21 de Julho de 2011 • 13:12
É incrível como a cada dia mais revelações surgem sobre intricado jogo de promiscuidade envolvendo o triângulo formado na Inglaterra entre os jornais do magnata Rupert Murdoch, a polícia e os principais políticos. Morte inexplicável do repórter que denunciou o escândalo dos grampos; prato com espuma de barbear arremessado contra Murdoch; primeiro ministro tendo que se explicar diante do parlamento sobre as razões que o levaram a ter como seu porta-voz um ex-editor do extinto News of The World; e o cinismo quase patológico do depoimento da ex-toda poderosa da News Intl., Rebekah Brooks dizendo que grande parte dos jornais usam serviços de detetives particulares para descobrir suas informações. É estarrecedor isso para nós aqui no Brasil e para qualquer país democrático do planeta.
Há algumas consequências desse escândalo sem precedentes que merecem nossa atenção. Uma delas foi apontada pelo professor de ética da ECA/USP, Eugênio Bucci, em artigo no Estado de S. Paulo do dia 14 de julho. De acordo com ele, o caso deflagrado com a decisão de fechamento do “News of The World” a partir de denúncias do “The Guardian” de que os grampos incluíram o celular de uma garota de 13 anos, sequestrada e morta, deu a largada para a principal discussão sobre ética de imprensa no mundo globalizado.
“Não são apenas o capitalismo selvagem e a especulação financeira que rasgam fronteiras. As preocupações humanitárias em geral e a ética jornalística em particular também se globalizam como valores universais. É a isso que Murdoch terá de prestar contas. E com isso ele talvez não contasse”.
Na quarta, 20, a primeira página do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, trazia uma reportagem sobre o documentário “Page One”, resultado da investida de um ano da equipe que realizou o filme na editoria de mídia do jornal “New York Times”, formada em 2008 para cobrir a revolução digital e os jornais mortos pelo caminho. O filme, inédito ainda no Brasil, está em cartaz nos Estados Unidos.
Em tempos nos quais o papel dos veículos de comunicação, especialmente os impressos, está sendo colocado em xeque diante das transformações do mundo digital que fazem com que fontes e audiência não necessitem mais de intermediários (a mídia), pois podem ter seus próprios canais de informação e produzir o seu próprio conteúdo, é interessante observar como a mídia voltou ao centro das atenções.
Há um lado bom na depuração que está sendo feita Inglaterra a partir do escândalo dos grampos telefônicos, colocando uma luz nos métodos heterodoxos de obtenção de informação. Ela lança luz a uma instituição que continua e permanecerá muito poderosa.
A indústria da mídia tem que se reescrever seu futuro diante dos desafios do presente e em tempos de WikiLeaks, mas não pode abrir mão de sua essência - que tanto balizou seu passado - como ética, honestidade e transparência. Esses são valores que não mudaram e que continuam inexoráveis a essa atividade.