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"Campanha de Obama não foi inovadora"

Homem por trás da campanha de François Miterrand, Jacques Séguéla explica porque "Yes We Can" não trouxe novidades

Felipe Turlão| » ENVIAR E-MAIL »

18 de Julho de 2012 11:57

Para Jacques Séguéla, campanha de Barack Obama teve mesmo tema da de François Miterrand, “A Mudança é Agora”
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Para Jacques Séguéla, campanha de Barack Obama teve mesmo tema da de François Miterrand, “A Mudança é Agora” Crédito: Divulgação

Uma das maiores personalidades da história da publicidade mundial, Jacqués Séguéla, nascido em 1934 e doutor em farmácia, mantém a mesma vibração que tinha quando fundou em 1970 a antiga RSCG, à qual emprestou a letra S. Tanto que ele considera o nome obsoleto e propôs diversas reformas na holding Havas. Apesar de não gostar do rumo que os festivais de publicidade tomaram, o publicitário francês foi presença de destaque no Havas Café, evento da sexta maior holding da publicidade mundial paralelo à programação oficial do evento. Em entrevista ao Meio&Mensagem, o vice-presidente e diretor global de criação do Havas e homem por trás da campanha que levou François Mitterrand ao poder em 1981, palpitou sobre o agitado cenário político e a combalida publicidade na França, além de criticar a campanha de Barack Obama em 2008.

Meio&Mensagem ›› O que você pensa das campanhas políticas modernas, especialmente a de Barack Obama em 2008, considerada revolucionária por muitos?

Jacques Séguéla ›› As pessoas falam muito sobre a importância da internet, mas ela não é levada a sério pelos eleitores, porque traz muitas informações, escândalos, discussões, mensagens positivas e negativas, só que em um tsunami de informações que passa por cima dos eleitores. Na prática, é a televisão que continua decidindo as eleições. A campanha eleitoral de Barack Obama foi menos inovadora do que a gente propaga. A internet não teve o papel de informar e nem foi determinante para os votos. Ela simplesmente foi uma ferramenta que permitiu levantar US$ 80 milhões e que catalogou os internautas, ou seja: a maior campanha de porta-em-porta da história. A campanha política considerada a mais tecnológica da história se aproximou do convencional. Antigamente, íamos até a casa dos outros para vender produtos. Foi isso que ocorreu. Também elogiaram o slogan, mas “Yes We Can” não representa nenhuma evolução. Poderia muito bem ter sido o slogan do John F. Kennedy que, aliás, foi eleito com o “New Frontiers”, que tinha muito mais propulsão e modernidade do que o de Barack Obama. E o slogan de François Miterrand era “A Mudança é Agora”, ou seja, nenhuma diferença.

M&M ›› Como você analisa as eleições presidenciais na França e a mudança de poder?

Séguéla ›› A eleição de François Hollande é sintomática, porque o povo elegeu um homem do século XX contra um do século XXI, Nicolas Sarkozy. A campanha de Hollande foi muito semelhante à de François Mitterand, com as mesmas atitudes, slogans e “looks”, além de um tom tranquilo, que destoou da de Sarkozy, que fez uma campanha mais tripudiante, com uma ideia diferente e três viagens por dia. Hollande ganhou porque ele usou muito o fato de vir do coração da França, contra o Sarkozy que é de Paris, além de se apoiar nos medos da população. Sarkozy quis avançar demais em alguns temas e propôs muitas rupturas, querendo mudar a Europa, reestabelecer fronteiras e quebrar direitos adquiridos. Os franceses, que estão em fase de recolhimento por conta da crise, e em uma situação de medo do futuro e de perda da identidade nacional, acharam ruim este tipo de visão reformista. Além disso, Hollande representa a volta a um presidente mais típico, que se comporte, fale e tenha a formalidade que o cargo exige. O curioso é que eu estudei muito as campanhas do Brasil, especialmente as de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e o que ocorreu na França foi exatamente o contrário. Os brasileiros foram buscar no coração do povo a possibilidade de um futuro. Aqui, o candidato vencedor foi buscar no povo a possibilidade de um recolhimento.

M&M ›› O que você pensa sobre o momento que vive a publicidade francesa?

Séguéla ›› Ela tem cometido um grande erro. Os consumidores franceses, por conta da crise, estão mais de olho em preço, promoção e descontos. Mas quanto mais quebramos o preço, mais quebramos a publicidade. Ao invés vez de dar ao consumidor a vontade de comprar algo, o estamos rebaixando e dando apenas a opção de fazer um bom negócio para o bolso. O que futuramente acarreta em redução do consumo. Não por acaso, produtos como alimentos e vestimentas, os mais alheios a descontos, foram também os que tiveram maior redução de consumo nos últimos tempos. Esse cenário não é culpa dos profissionais de criação, mas dos anunciantes, que estão com medo. Eles precisam entender que quando tudo está mal na economia, precisamos sonhar com algo. O melhor comercial francês do ano é “O Urso” (da BETC EuroRSCG para Canal+), um filme completamente louco, exagerado e com mistura dos estilos de Hollywood e da França. Mas teve todos os principais prêmios da publicidade, inclusive o Grand Prix de Film Craft em Cannes. A publicidade francesa hesita entre a necessidade de jogar tudo para o alto e inovar, ou de se fechar no pouco que faz. Este combate será decidido pela economia. Se houver melhora em 2013, mesmo que pequena, teremos de volta a máquina criativa francesa.

M&M ›› Você gosta dos rumos que os festivais de publicidade tomaram?

Séguéla ›› A máquina de sonhos virou uma máquina de dinheiro e eu preferiria a máquina de sonhos. Enquanto tivermos homens, teremos sonhos e o envelhecimento começa quando os arrependimentos superam os sonhos. Eu não tenho nenhum problema com a evolução do festival, mas acho que essa inflação de Leões transforma Cannes em um balcão de negócios. Eu espero que a criatividade volte a ser a estrela.

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