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04 de Junho de 2012 • 17:30
Hugo França Crédito: Arthur Nobre
Por Laís Peterlini
Árvores centenárias derrubadas pela ação irresponsável do homem viram obras de arte nas mãos do designer Hugo França. O artista utiliza resíduos florestais para criar esculturas mobiliárias que podem ser vistas no Parque do Ibirapuera (SP) ou no Instituto Inhotim (MG), sem contar as peças vendidas na Europa e nos Estados Unidos. Com foco no meio ambiente, o escultor fala sobre o modismo que o tema sustentabilidade conquistou entre as empresas e destaca a pouca valorização do design artístico no Brasil. Confira parte da entrevista e duas perguntas exclusivas para a versão online.
Meio & Mensagem ›› Grande parte das empresas tem usado a palavra “sustentabilidade” como uma ferramenta de marketing. O que você acha disso?
Hugo França ›› Falar de sustentabilidade é muito delicado, porque se a empresa não tem ações sustentáveis de verdade está cometendo uma grande irresponsabilidade. Poucas companhias realmente entendem esse conceito e trabalham de acordo, mas há uma conscientização crescente dos brasileiros em relação ao tema, o que por si só já é positivo.
M&M ›› Como você vê o mercado de design de produtos no Brasil? Por quê?
França ›› É um mercado crescente e muito promissor. As pessoas estão começando a olhar com outros olhos para o design. Eu acredito que isto seja resultado do crescimento mundial do design, da globalização e da nossa economia, que está muito aquecida. Com a internet e as redes sociais, as informações sobre o que está acontecendo em todo lugar circulam mais rápido. Isso aconteceu, por exemplo, na última Design Week de Milão, em abril. É muito bom, porque o design tem gerado mais interesse e qualquer pessoa pode entendê-lo e acompanhar as novidades.
M&M ›› Quando surgiu a ideia de utilizar as árvores mortas como matéria-prima para o seu trabalho?
França ›› A ideia surgiu no início dos anos 1990, em função da minha vivência em Trancoso (Bahia). Naquela época, havia na região um desmatamento e uma exploração da madeira muito grandes. Convivendo com isso, comecei a pensar intuitivamente nessa questão e surgiu a ideia de um trabalho que mostrasse a madeira como ela é. Inicialmente, eu apostava nas canoas antigas, pela referência cilíndrica que remetia ao tronco da árvore e à sua textura, mas, em contato com os índios pataxós, conheci o pequi e fiquei encantado com as características particulares desse resíduo. Um pequi pode viver até 1.200 anos e, por isso, tem um valor arqueológico muito grande. Além disso, o pequi tem uma umidade dentro do lenho da madeira que é permanente e não queima, o que possibilita que eu encontre esses resíduos em áreas que passaram por queimadas. Ele é o único resíduo florestal que sobra do desmatamento.
M&M ›› Suas peças já foram leiloadas em alguns lugares do mundo. Por que você nunca participou de leilão no Brasil? Como analisa o mercado de design brasileiro?
França ›› Aqui nunca participei de leilão, mas é por falta de oportunidade, mesmo. Na verdade, o mercado de design ainda não é muito desenvolvido. Este mercado está em alta nos Estados Unidos, mas, no Brasil, ainda estamos engatinhando um pouco nesse nicho do design, que é diferente do design industrial. Esse mercado, entre arte e design, é mais voltado para objetos, como o trabalho que faço de peças únicas, mas isso ainda não é tão entendido e valorizado. Nessa questão de arte, o Brasil ainda tem um pouco dessa postura de Terceiro Mundo.
M&M ›› Cerca de 13 milhões de hectares de floresta são perdidos no Brasil todos os anos. Mesmo com o tema da sustentabilidade em voga, por que você acha que isso ainda acontece?
França ›› Acredito que pelo interesse econômico. A política de preservação dos recursos naturais brasileiros é totalmente falha, corrupta e absurda. Isso é lastimável.
M&M ›› Qual seu próximo projeto?
França ›› O projeto que eu estou tentando viabilizar agora é o aproveitamento das árvores de parques e jardins na confecção de mobiliário público, aliado à criação de uma escola para formar mão de obra especializada nesse tipo de trabalho. A ideia é dar um aproveitamento mais nobre para essas madeiras e, em contrapartida social, formarmos mão de obra e pessoas que pensem nesse tipo de aproveitamento urbano. Estou lutando já há dez anos para conseguir um apoio público e privado para criar uma escola que forme essa mão de obra específica. Quero apostar no aproveitamento de árvores urbanas e levar isso para o mundo todo com know-how e a mão de obra brasileiros.