“Uber e Airbnb não têm nada a ver com compartilhamento”

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“Uber e Airbnb não têm nada a ver com compartilhamento”

Richard Stallman, fundador do movimento Software Livre, fala sobre economia compartilhada, publicidade e privacidade

Karina Julio
19 de junho de 2017 - 11h51

A Campus Party teve sua primeira edição em Brasília na semana passada, de 14 a 18 de junho. No sábado, 17, um dos destaques foi o hacker Richard Stallman, fundador do Movimento Software Livre e desenvolvedor do sistema operacional GNU, geralmente utilizado junto ao Linux. Dono de ideias consideradas radicais por muita gente — como o boicote a redes sociais e a empresas como Uber –, Stallman é ligado em assuntos de tecnologia e muito crítico a companhias digitais, sendo um dos ícones da luta contra a patente de softwares. Em entrevista ao Meio & Mensagem, ele compartilhou sua visão sobre publicidade, economia compartilhada e uso de dados no ambiente digital.

 

Foto: Divulgação

Você é um crítico da economia compartilhada. Quais são os problemas de companhias como Uber e Airbnb?

Compartilhamento é quando as pessoas se ajudam mutuamente em um espírito de comunidade, e essas companhias não tem nada a ver com isso. O Airbnb é um corretor para aluguel de cômodos de curta estadia. Não acho que o negócio é inerentemente ruim, ainda que cause problemas em algumas circunstâncias. Eu não usaria o Airbnb pelo fato de ele identificar as pessoas em sua base de dados. O Uber também é parte da economia da exploração, sendo injusto a seus motoristas ao pagar tão pouco a eles. O que é ainda pior, ele é injusto a todos os consumidores ao rastreá-los e fazer com que executem um software não-livre que é também um malware, rastreando usuários antes e depois da corrida.

Esses aplicativos não oferecem, de alguma forma, um diferencial em relação às companhias tradicionais, considerando a participação de membros da comunidade e novos modelos de troca de capital?

Não acredito que faz sentido comparar isoladamente uma companhia, como o Uber, a uma companhia tradicional em geral. Deveríamos comparar o Uber com outros táxis comuns e com outros sistemas de transporte. O que percebemos é que o Uber é inclusive pior em todas as dimensões éticas, principalmente em relação à liberdade dos passageiros. O fato de uma plataforma executar um software livre ou proprietário internamente não determina se ela trata os seus usuários ou trabalhadores de forma ética ou não. Talvez os softwares do Uber já sejam livres (eu chutaria que os servidores do Uber funcionam com base no GNU/Uber e algum outro software desenvolvido por eles, também livre). Se o Uber usar algum software não-livre, é algo ruim para ele, mas isso não muda nada para motoristas e clientes. Acredito que governos deveriam fazer leis que exigissem que todos os meios de transporte oferecessem um modo de uso anônimo.

“O problema dos anúncios é que a maioria deles é vigilante, e a vigilância é um ataque à liberdade”

O que você pensa sobre publicidade digital e adblockers?
Não me importo se verei anúncios ou não, a menos que eles sejam apresentados de forma irritante, então não uso ad-blockers. Contudo, me recuso a ser rastreado e vigiado na internet, e por isso utilizo um browser que bloqueia a maioria das ferramentas que os sites utilizam para rastrear as pessoas — e isso inclui a maioria dos anúncios, mas não todos. O problema dos anúncios é que a maioria deles é vigilante, e a vigilância é um ataque à liberdade.

Muitas companhias e aplicativos tem utilizado algoritmos como um pretexto para recolher dados e produzir uma experiência mais personalizada. O que você pensa sobre isso?
Eu particularmente não desejo a personalização e posso escolher por mim mesmo. Me preocupo com a vigilância, e portanto me recuso a deixar companhias saberem meus gostos. Eu acharia útil um serviço que me dissesse “se você utiliza A e B, tente C”. Se me deixassem anonimamente perguntar por sugestões, não haveria problema algum, e então eles poderiam, por exemplo, cobrar um pequeno valor por sugestão dada ao usuário. As companhias que já categorizam as pessoas por perfis, no entanto, não serão capazes de oferecer uma opção que não exija a criação de um perfil. Será preciso dissuadi-los por meio de legislação.

