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28 de Maio de 2012 • 08:41
Fátima Toledo Crédito: Diego Bianchi
Por Raissa Coppola
Há mais de 30 anos na ativa, a preparadora de elenco Fátima Toledo tem no portfólio
vários talentos descobertos para filmes como Central do Brasil, Cidade de Deus e,
mais recentemente, Tropa de Elite. Conhecida pela rigidez, Fátima fala sobre a
adaptação do método de trabalho que segue — considerado polêmico por alguns — para a publicidade, as dificuldades de produção de cinema no País e o pouco conhecimento sobre o trabalho de coaching.
Meio & Mensagem ›› Como você definiria o método Fátima Toledo de preparação de elenco?
Fátima Toledo ›› Ele é totalmente sensorial. Eu não construo personagem com os atores. Isso já o diferencia de outras linguagens de atuação que conhecemos. É claro que existe um personagem e vamos chegar lá, mas o que faço é revelar o ator para que ele revele o personagem. Na verdade, o meu foco de trabalho é em cima do ator. O método mexe muito com a pessoa, para que ela chegue ao personagem. A partir daí, vou revelar esse personagem, vou colocar o ator no universo do filme e vou desenvolver as relações. Depois, vamos fazer o levantamento de cenas. O diferencial do método é o sensorial: você olha para os atores e acredita que os personagens deles existem na vida real. Não são personagens, aliás, são pessoas. É um trabalho que levanta muito o lado humano do ator. Por isso, vários resistem a ele.
Meio & Mensagem ›› Você se incomoda com o estigma de que seu método é invasivo, agressivo, polêmicas que surgiram na imprensa?
Fátima Toledo ›› Já ouvi várias coisas: que o método é agressivo, que deixa hematomas, que eu belisco crianças (risos). Na verdade, o método ficou estigmatizado porque os filmes em que ele mais se destacou foram os fortes, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Agora, as pessoas não viram Casa de Alice e Sábado, que são filmes mais poéticos em que o método, também, marca presença. As pessoas viram filmes em que o tom agressivo estava no próprio filme. Se a produção precisa ter um tom forte, eu vou dar esse tom. E como mais pessoas viram os filmes mais agressivos, o método ficou associado a essa ideia, que não é real. No começo, eu até ficava triste, chateada, porque eu ouvi coisas horríveis. A imprensa falou barbaridades. Na verdade, eu sei o que estou fazendo, os atores confiam em mim.
M&M ›› Algum ator já se recusou a participar da sua preparação?
Fátima ›› Já. Mas quando o ator foi incorporado ao elenco, o trabalho de preparação já havia começado e ele se assustou, não quis participar. É normal ter uma resistência. Sempre tem. Quando você mexe com as pessoas, a tendência é haver resistência, que, depois, é rompida e se transforma em um vínculo afetivo. Há momentos em que eles ficam cismados comigo, sim. Lembro que o Lázaro Ramos, no Cidade Baixa, falava: “Isso é só um filme. O que você quer?”
M&M ›› Quando você decidiu levar a preparação de elenco para a publicidade?
Fátima ›› Eu comecei na publicidade. Trabalhei como assistente do cineasta Ugo Giorgetti há muitos anos. Trabalhar com publicidade era uma coisa que já fazia, mas que estava parada na minha vida por conta do cinema. Adaptei meu método porque gostaria que o Studio Fátima Toledo de Preparação trabalhasse com a área de publicidade. O principal desse método exclusivo para a propaganda é que ele deixa o ator mais solto, mais natural,para que ele acredite no produto que está vendendo. Às vezes, nem é um ator, é um modelo e ele fica desconfortável. Então, você consegue soltá-lo. Com a criação deste método, estou querendo que a casa retome o atendimento de uma área que nós havíamos parado.
M&M ›› Quais são as principais diferenças entre preparar um ator para o cinema e para a publicidade?
Fátima ›› Há uma diferença enorme. O ator de cinema demanda uma preparação muito maior, muito mais artesanal. A preparação de um filme dura dois meses, com encontros diários. A preparação para a publicidade você faz em dois dias, três. Porque o que o produto pede é muito mais objetivo. Você está naquele comercial e vai vender aquele produto. Há uma objetividade que o cinema nem sempre tem. No cinema, você tem que fazer uma viagem interna pelo universo do filme. Na publicidade, não. Você precisa ser o agente de venda daquele produto, precisa ter o carisma para que a gente olhe o produto e o veja por meio do ator. É um processo mais rápido, mais dinâmico e mais objetivo do que o cinema. No comercial, não há um personagem. Existe você e o produto, a sua relação com ele e se você convence o consumidor.
M&M ›› O que você acha do cinema brasileiro atual?
Fátima ›› As equipes brasileiras são fantásticas. Fotógrafos, som, tudo é sensacional. Somos bem preparados para trabalhar em qualquer lugar. Esse é meu grande elogio ao cinema nacional, apesar da dureza de fazer cinema no Brasil. Minha crítica continua sendo a forma como se lida com cinema por aqui e a distribuição. E tem outra coisa, um diretor faz um grande filme e ele é obrigado a repetir o desempenho nos outros. É uma cobrança violenta. O cinema tem que ter comédias, dramas, bons filmes e filmes ruins. Acho que precisamos produzir mais, dar mais chances, fazer mais documentários, curtas. Ficamos tanto tempo sem cinema que só os grandes filmes nos interessam agora. Os filmes pequenos e ótimos, que aqui ninguém vê, chegam lá fora e ganham trilhões de prêmios. E nem sabemos. Isso me incomoda muito. É uma coisa de país colonizado. Por exemplo, coaching, que é o que eu faço, só foi reconhecido como profissão em 2001 e eu comecei em 1979. A imprensa nunca entendeu esse trabalho. Demorou até Cidade de Deus para que eles entendessem o que é. Mas, poxa, até Bette Davis tinha um coach! Aqui tudo é muito demorado. Precisamos entender logo que nosso trabalho é maravilhoso e nosso cinema é um dos melhores do mundo.
M&M ›› Incomoda o fato de o cinema brasileiro estar apoiado em poucos atores, como Selton Mello, Lázaro Ramos e Wagner Moura? Por que não há diversidade?
Fátima ›› Concordo. Amo esses profissionais, mas acho que precisamos abrir o leque. Nós não achamos a Sandra Corveloni, que ganhou Cannes (melhor atriz em 2008 pelo filme Linha de Passe)? Por que não podemos fazer mais isso? O problema é que muitas vezes você só consegue captar recursos se tal ator estiver. Se ele não estiver, pode captar menos. Precisamos deixar isso para trás. A questão é que, se o filme tem um bom roteiro, com bons atores, não vai ter erro. Ele fará sucesso.