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30 de Abril de 2012 • 10:07
Helena Rizzo Crédito: Arthur Nobre
Por Mirella Portiolli
Apesar de aparentemente delicada e tímida, a chef Helena Rizzo é uma das figuras femininas mais fortes e destacadas no universo gastronômico brasileiro. Títulos e prêmios permeiam os seus 15 anos de carreira e, como reconhecimento, Helena corresponde com seu trabalho e empenho para apresentar a gastronomia brasileira ao mercado internacional e em seu compromisso diário no restaurante Maní — um dos mais badalados de São Paulo e criado em parceria com os amigos Fernanda Lima, Pedro Paulo Diniz, Giovana Baggio e o marido Daniel Redondo, com quem divide a chefia da cozinha. Nesta entrevista, Helena fala sobre a publicidade na alimentação e as dificuldades de desenvolvimento do mercado de culinária no País.
Meio & Mensagem ›› A apresentação de um prato é uma forma de publicidade?
Helena Rizzo ›› Sem dúvida, a visão é um dos sentidos que contribui para uma experiência gastronômica completa e junto ao olfato formam as primeiras impressões. A comida, quando é muito bem apresentada, encanta, mas em minha opinião o visual não deve se sobressair ao conteúdo. No processo de concepção do prato, a estética é a última etapa e consequência do conteúdo trabalhado.
M&M ›› Como você descobriu sua paixão pela gastronomia?
Helena ›› Desde criança a cozinha e as comidas me despertavam curiosidade. Quando comecei a fazer os primeiros estágios percebi que gostava mesmo de estar ali, de trabalhar com as mãos, de poder sentir tantas coisas ao mesmo tempo.
M&M ›› No início de sua carreira você era modelo publicitária. Você acredita que a escolha do elenco de modelos para campanhas influencia e reforça estereótipos?
Helena ›› Trabalhei como modelo na minha adolescência, entre os 16 e 18 anos. Comecei a fotografar em Porto Alegre e depois em São Paulo. Na época foi divertido, principalmente a conquista de uma independência financeira. Sinceramente naquela época eu não pensava e nem me preocupava em estar criando estereótipos, queria apenas pagar o aluguel no final do mês e me divertir. Hoje, acho que os estereótipos e a repetição dos mesmos podem fomentar preconceitos.
M&M ›› Você presta atenção às campanhas e comerciais?
Helena ›› Muito raramente, pois assisto pouquíssimo à televisão. Eu gosto de ver revistas, às vezes alguma coisa chama atenção, mas no tempo que tenho livre, prefiro ler um livrinho, ver filmes, escutar música ou não fazer absolutamente nada.
M&M ›› Tem algum comercial que você se lembre de quando era criança?
Helena ›› “Da me un Cornetto, es muy crocante, es muy cremoso...” (comercial da Gelato, década de 80). Lembro mais dos jingles.
M&M ›› A imprensa normalmente fala sobre você como modelo-chef. O que você acha disso?
Helena ›› No início me incomodava e hoje acho engraçado, principalmente quando me perguntam por que deixei “as passarelas” para virar cozinheira, sendo que nunca pisei numa (risos). É aquela necessidade da glamourização e da etiquetagem, dos rótulos. Isso é chato!
M&M ›› Qual é sua opinião, como chef de cozinha sobre as discussões que pretendem restringir propagandas de alimentos gordurosos, calóricos ou com gordura trans?
Helena ›› Eu li a respeito e acho positivo. Na verdade, não acho que vá solucionar, porque ainda existe um poder bem forte por trás disso, uma manipulação da mídia na alimentação da população em geral, inclusive em relação às crianças. Eu penso que as pessoas responsáveis pela marcas visam à venda e não ao bem-estar, à saúde. É o nosso sistema, enfim. Então a gente fica meio sem saber o que é bom e o que é ruim, porque tudo que é bacana e vem com uma proposta legal, acaba virando um slogan, fica difícil separar o joio do trigo. Por isso considero importante manter a ética e responsabilidade em todos os momentos. Mas a iniciativa é bacana, tomara que ocorra mesmo. Só penso que, antes de proibir, tem de haver informação. E, infelizmente, isso não acontece na indústria alimentícia. Acredito que o ser humano tem o direito de escolher como quer se alimentar, como quer viver. Mas para isso, precisa ter acesso à informação e o “sistema” alimentar não dá espaço a isso.
M&M ›› No Maní você divide as funções de chef com seu marido, o também chef Daniel Redondo. Fale um pouco sobre essa parceria.
Helena ›› É muito bom. Nós temos uma parceira boa, até porque sendo dois na cozinha a gente consegue se revezar, respirar e se inspirar com outras coisas. É muito bom ter com quem dividir as ideias, os perrengues, as responsabilidades e o trabalho.
M&M ›› Em sua opinião, o que dificulta o desenvolvimento do mercado gastronômico no Brasil?
Helena ›› A legislação, porque é mais fácil proibir do que facilitar o desenvolvimento e criar regras específicas para cada setor. A burocracia também dificulta, e a falta de apoio do governo em olhar a gastronomia como um aspecto e um setor importante na nossa cultura. Ainda assim, acho que estamos caminhando.
M&M ›› Em seu restaurante há uma prioridade de utilizar apenas alimentos frescos, saudáveis e de qualidade. É difícil encontrar alimentos com essas características?
Helena ›› Temos de trabalhar com mais produtores e a logística é muito mais complicada. O nosso trabalho de buscar qualidade é diário. Na verdade a gente está na cozinha e também está atento ao que está recebendo. E mantendo o contato com esses produtores, que é muito importante. Precisamos ir atrás e procurar informação sobre a qualidade desses alimentos, não apenas as gastronômicas, mas o que tem por trás disso tudo, de onde vem, quem planta. É o trabalho do dia a dia. Restaurante é assim mesmo.
M&M ›› A culinária passou a ser tema padrão em muitos programas de televisão. Atualmente canais por assinatura têm se especializado e investido em conteúdos culinários. O que você acha desses programas? Acredita que esse tipo de estratégia ajuda na popularização da gastronomia?
Helena ›› Como passo boa parte do meu tempo na cozinha, vejo muito pouco televisão e a última coisa que quero fazer quando chego em casa é ver programas de culinária. Mas já vi alguns e tenho amigos que adoram assistir. Eu gosto principalmente dos programas que saem um pouco da cozinha e vão ao produtor. A National Geographic, por exemplo, tem ótimos programas desse tipo.