Abertura dos Jogos Crédito: Xinhua/ Eyevine News/ Latinstock
Que esta seria a Olimpíada mais social de todos os tempos, não havia dúvida. Tanto se falou disso que diversas estratégias de marketing foram construídas tendo as redes sociais como fortes aliadas ou como motores de ações criadas por marcas e veículos. O fato é que, passados poucos dias da abertura dos Jogos de Londres, a mídia social vem ganhando destaque mundo afora por aquilo que “não foi criado”. São episódios que surgiram em virtude de situações não calculadas. Ou de riscos não imaginados.
O episódio mais nevrálgico, ao menos até esta terça-feira, 31, foi a suspensão no Twitter da conta do jornalista Guy Adams, profissional que atua para o britânico The Independent a partir de Los Angeles. O que determinou a decisão do microblog foi a série de críticas que Adams fez à cobertura da NBC, detentora dos direitos de transmissão na TV americana. A emissora exibiu a cerimônia de abertura dos Jogos com delay - competições também estão sem exibição ao vivo. O estopim, nesse caso, foi a divulgação, feita pelo jornalista, em meio a termos duros, do e-mail corporativo de um executivo da NBC, para onde o público poderia enviar suas queixas. O Twitter alegou que Adams infringiu regras do site ao postar o endereço eletrônico e fornecer dados confidenciais de outra pessoa.
A NBC acionou o Twitter pela divulgação do e-mail. O tom ácido das mensagens também irritou a cúpula da TV, mas isso não foi declarado. É o que dá a entender reportagem de outro jornal inglês, o Guardian. De acordo com um comunicado divulgado pelo diário britânico, a rede americana procurou o microblog para reclamar do uso de dados pessoais. A NBC teria deixado a critério do Twitter a punição. Uma porta-voz da companhia americana afirmou que não monitora a atividade de usuários do Twitter e que não faz comentários a respeito de como as pessoas atuam nas redes sociais.
O próprio Twitter foi bombardeado por sua decisão. E a hashtag #NBCfail correu pela rede. Um dos motivos que leva o público a acreditar que houve uma intervenção da NBC e não uma medida exclusiva do Twitter é a parceria que as duas empresas firmaram recentemente. Por meio desse acordo, anunciado em 23 de julho, o microblog criou uma página especial dentro do site (clique aqui), que agrega conteúdo publicado nos perfis de responsabilidade da NBC no Twitter. E adotou um sistema específico de monitoramento de menções aos Jogos. A parceria, na opinião de diversos tuiteiros, teria pesado na resolução do site.
Nesta terça-feira, 31, Adams se manifestou, com um artigo disponibilizado pelo site do The Independent. Ele recebeu da direção do microblog uma mensagem perguntando se ele tem desejo de retomar seu perfil (o jornalista deixa claro que sim). O Twitter pede que Adams confirme o interesse e questiona se ele entendeu as regras do site. Parte da resposta dele segue abaixo: “li e reli as regras. Claramente não as entendo porque eu não tenho ideia de que forma eu as quebrei. Vocês alegam que eu postei um ‘e-mail privado’. Não fiz isso. Postei um e-mail corporativo, não um privado.”
Adams diz que o e-mail é encontrado no Google. E acrescenta que o Twitter expõe, em suas regras, que se uma informação foi previamente postada em qualquer lugar na internet, antes do tweet, isso não se constitui em violação das polices.
Movimento, insultos e expulsão
Atletas dos Estados Unidos usaram o Twitter para protestar contra uma cláusula do Comite Olímpico Internacional (COI). A regra, mencionada no microblog com a hashtag #rule40, impede que os desportistas mencionem na midia social seus patrocinadores pessoais, para que não se corra o risco de marketing de emboscada (para saber mais detalhes, leia “Atletas pedem ‘liberdade’ nas redes sociais”). Contra essa medida surgiu o movimento #WeDemandChange.
Outro episódio que evidencia como as redes sociais têm papel decisivo na relação do público com os Jogos foi a exclusão de um atleta suíço das olimpíadas. Michel Morganella, relacionado no time de futebol do país, ofendeu sul-coreanos ao chamá-los de “atrasados mentais”, numa estúpida provocação publicada no Twitter. Ele teve de voltar para casa e sua conta no microblog não está mais ativa. Pelo lado brasileiro, a judoca Rafaela Silva também perdeu controle ao reagir a comentários de seguidores no site, usando palavrões. A delegação brasileira avisou que não dará punições a atleta por entender que a judoca estava de cabeça quente.
São histórias assim que indicam que, de todo modo, estes Jogos se sacramentam como aqueles em que a mídia social revela seu amplo poder de fogo. E que, se é uma bela estratégia para engajar público e gerar relacionamento, pode ser também a maneira mais rápida de se deflagrar e espalhar uma crise. Isso deve ser levado em conta.