Muitos fundadores de empresas de tecnologia começaram suas vidas no mundo hacker, utilizando códigos-fonte e bases de dados amplamente distribuídas para fundar suas empresas. O que isso diz sobre o mundo da programação?
Isso significa que só porque uma pessoa gosta de hackear, não significa que ela se importe em respeitar a liberdade de qualquer outra pessoa. A maioria dessas empresas subjuga seus usuários com softwares não-livres e então vigia o que seus usuários fazem.

A questão do brand safety é cada vez mais importante e põe em xeque a eficácia de algoritmos. Como você vê a eficiência deles?
Todos os sistemas de informação são feitos por pessoas, e pessoas podem cometer erros. Não é uma surpresa que estes sistemas tenham falhas também. Não me preocupo muito com os erros acidentais, mas espero que eles sejam consertados e então o que aconteceu será perdoado e esquecido. Não acredito que é necessário haver censura, pois a liberdade de discurso inclui o direito de dizer coisas que eu e você consideramos nojentas. Me preocupo, no entanto, com o mal tratamento intencional ao usuário, que não será consertado por livre e espontânea vontade das empresas.

Há um aumento na oferta de escolas e cursos de programação, inclusive para crianças e adolescentes. Existe alguma vantagem em entender as estruturas da web e de softwares?

O termo “coding” foi utilizado em companhias como a IBM e empresas onde se colocavam designers para elaborar programas, e então funcionários de níveis mais baixos escreveriam o código. Nós, hackers, não temos nada a ver com a programação pura e simplesmente. No nosso modelo, uma mesma pessoa faria o design e o código — o que realmente chamamos de programação. Sou um pouco cético em relação à ideia de que saber programar traz mais consciência sobre a vigilância. Considere, por exemplo, todos os programadores que trabalham para companhias que rastreiam a pessoas. Eles entendem sobre software e sobre a web, mas isso não os convenceu a mudar de trabalho por uma questão de consciência. Encorajo as pessoas a aprender a programar se elas acharem isso divertido e interessante. Mas se você não se sente inclinado à programar, eu não o pressionaria a estudar isso, mas a perseguir outras áreas que se encaixam para você.

Até que ponto é possível evitar softwares proprietários? É possível escapar de pesquisas no Google, compras online e plataformas sociais e de música?
Não faço nenhuma dessas coisas, mas uma vez a cada alguns meses farei uma pesquisa no Google me protegendo de forma anônima, é claro. Ainda estou “conectado”? É desejável estar “conectado”? Dizer que um carro é conectado significa dizer que ele é rastreado a todo o tempo. Certamente será ruim se nós ou nossos carros forem “conectados”. Certamente é possível rejeitar programas não-livres, hoje em dia você pode comprar um computador que venha com um BIOS livre, um sistema operacional livre, e utilizar apenas aplicações livres.

É geralmente dito que as pessoas estão mais céticas em relação a marcas e companhias em geral. Isso tem a ver com o uso indevido de dados?
Isso está relacionado à desonestidade geral dos negócios globais, as empresas têm muitas práticas que são ruins para seus clientes e trabalhadores, e o rastreio do público é uma delas. Empresas que vendem ao público fingem ser anjos. Elas dizem, por exemplo, coisas vagas para mostrar que tratam bem seus trabalhadores, mas quando você olha mais de perto elas estão sendo exploradas e mal pagas. E as empresas encontram desculpas para “não saber “ disso e dizem que a exploração nunca acontece em suas redes de supply chain.

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  • Quanta asneira. Volte para o tempo dos cartões perfurados então.