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Julio Xavier
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28  May   2013

Criacao

Qual a novidade?

Hoje em dia, muitos diretores se queixam que o nível de interferência no seu trabalho, seja de longa ou curta metragem e, mais que tudo, em comerciais, é muito grande! Mas qual a novidade? Desde que existe o cinema, os maiores nomes sempre tiveram suas obras modificadas, até mesmo distorcidas ou mutiladas.

Tenho os reels de comerciais do Ridley e Tony Scott há muitos anos. E todos, vejam bem, TODOS, eram versões do diretor! Não havia um sequer como tinha ido ao ar.

Participei de uma palestra no Memorial da América Latina sobre outra tendência: diretores de criação de agências que tinham pulado pro lado de cá, para a direção de comerciais. Qual a novidade? Comecei na Denison como criador, passei para a Almap idem, fui para a CIN, hoje Leo Burnett, onde cheguei a ser diretor de criação, e voltei para a Almap como diretor associado de criação. E só então, depois disso tudo, abri minha produtora e passei para a direção exclusivamente.

Em 1980 e poucos, dei uma palestra para 500 profissionais de agência, a convite do Roberto Duailibi da DPZ, em que, claramente, convidei todos os diretores de criação e redatores a dirigir. Inclusive o próprio Zaragoza começou a dirigir comerciais e longas depois disso.

Agora leio no Estadão que a novidade em Cannes deste ano vai ser os clientes contratando homens de criação para que possam dialogar de igual para igual com os criativos das agências. Porque o Google cria, produz e veicula seus próprios comerciais.

Mas qual novidade?

Será que nunca se ouviu falar em House Agencies neste País? E Birôs de Mídia?

Voltando à interferência das agências na direção, há trinta anos a Lintas não comprou uma “moviola” e a colocou à disposição dos seus criadores dentro da agência para que fizessem o final cut? Imaginem hoje com a finalização em computadores? Gente, isso sempre existiu e vai continuar existindo!

O que os diretores atuais e os que migraram há pouco pro lado de cá têm que saber e exercitar, é que, mais que a concepção artística da obra, o que importa é aprender e colocar em prática a arte de tourear. Ou melhor, negociar, contornar. Enfim, SE HARMONIZAR!

É isso que eu venho fazendo ou tentando fazer toda minha vida profissional.

E isso são ensinamentos que eu tirei da arte de velejar. Você não pode lutar contra o vento e o mar. Você tem que se harmonizar, senão ele te vence.

Para atingir o seu objetivo, a maior parte do tempo contra o vento, você tem que ir “orçando”, bordejando em zigue zague.
Assisti a uma palestra do Peter Souter no CCSP em que ele mostrou o maravilhoso comercial da cerveja Guiness (Grand Prix em Cannes), no qual homens começam a tomar Guiness num pub e vão recuando até a pré-história, recuam até voltarem a ser amebas (poucos sabem que Peter foi campeão olímpico de vela na Austrália. Detalhe: ele morava a 300km do mar). Em seguida, mostrou vários comerciais que ele considerava bons, entre eles um dos seus preferidos, o do gorila tocando bateria.

No debate, os principais diretores de criação do País reclamaram: “o que tem a ver um gorila tocando bateria com vender leite?. Esse comercial não tem pertinência!”. Ele, calmamente, como quem vai bordejando em zigue zague contra o vento, ponderou: “Ok, ok, talvez vocês tenham razão. Mas quantos comercias existem no ar que do ponto de vista de marketing estão corretos, enunciando todos os seus pontos de venda para o target certo, mas são boring fazendo o telespectador zapear no ato? Esse não. Ver um gorila sonolento, que vai aos poucos se mexendo e termina dando um enérgico show num solo de bateria, é cativante e as pessoas não cansam de assistir.”

Peter foi presidente do júri em Cannes nesse ano – em 2008 – e adivinhem qual foi o Grand Prix? Bingo! Com sua santa paciência ele dobrou o júri.

Há muitos anos não velejo. Mas uso seus ensinamentos e lições até hoje. Assim como os do Tai Chi Chuan. Devo a isso, tudo que consegui na profissão.

Penso que todas as atividades humanas são absolutamente complementares.Sempre temos lições a tirar para o mundo dos negócios. Conscientemente ou não. E algumas são bastante divertidas.

E depois, lembrem-se: você terá sempre sua versão “na manga.” O seu director cut. Aliás, frequentemente, é a que o cliente mais gosta. Na pior das hipóteses irá para o seu reel.

Julio Xavier, skipper (timoneiro) e sócio da BossaNovaFilms 
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