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Além da generosidade

Hábito corrente entre os muito ricos nos EUA e na Inglaterra, a doação para instituições de ensino ainda engatinha no Brasil

Regina Augusto| » ENVIAR E-MAIL »

16 de Julho de 2012 08:13

Michael Moritz é fundador da Sequoia Capital, um dos principais fundos de capital de risco a investir em startups no Vale do Silício. Possui participação em empresas como Google, LinkedIn, YouTube e PayPal. Em maio passado, anunciou sua saída da linha de frente da empresa após ser diagnosticado com uma doença rara e incurável. Começou sua carreira como jornalista escrevendo crônicas sobre a Apple para a Time Magazine além do livro The Little Kingdom: the Private Story of Apple Computer. Nas últimas três décadas, tem sido testemunha das profundas transformações da indústria da tecnologia.

Na quarta-feira 11, Moritz fez uma ­doação de US$ 115 milhões à sua ex-universidade, de Oxford, na Inglaterra. Os recursos serão o ponto de partida de um fundo de US$ 460 milhões dedicado a financiar o ingresso de estudantes carentes em uma das universidades mais elitistas e tradicionais do mundo. A iniciativa rompe um ciclo de mais de dois séculos, período no qual os campus da histórica instituição foram inacessíveis a muitas famílias pobres da Grã-Bretanha.

O modelo segue o de muitas universidades dos EUA, que colocaram uma alta prioridade em oferecer ajuda financeira suficiente para que alunos talentosos de famílias de baixa renda não sejam excluí­dos à medida que os custos disparam. As novas bolsas permitirão que os filhos de famílias cujas rendas estejam abaixo de US$ 25 mil anuais frequentem Oxford, por US$ 5,4 mil por ano. A iniciativa reduz sua dívida futura, já que os alunos cobrem suas anuidades com empréstimos governamentais a serem pagos somente depois que começarem a ganhar mais de US$ 32 mil por ano.

Moritz, que é galês, fez a doação a Oxford junto com sua mulher, a romancista Harriet Heyman. Em 2008, eles já haviam dado US$ 50 milhões ao Christ Church, o lendário colégio de Oxford que ganhou as telas do cinema na adaptação do filme Harry Potter. Seu pai fugiu da Alemanha nazista e foi para a Inglaterra, e acabou estudando em Oxford por meio de uma bolsa. “Eu não estaria aqui hoje se não fosse pela generosidade de estranhos”, justificou ele sobre suas motivações para fazer a doação.

Felizmente, Moritz não é o único bilionário que decide doar um volume considerável de sua fortuna a instituições de ensino. Templos do conhecimento como Harvard, Stanford e MIT foram criados e ainda são mantidos, em boa parte, por doações de grandes magnatas que decidiram investir de forma significativa em educação. Infelizmente, esse tipo de atitude, por parte dos habitantes do andar de cima da sociedade brasileira, com algumas exceções, não é uma prática muito comum.

Recentemente, o jornalista Elio Gaspari escreveu um artigo que abordava essa questão. De acordo com ele, o Brasil tem 36 bilionários em dólares na lista da Forbes. Juntando-se os donos das grandes empreiteiras e os homens do agronegócio que escaparam ao radar da revista, passam de 50. Juntos, têm pelo menos US$ 200 bilhões, mas só uns 20 patrocinam filantropias relevantes.

“Nos Estados Unidos, o nome de Andrew Carnegie, que foi o homem mais rico do mundo, não está associado à ruína da vida dos operários de suas minas e siderúrgicas, mas às doações que fez. É dele a frase: ‘Quem morre rico morre desgraçado.’ Em vida, acumulou algo em torno hoje de US$ 200 bilhões. Quando morreu, em 1919, distribuíra US$ 150 bilhões, criando escolas técnicas e bibliotecas”, escreveu Gaspari.

No momento em que se discute o legado que o Brasil terá de todo o processo de transformação e de mudanças pelos quais está passando, essa é uma reflexão importante. Não se trata de ser generoso, mas de ter uma visão de mundo que contemple a inclusão por meio da maior arma que o ser humano possui: o conhecimento.

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