cada vez mais concentrado nas grandes plataformas digitais. Como vê essa reorganização de poderes na esfera digital?
A ideia de que o consumidor está mais empoderado é correta até certo ponto. Realmente ele tem muito mais posições de escolha, mas ainda não consegue decidir sobre o destino de seus dados de maneira rápida na navegação, sem perder qualidade na experiência online. Quem controla os fluxos de comunicação e serviços em escala global são as plataformas como Google e Facebook, e a concentração só aumenta. É um jogo de poder que favorece muito mais às plataformas do que o consumidor, os próprios anunciantes e governos. Quando temos poder demais na mão de poucos, o mercado perde competitividade e transparência. Quando perdemos esses dois ativos, é hora de termos regulamentação. Este movimento não é novo, basta ver a história de marcas como a AT&T, que ao longo dos anos foi desmembrada em dezenas de companhias justamente porque concentrou demais a força econômica.

“Vamos precisar de ações do governo, de empresas e organizações sociais para mitigar os impactos da automação na sociedade brasileira. Senão, corremos o risco de, daqui a 20 anos, termos uma massa de gente sub-qualificada, subempregada e sem poder aquisitivo”

No livro, você também reavalia as relações de trabalho e o desenvolvimento de carreira como conhecemos. Como vê o impacto da indústria 4.0 no mercado de trabalho, principalmente no Brasil?
Estamos sendo obrigados a viver uma ruptura no funcionamento das economias e nos processos produtivos com a tecnologia e a inteligência artificial. No Brasil, já nos perguntamos sobre como vamos aperfeiçoar o nível educacional das gerações mais jovens, considerando que muitas das capacidades que serão exigidas nos próximos 10 ou 20 anos não existirão na cabeça destes jovens, mas em muitos dos sistemas das empresas. Contudo, mal resolvemos as etapas anteriores, que dizem respeito à educação de qualidade para a maior parte das pessoas. Quando olhamos para a realidade brasileira e para a massa de pessoas desempregadas ou subempregadas, é muito provável que vamos precisar de capacitação. Ao mesmo tempo, as empresas não vão deixar de investir em automação, pois automação traz escala, maiores margens e eficiência. Acho que vamos precisar de ações do governo, de empresas e organizações sociais para mitigar os impactos da automação na sociedade brasileira, e encontrar um equilíbrio social para viver essa situação. Senão, corremos o risco de, daqui a 20 anos, termos uma massa de gente sub-qualificada, subempregada e sem poder aquisitivo para ter um papel relevante na economia. A consequência disso pode ser a continuação do crescimento pífio da economia. A automação é um tema que me preocupa muito, mas infelizmente não está na agenda da sociedade brasileira, assim como não apareceu no processo eleitoral e nas agendas de governo.

Na sua opinião, em que medida profissões ligadas à publicidade serão impactadas pela automação?
Algumas disciplinas vão de fato sofrer mudanças rapidamente, principalmente áreas de back office. Uma delas é a área de mídia, que está mudando profundamente como consequência do digital e vai sofrer com o impacto da inteligência artificial nos próximos anos. Quem acho que segue tendo um papel decisivo para a indústria é o criativo. Até que as agências sejam ocupadas por robôs criativos, os humanos terão muito trabalho, principalmente nas áreas ligadas à criatividade e comportamento.

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