A presença de Portinari

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A presença de Portinari

Na cultura e no mercado, a imagem do artista ganha fôlego com a exposição de Guerra e Paz

Roseani Rocha
13 de janeiro de 2012 - 12h00

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Candido Portinari, nascido na cidadezinha de Brodowski (ou Brodósqui), no interior paulista tornou-se um dos maiores artistas nacionais, quando embarcou de vez no universo das belas artes em estudos no Rio de Janeiro, para onde mudou, e na Europa. Apesar de seu legado de cinco mil obras, passados alguns anos de sua morte (1962), sua memória começou a correr risco e foi aí que seu filho João Candido Portinari decidiu dedicar a vida à organização e divulgação da obra do pai, através do Projeto Portinari (www.portinari.org.br), assim como ao uso da marca Portinari. A história, no entanto, nem sempre foi assim.

Durante a juventude, João Candido se sentia oprimido pelo parentesco e quando completou 18 anos, mudou para a França, onde se formou em Matemática e Engenharia de Telecomunicações. Nos Estados Unidos, fez doutorado no Massachussets Institute of Technology (MIT). O pai faleceu quando ele tinha 23 anos e ainda estudava na França. João Candido voltou ao Brasil após 10 anos vivendo no exterior, a convite da PUC-RJ, para fundar o Departamento de Matemática da universidade. Um ano depois virou diretor da instituição e durante os 13 anos em que lá esteve, ligado à educação, não quis saber de Portinari. Quando percebeu, no entanto, que a memória do artista começava a se desfazer, pelo fato de seus contemporâneos estarem também falecendo, decidiu se aproximar da obra do pai e descobriu um universo a ser explorado. E dentro mesmo da universidade fundou há 32 anos o Projeto Portinari, que segundo ele tem sobrevivido durante todo esse tempo com uma estrutura “mínima” e muita luta.

Os primeiros 25 anos do Projeto Portinari foram dedicados à busca das obras do artista em todo o Brasil e em mais de 20 países. O material colhido por uma pesquisadora e um fotógrafo foi compondo o que João Candido afirma ser o primeiro catálogo raisonné (uma compilação detalhada e comentada da obra de alguém) completo de um artista em toda América Latina. Hoje o site possui 5.000 obras e 30 mil documentos. João Candido ressalta que o ritmo de trabalho de Portinari foi o mesmo do holandês Vincent Van Gogh. “Van Gogh deixou 2.500 obras, mas em compensação, trabalhou a metade do tempo, 20 anos. Era um ritmo infernal, eu me lembro dele (Portinari) dizer para minha mãe, ‘não me chama para almoçar, se a comida não estiver na mesa”, comenta João Candido. O jornalista e escritor Antonio Callado, quer era amigo do pintor, por sua vez dizia que “Portinari lavrava sua produção de quadros como os seus pais haviam feito com o café, de sol a sol”.

O envolvimento com o Projeto Portinari fez João Candido passar a tomar conhecimento inclusive de críticas feitas ao pai, muitas delas “desonestas”, como a de uma professora de história da arte da USP, que associou o pintor ao Estado Novo. Segundo João Candido, em uma de suas obras ela dizia “todo governo forte precisa de pintura histórica, e aí estava Portinari para fazer esse serviço. Tiradentes, chegada de D. João VI, Primeira Missa no Brasil, Portinari assumia o posto de pintor oficial”. Como o Projeto Portinari chegou às matrizes de todas as obras, ele rebate: “Tiradentes foi feito em 49, não tem nada a ver com Estado Novo, foi encomenda de um colégio particular de Cataguazes; Chegada de Dom João VI é de 52, fora do Estado Novo, encomenda de um banco particular da Bahia; e A Primeira Missa no Brasil é um caso ainda mais esquisito, porque ele o faz em 48, quando nós estamos exilados no Uruguai, por ele ser comunista”, diz.

