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“A propaganda brasileira vende valores muito ruins”

Urbanista e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik propõe que o mercado ofereça, no lugar da exclusividade, a diversidade como um grande valor

18 de Junho de 2012 08:30

Meio & Mensagem ›› Você tem de ter um lado publicitário no seu trabalho? 

Raquel Rolnik ›› Claro. Sou uma relatora, olhando para a questão dos direitos humanos relacionados à moradia em todo o mundo, apenas com um assistente na Suíça e recursos para duas missões por ano. E ponto. Então, tive de virar publicitária, pensar numa estratégia de comunicação. Criei um site, um produto, uma imagem da relatoria e informativos. Tento fazer uma estratégia dos relatórios junto à imprensa, a fim de pautar o tema, também. Tento me grudar aos temas da agenda e colar a moradia como uma forma de fazer a questão aparecer. Fazer o relatório pelo viés dos grandes eventos (Raquel apresentou o relatório em 2010, associando a ameaça ao direito à moradia adequada à realização de grandes eventos no País) é um exemplo disso. Foi o exemplo mais bem-sucedido da Raquel publicitária (risos). Rende discussão até hoje, mesmo tendo sido feito há um ano. Fiz isso com a crise econômica, com as questões climáticas... Tento colar a moradia a essas questões, até porque elas estão muito relacionadas. 

M & M ›› A publicidade reforça o modelo de habitação ligado ao produto casa e não à vida na cidade? 

Raquel ›› Recentemente, fui banca de um trabalho acadêmico que analisa os folhetos promocionais e o que aparece neles. As imagens remetem a uma simulação do que seria o jeito de morar das classes médias e altas. É aquilo que vemos na novela das oito da Globo e aparece na revista Caras: uma repetição de piscinas, quadras, espaço zen, churrasqueira... Além do mais, os desenhos são totalmente fora de escala. Quando você vai ver, um conjunto habitacional com mil unidades tem uma churrasqueira só para todo mundo. O imaginário do consumo é muito pautado por isso e vende isso. Mas você leva para casa outra coisa: uma localização na cidade. É enganoso e, depois, isso tem um efeito. É como propaganda de carro. Eles aparecem correndo livres, leves e soltos. Onde, hoje, no Brasil, um carro pode fazer isso? Ou está numa estrada parada ou numa cidade congestionada.  

M & M ›› Como mudar essa ideologia? 

Raquel ››  Com ideias que vão contra a coisa do “ser é ter”. As mensagens publicitárias podem vender ideias como a não-segregação, vender a heterogeneidade como um valor. Seria uma ideia oposta à da exclusividade, do condomínio só para iguais. A mistura, a existência dos diferentes deveria ser o grande valor veiculado. Hoje, o princípio que organiza a ideia da separação, do exílio, da segregação das classes é de que a presença do pobre desvaloriza o mercado.

M & M ›› Você acha que a responsabilidade social deveria pautar a publicidade? 

Raquel ›› A publicidade existe para vender produtos. Não se pode pedir para fazer algo que fuja a essa função. Mas, dada a sua importância na difusão e na disseminação dos valores, deveria, sim, se preocupar com esses valores. Me irrito profundamente com os comerciais de cervejas, cheios de gostosonas. Será que não existem outros valores relacionados para vender a cerveja? A alegria, os festivais de cultura popular, tanta coisa! A cerveja é democrática, não precisa ser só boazuda para vender.

M & M ››  Você acha que, de alguma forma, a questão da moradia no País pode ser beneficiada pelo fato de estarmos na mira internacional, com Copa do Mundo em 2014 e Olimpíada em 2016?

Raquel ›› Os dois eventos têm sido, em todas as cidades que os recebem, uma espécie de vitrine para atração de investimentos. Você vende o País sem gastar um tostão de publicidade. Em todas as experiências que já vi — umas mais perversas, outras menos — isso significou a abertura de frentes de expansão imobiliária vinculada à região onde os jogos se organizaram. Nos países onde a população não tem um grau básico de urbanidade, você nota um processo de remoção em massa de populações de menor renda em áreas bem estruturadas e bem servidas. Isso tem sido denunciado e o país aparece mal na fita. Somos a bola da vez, todo mundo está de olho. Não é à toa que, recentemente, numa votação sobre direitos humanos, a Vale ganhou o título de pior multinacional do mundo em função do tratamento que dá aos locais onde atua. Quem daria bola para a Vale algum tempo atrás? Espero que isso aconteça, mesmo. Esse é um momento interessante para o Brasil.  

M & M ›› A imagem do País corre riscos em situações como essa? 

Raquel ›› A operação Copa-Olimpíada é muito forte. O poder é muito grande porque estamos falando, além de desenvolvimento, da questão esportiva, algo que mobiliza passionalmente as pessoas. É um movimento nacionalista. É o Brasil no esporte, outra coisa que dá muita força para a mensagem. O futebol, ainda por cima, é parte da alma do brasileiro, algo muito forte na cultura popular. É muito mais fácil construir aquele discurso que já está na publicidade dos produtos ligados à Copa, com todas as marcas trabalhando seu branding associado ao evento. O grande desafio de quem luta por uma situação mais justa é comunicacional. Como você enfrenta um negócio deste? É algo muito mais poderoso, porque estamos crescendo e o Brasil está vivendo uma euforia. Mas o lado B do País é bem barra pesada. Tem jagunço matando gente por causa de terra, tem empresa entrando em território indígena e provocando massacre, tem mulher apanhando dentro de casa, tem racismo. Superar esse lado B faz parte do nosso processo de desenvolvimento. 

M & M ›› Você acompanha a produção publicitária brasileira?  

Raquel ››  Segundo minhas filhas, eu já evoluí bastante. Nos anos 1970 e 1980, eu não tinha nem televisão. Hoje em dia, já sento no sofá para assistir (risos). Acompanho, de vez em quando, acho que a propaganda brasileira é de uma sofisticação incrível em sua produção. É impressionante. Acho que temos coisas geniais. Mas, do ponto de vista dos valores que veicula, é tudo trash. A propaganda brasileira vende produtos muito bem, mas valores muito ruins. Por outro lado, a grande qualidade e a capacidade de criação e realização movem nosso cinema. E há coisas bem-humoradas que olho e penso: "É genial". São comentários sobre nossa cultura.

M & M ›› Tem algum exemplo? 

Raquel ››  A campanha da Sky com a Gisele Bündchen é genial (criada pela Giovanni+DraftFCB). Ela, de dona de casa com o cara voltando para casa, querendo ver TV, é muito engraçada. O cara com a TV e o futebol, ela à espera, a música do Roberto Carlos... São valores brasileiros muito fortes e a propaganda funciona.

A urbanista vê na propaganda uma ferramenta para disseminar valores melhores entre a sociedade
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A urbanista vê na propaganda uma ferramenta para disseminar valores melhores entre a sociedade Crédito: Arthur Nobre

 
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