O assédio no entretenimento brasileiro

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O assédio no entretenimento brasileiro

A produtora Maria Gal relembra a mobilização de mulheres contra o assédio e destaca a importância de discutir temas recentes como o que envolveu o produtor Harvey Weinstein

Luiz Gustavo Pacete
8 de novembro de 2017 - 15h34

O fim da parceria entre o ator Kevin Spacey e a Netflix após acusações de assédio e os escândalos recentes envolvendo o produtor Harvey Weinstein pelo mesmo motivo reforçaram as discussões sobre o tema no entretenimento.

A questão também é delicada no Brasil que já presenciou casos como o do ator José Mayer, acusado de assédio em abril deste ano e afastado de suas funções na Globo após um pedido público de desculpas.

A atriz e produtora Maria Gal, que já participou de produções como 3% da Netflix, Conselho Tutelar, da Record, e várias outras para TV aberta e fechada, relata que a mobilização em torno do assunto é cada vez mais constante entre os profissionais que atuam nos sets, apesar de ainda ser um desafio. “As vítimas temem falar a respeito por medo de perderem o emprego ou serem ‘malvistas’ no mercado. É importante salientar que estamos falando de um mercado majoritariamente branco e masculino nas posições de maior poder”, diz Gal.

Gal faz parte de um grupo de mulheres do audiovisual que discute o assunto e que, em junho do ano passado, se reuniu para produzir uma carta aberta direcionada à direção de uma série produzida por um canal de TV paga sobre casos de assédio ocorridos no set. A série e a produtora foram preservadas pelo grupo que assinou a carta. “Como não se fala muito a respeito, as resoluções ficam muito no âmbito particular, quando há resoluções. Isso dificulta qualquer mudança que possa vir. Fato é: precisamos falar mais sobre o tema”, diz Maria Gal.

 

“Como não se fala muito a respeito, as resoluções ficam muito no âmbito particular”, diz Maria Gal

Veja a carta e os principais casos apontados pelo grupo:

São Paulo, 07 de junho de 2016

Esta carta está sendo escrita em nome das mulheres da equipe da série XXXX em detrimento da falta de respeito e do assédio sexual que estão sofrendo diariamente no set de filmagem e na base. Existem queixas de assédio vindo de quase todas as equipes e em todos os níveis de hierarquia profissional.

Não é o primeiro set em que isso acontece, mas será o primeiro set em que isso deixará de acontecer. Estamos exatamente na metade das filmagens e não aguentamos mais lidar com abusos todos os dias. Estamos falando de piadinhas, comentários, olhares, passadas de mão, mensagens etc…

Todas as mulheres desta equipe já passaram por isso.

Relatos de situações:

– Ele disse que eu devia ir pra Belém já que todos os homens da equipe querem que eu vá. Isso é assédio.

– Ele me chamou de “princesa” sem eu dar liberdade para tal. Isso é assédio.

– Ele me chamou de “secretarinha sexy” porque eu tava de óculos. Isso é assédio.

– Ele soprou na minha nuca sem perguntar se podia. Isso é assédio.

– Ele pegou no meu cabelo enquanto eu passava pelo set. Isso é assédio.

– Ele disse que não vê a hora de me ver de shortinho em Belém. Isso é assédio.

– Ele deu um cheiro no meu pescoço enquanto eu pegava sobremesa e achou um exagero quando eu disse para parar. Isso é assédio.

– Ele comentou sobre o meu batom e perguntou ‘para quem era tudo aquilo’. Isso é assédio.

– Ele fez uma piada dizendo que ia colocar uma ‘balinha’ na minha água para depois aproveitar de mim. Isso é assédio.

– Ele perguntou sobre minha roupa e insinuou que eu não estava vestida. Isso é assédio.

– Ele se sentiu no direito de me comer com os olhos e comentar já que eu vim de decote. Isso é assédio.

Nós, mulheres, não queremos mudar nossas atitudes para evitar o assédio, não queremos nos censurar para não sermos assediadas, não queremos trocar de roupa para não sermos assediadas. Nós não estamos aqui para satisfazer o desejo sexual de ninguém. Não é porque uma mulher te olha e é simpática com você que ela te quer ou que está dando liberdade para que você faça o que quiser com ela. Estamos trabalhando e queremos ser tratadas com respeito, da forma como cada uma é. Este comunicado serve também para os homens que acham que não estão constrangendo, nem desrespeitando as mulheres. Se você presencia uma situação em que um homem
constrange uma mulher e não fala nada, você está sendo conivente com a situação.

Esse assunto é muito sério.

 

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