Passada a fase de catalogação e análise das obras, a vocação do Projeto Portinari, depois de 25 anos, segundo João Candido é a educação, a criança e o jovem. “Eu tenho uma filha adolescente, de 15 anos, e é difícil com essa massa alienizante e alienígena que vem dos EUA você fazer sua criança fincar os pés nas coisas do Brasil”, queixa-se. Por conta disso, o projeto criou um núcleo de arte-educação que tem percorrido regiões remotas do Brasil, levando cópias das obras do artista junto com propostas pedagógicas, em regiões de rios, como Pantanal, Amazonas e, agora, do São Francisco.

Estados Unidos e ONU

Foi nos Estados Unidos que o pintor ganhou projeção internacional, ao receber a segunda menção honrosa no Prêmio Carnegie, pela tela O Café, em 1935. E quem imagina que o prêmio não seja grande coisa, vale dizer que no ano anterior o agraciado tinha sido Salvador Dalí. Além disso, há quatro murais de Portinari na Biblioteca do Congresso Americano, mas o grande destaque ficaria guardado em outro lugar.

Na década de 50, a Organização das Nações Unidas (ONU), inaugurando sua sede em Nova York, pediu a vários países que doassem uma obra de arte para a instituição e Portinari foi o escolhido pelo Brasil. Numa seleção de temas, elegeu Guerra e Paz e fez os famosos murais, que pela primeira vez retornaram ao Brasil desde então, graças a esforços do Projeto Portinari e do Ministério da Cultura, desde 2007, quando a entidade anunciou que iria fazer uma reforma em sua sede. Depois de uma temporada curta de 12 dias, no Teatro Municipal do Rio, em 2010, com direito a apresentações de Milton Nascimento (que compôs duas canções dedicadas à obra) e de balé com Ana Botafogo, os murais estão chegando a São Paulo.

A exibição no Memorial da América Latina, que acontece de 06 de fevereiro a 21 de abril, será a primeira após a restauração dos painéis feita em 2011. O dia 06 de fevereiro foi escolhido porque nele se completam 50 anos da morte do artista.

Além dos murais, serão expostos 80 dos 200 estudos que o pintor fez durante quatro anos, para compor sua obra-prima. João Candido classifica a mostra, que levou 44 mil pessoas ao Rio e espera público de 800 mil pessoas em São Paulo, como “uma mensagem humanista e ética, num mundo conflagrado pela violência”. De São Paulo, ela segue para um tour mundial, devendo passar por cidades icônicas como Tokyo (a tentativa era Hiroshima, uma das duas únicas cidades a sofrer ataque nuclear, na Segunda Guerra Mundial) e Oslo, na Noruega, coincidindo com a entrega, em dezembro, do Prêmio Nobel da Paz. Em agosto de 2013, retornam à sede da ONU e a equipe do Projeto Portinari pretende instalar réplicas, em tamanho natural, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Seria Guerra e Paz a obra preferida do filho do artista? “Não sei se diria que é a preferida, mas é certamente a obra-prima dele, mas eu tenho uma predileção que é a obra dele refletindo o povo brasileiro. Casamentos na roça, o negro… Pouca gente sabe, mas Portinari é o maior pintor dos negros, nas Américas”, afirma. Para o professor João Candido, seu pai foi fundo na alma brasileira e Guerra e Paz é o ponto máximo de uma trajetória que reflete uma frase célebre do escritor russo Tolstói: “Se queres ser universal, começa pintando a tua aldeia”.
 

Marca Portinari

Apesar de o Projeto Portinari ter contado sempre com o apoio da PUC-RJ, que o sedia gratuitamente, a captação de recursos no decorrer das três décadas sempre foi um trabalho árduo. A visibilidade de uma obra como Guerra e Paz, no entanto, atraiu apoios.

