Regina  

Blog da Regina »





A difícil hora de parar

Por mais difícil que seja o processo sucessório e a dose de desprendimento que ele exige, essa é uma costura estratégica fundamental para os dias de hoje

Regina Augusto| » ENVIAR E-MAIL »

09 de Julho de 2012 11:08

A oficialização da venda da totalidade das ações da BBH e da Neogama para o Publicis Groupe não chega a ser uma novidade. Pelo contrário, era um movimento esperado. Também não causa surpresa que o negócio trouxe à tona o anúncio da saída de John Hegarty da agência que fundou há 30 anos. O fato novo da transação é a nomeação feita pelo próprio Hegarty de Alexandre Gama para o cargo de CCO global da rede, alçando a sede da Neogama, em São Paulo, a uma posição central nesse processo, pois ele exercerá sua nova função global baseado no Brasil, onde manterá inicialmente suas funções de comando da Neogama/BBH. A marca será mantida mesmo após passar a ser 100% controlada pelo capital internacional.

A despeito da venda em si, um fato curioso nesse episódio é que ele configura-se na segunda participação de Alexandre Gama em um processo sucessório. Em meados de 1993, ele e seus então amigos e companheiros de trabalho na DM9, Marcello Serpa e José Luiz Madeira, assumiram o comando da ­AlmapBBDO naquele que é até hoje o exemplo mais bem-sucedido — e talvez o único — de sucessão no mercado brasileiro de agências capitaneado com maestria por Alex Periscinoto.

A parceria durou apenas até 1996 por incompatibilidade de Gama com seus sócios, quando saiu da operação para comandar a Young & Rubicam. Em 1999, fundou a Neogama que contou com a Leo Burnett como sócia e em 2002, essa participação foi transferida à BBH que, assim como a Leo, também pertencia ao Publicis Groupe.
É claro que as realidades, os momentos e as circunstâncias são bem distintos entre esses dois momentos da carreira de Alexandre Gama. Mas eles ilustram um lado importante e muito estratégico na gestão das agências. Em geral, a venda para um grupo internacional é a alternativa mais viável ao vácuo sucessório das agências. Os recentes exemplos da venda da Talent e da DPZ não por acaso também para o Publicis são os maiores exemplos desse movimento.

John Hegarty e seu sócio Nigel Bogle, no entanto, atrelaram a venda total de ­suas ações ao grupo francês às suas retiradas do negócio, em um processo que já vinham estudando e desenhando há algum tempo. Uma tarefa dolorida, mas que não pode deixar de fazer parte da agenda de todo empresário que tenha como objetivo perpetuar o legado daquilo que construiu. Por mais difícil que seja esse processo e a dose de desprendimento que ele exige, essa é uma costura estratégica fundamental para os dias de hoje. John Hegarty se dedicará agora à sua vinícola Chamans, na França, em Minervois, na região de Languedoc Roussillon. A ovelha negra símbolo da agência também está nos rótulos dos vinhos produzidos pela vinícola. Para quem passou 47 dos seus 68 anos de vida trabalhando no mercado publicitário, saber fazer bom uso dos símbolos e dos sinais é questão de sobrevivência. E parece que essa lição John Hegarty aprendeu com louvor.

comments powered by Disqus