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Dias depois da abertura dos Jogos de Londres, ainda ouço gente comentando quais seriam as canções que tocariam na nossa cerimônia olímpica. Há quem lamente que existam tantas opções lá como Paul McCartney, Pink Floyd, David Bowie e Queen enquanto aqui...
Bem, aqui são outros 500. Entre um arrepio e outro, amigos manifestaram o medo de ver artistas como Luan Santana se apresentando no show que irá inaugurar a Rio 2016. Ou Gusttavo Lima. Ou o receio se tratava de um gênero inteiro, por exemplo o axé.
Comparar Paul McCartney com Roberto Carlos não faz o menor sentido. Isso está muito claro para mim. Categorias diferentes não são comparáveis. Pensar em músicas do Pink Floyd quando aqui o campeão de vendagens de CDs é o Padre Marcelo Rossi (segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos, com dados do ano de 2011) pode causar ojeriza em alguns. Mas a realidade é essa: hoje quem mais vende CD no País não é o Milton Nascimento – que comemora 50 anos de carreira –, nem o Lenine. Só que Milton Nascimento deveria ter seu lugar garantido em qualquer cerimônia que reverencie a música brasileira.
De todo modo, não considero adequado compararmos a produção deles, os ingleses, com a nossa. Somos países e culturas com muitas diferenças.
Milton Nascimento, 50 anos de carreira Crédito: Site www.miltonnascimento.com.br
Não acho que a questão principal sejam as vendagens ou os hits que ocupam os primeiros lugares das paradas das rádios Brasil afora. No entanto, deveria ser levado em conta o que o brasileiro tem apreciado mais. O brasileiro médio, ressalto. Regina Casé já me ensinou (durante o TEDxSP de 2009) que o gosto popular tem valor e deve ser respeitado! Ivete Sangalo não toca na minha casa – e particularmente detesto aquela canção que diz que vai rolar a festa. Mas ela tem mérito. Não preciso gostar dela para perceber isso.
Regina Casé falando sobre cultura popular no TEDxSP Crédito: TEDxSP
A pergunta que me vem à cabeça é: o que pretendemos mostrar ao mundo quando chegar a nossa vez de fazer a festa olímpica? Nossa melhor produção musical? Ou o colorido do cancioneiro popular? Ou fazer um mix dos dois? É uma decisão importante e gostaria de ser uma abelhinha sobrevoando as reuniões do consórcio Cerimônias Cariocas (no qual se inclui a SRCom), os escolhidos para cuidar da abertura e do encerramento dos Jogos de 2016.
Já que brasileiro é muito piadista, escutei um par de comentários engraçados e lamentos em tom bem humorado sobre como explicariam aos gringos o que quer dizer “Eu quero tchu, eu quero tcha” (talvez não seja tão trabalhoso assim). E também ouvi frases do tipo “Por que é que o Tom Jobim foi morrer?!”
Para esse caso em específico, diria: tem a holografia. Tupac Shakur se apresentou no Coachella neste ano. E tem a “cantora” japonesa Hatsune Miku como exemplo hi-tech. Ou seja, se for para usar esse recurso, nada de ficar parecendo a Natalie Cole cantando “Unforgettable” com o pai. Não! A tecnologia avançou muito e pode proporcionar experiências muito boas. Imaginem o que pode ser feito em 2016...
Hatsune Miku em ação. Mas vai o recado antes de apertar o play: o som é... frenético Crédito: YouTube
Também não creio ser bom negócio fazer uma enquete geral pela web para saber o que vale tocar na nossa olimpíada. Recentemente vi Silvio Santos reclamando dos resultados do seu “A melhor música brasileira de todos os tempos”. Em um de seus programas dominicais, ele criticou duramente os votos dados a uma música de Tiririca. Concordo com ele: isso já é demais! Silvio Santos chegou a falar “se é para dar voto ruim não entre no meu site”. Nunca vi isso: o empresário pedindo para não “comprarem” seu produto. Tinha de ser o Silvio Santos a falar assim.
Em outro programa o apresentador reclama que a quarta música na escolha dos internautas (naquela semana) era uma do grupo Sorriso Maroto. Não lembro qual foi a canção citada, mas isso não vem ao caso. Fico pensando: dentre todas as músicas brasileiras de todos os tempos, em quarto lugar está uma do Sorriso Maroto. Tenho certeza que há opções muito melhores para ocupar esse posto.
Curiosos a respeito das músicas listadas no site até o momento? Além de Roberto Carlos, claro (estão lá “Detalhes”, “A deusa da Minha rua” e “Emoções”), há canções como “Cinco letras que choram” (Francisco Alves), “A flor e o Espinho” (Nelson Cavaquinho) e até “Hino do Corinthians”. Tem também “Águas de março”, “Chega de saudade”, “Foi um rio que passou em minha vida”, “Aquele abraço” (observação pessoal: está faltando Chico Buarque no rol).
Pela maneira como a lista está disponibilizada no site, não foram incluídas todas as respostas dadas pelo público (não daria para entrar). A chamada diz “canções já votadas e em ordem alfabética”. Não está na relação aquela do Tiririca. Ufa.
A votação segue aberta, com as pessoas podendo escolher o que quiserem (talvez eu coloque lá “Às vezes”, da Tulipa Ruiz. Ou “Por que Nós”, do Marcelo Jeneci”. Tudo para dar um ar mais jovem).
Se depender do que diz a votação das pessoas nessa enquete, podemos esperar de tudo, inclusive um festival de canções empoeiradas. Ou de hits do gênero “Ai, se eu te pego”. Então, como canta Jair Rodrigues em “Disparada”, prepare o seu coração.
Vídeo que divulga os 50 anos de carreira de Milton Nascimento, minha sugestão de artista a estar presente na cerimônia de abertura dos Jogos do Rio Crédito: YouTube/ Benedito Filmes