Além dos clássicos governamentais – BNDES, Correios e Banco do Brasil, neste caso – estão investindo na mostra a Redecard e O Boticário, além de apoios da Rede Globo e Infoglobo e galeria Dom Quixote (até maio de 2011, já havia sido calculada mídia espontânea equivalente a R$ 25 milhões). Em São Paulo, João Candido, acostumado a ter de correr atrás das empresas, ficou surpreso por ter sido procurado pela Brazilian Finance & Real Estate (BFRE). A empresa adquiriu a cota Ouro, para a exposição, no valor de R$ 2,5 milhões. “A empresa sempre foi muito preocupada em valorizar a cultura brasileira. Guerra e Paz se encaixa muito bem na estratégia, porque é uma obra do nosso maior artista e é universal, feita para estar no hall de entrada da ONU e o seu significado é muito grande”, avalia Fabio Nogueira, diretor e fundador da BFRE. O executivo elogia o entusiasmo de João Candido em trazer os painéis, restaurá-los e apresentá-los aos brasileiros 50 anos depois. “Estamos muito orgulhosos em dar apoio a essa iniciativa”, diz Nogueira.

Como divulgação e prévia da exposição, a BFRE realiza desde setembro uma mostra de reproduções de obras de Portinari na sede da empresa, na avenida Paulista (um prédio conhecido onde funcionou por muito tempo a sede do Banco Real). Em frente ao metrô, o espaço recebe um volume grande de pessoas diariamente. O patrocínio à exposição Guerra e Paz é o maior já feito pela empresa em cultura e Nogueira garante que sempre que houver uma oportunidade dessa envergadura, a BFRE avaliará a possibilidade de se juntar ao projeto.

O investimento total do BNDES, considerando desmontagem dos painéis na ONU, transporte para o Brasil, restauro, armazenagem até 2013, transporte para NY, instalação, seguro total e mostra de São Paulo, foi de R$ 6 milhões. O Boticário, Banco do Brasil, Correios deram aporte de R$ 1 milhão cada e a Redecard, de R$ 500 mil.

Outra saída encontrada, para subsidiar o dia-a-dia do Projeto Portinari foi o licenciamento. Depois de encomendar um estudo à Interbrand, que definiu os atributos da marca Portinari (brasilidade, maestria, beleza e amor à vida) os coordenadores do Projeto Portinari passaram a procurar empresas que compartilhassem os mesmos valores. O Boticário foi a primeira e até hoje é a única grande empresa a ter fechado negócio. Há oito anos lançou o perfume Portinari, que continua em seu portfolio de produtos. “Quando começamos o projeto, publicamos um livro sobre a infância de Portinari – O menino de Brodósqui – e a infância vista na obra dele, e a edição se esgotou rapidamente, pois a tiragem era de 2.000 exemplares. Nenhuma editora queria editar e com a parceria com O Boticário eles fizeram um estojo com o perfume o livro. E a tiragem foi de 40 mil, fazendo chegar um livro a pessoas que talvez nem estivessem ligadas a esse tipo de literatura. É uma coisa formidável uma parceria como essa”, avalia.

Não é por falta de oportunidades ou iniciativas que o licenciamento da marca não é mais abrangente. João Candido já negociou com setores que parecem óbvios, mas não se sabe se por provincianismo ou falta de cultura do empresariado brasileiro, muitas boas oportunidades ainda não se concretizaram.

O diretor geral do Projeto Portinari ofereceu a marca a empresas do setor financeiro, vê como oportunidade ao automobilístico (já que temos rodando por aqui uma linha chamada Picasso), de tintas, setor que tem como interlocutores, artistas, decoradores e pintores, de papel e, claro, de café. Nenhuma negociação rendeu frutos, embora com a Santa Clara, hoje, segunda produtora de café do Brasil, o negócio quase tenha sido fechado. No último momento, no entanto, houve fusão da empresa com um grupo israelense e o licenciamento não se concretizou. Melitta e Sara Lee (esta multinacional), nem aceitaram conversar a respeito. João Candido atribui as recusas ao fato de o licenciamento de arte no Brasil estar “muito incipiente”. Mas tem esperança de que a exposição do artista e sua marca com a presença de Guerra e Paz no país e, na sequência, em tour mundial, desperte a sensibilidade artística e o tino comercial do empresariado.

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