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FHC: mudanças sociais são impulsionadas por “fios desencapados”

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FHC: mudanças sociais são impulsionadas por “fios desencapados”

Ex-presidente participou do Fórum Meio & Mensagem 40 Anos


4 de abril de 2018 - 18h48

Por Alexandre Zaghi Lemos e Roseani Rocha

“40 anos não são nada, tenho mais do que o dobro”. Descontraído, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi um dos palestrantes do Fórum Meio & Mensagem 40 Anos, realizado no Palácio Tangará, em São Paulo, nesta quarta-feira, 4, para marcar as comemorações de quatro décadas do jornal. FHC contou alguns casos relacionados aos temas centrais do evento: liberdade de expressão, democracia e fake news.

FHC transformações no modo tecnológico de relacionarmos uns com os outros causaram grande mudança cultural (Crédito: Denise Tadei)

Ele lembrou de 1968, quando era professor universitário em Paris, e viu nascerem os atritos que impulsionaram o movimento de maio daquele ano, que balançou o governo do general Charles De Gaulle. De um lado, os estudantes lutando por mais liberdade e, de outro, os sindicatos defendendo direitos para os trabalhadores. Embora com reivindicações diferentes, eles se encontraram e o movimento cresceu. “De repente, um fio desencapado dá um curto circuito que contagia setores diferenciados da sociedade e pode provocar uma mudança”, descreveu.

FHC falou também de outro momento de sua vida, quando, já na década de 1970, foi professor na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, onde havia um centro de inteligência artificial. “Os jovens que trabalhavam nesse centro faziam manifestações contra a Guerra do Vietnã, tinham fotografia do Che Guevara na parede e estavam lá desenvolvendo tecnologias de programação e computação, quase de brincadeira. Mas, na verdade, se tratava de uma grande transformação, a qual todos nós estamos submetidos, e que, naturalmente, não se deu somente em Stanford, que é miniaturização dos meios de comunicação e a internet’, descreveu.

Analisando as mudanças no modo como as pessoas transmitem as mensagens, o ex-presidente avalia que hoje estamos diante de outra Era, com transformações muito mais profundas do que poderíamos imaginar. “Houve uma modificação grande na cultura, em função das transformações no modo tecnológico de relacionarmos uns com os outros. E isso mudou tudo, muito profundamente”, frisou.

Giannetti: “É preciso capacitar os brasileiros para uma vida plena” (Crédito: Denise Tadei)

Deformação patrimonialista
Também palestrando no evento, o economista Eduardo Giannetti fez um retrospecto da sociedade brasileira nas últimas quatro décadas e ressaltou a operação Lava-Jato como um dos mais importantes acontecimentos da vida pública brasileira no período. Ele chegou mesmo a comparar sua importância ao período dos anos 1980 em que houve a redemocratização do País, após o regime militar, e à estabilidade da moeda e da economia, conquistada com o Plano Real.

Para Giannetti, a Lava-Jato escancarou uma deformação patrimonialista que existe em nossa sociedade, onde em vez de crescer pelo caminho normal do mercado, de investimento em inovação e eficiência, segmentos empresariais relevantes acabaram buscando atalhos e acessos privilegiados. “Não vou dar nome aos bois, mas é impressionante que duas empresas tenham colocado o Estado brasileiro em sua folha de pagamentos”, disse, em alusão ao que chama de deformação explícita do público e do privado no País (e, claro, se referindo a Odebrecht e Grupo J&F). Segundo ele, a Lava-Jato é uma condição necessária, mas não suficiente para superar tal cenário, e o que contará fortemente para pôr fim a tal estado de coisas será o posicionamento dos cidadãos nas urnas.

Sobre a economia brasileira, Giannetti alertou para o fato de que o Estado, hoje, drena 40% da renda nacional anualmente e que a carga tributária do País (incluindo união, estados e municípios) corresponde a nada menos do que 33% do PIB, quando num país de renda média esse número gira em torno de 25%. “Temos 40% da renda intermediada pelo setor público, então, a grande questão é: cadê? Para onde está indo esse dinheiro?”, provocou o economista.

Na sequência, explicou que a metade desses 40% vai para cobrir a previdência (que tem uma conta que não fecha) e em juros. Ainda assim, criticou ele, vivemos num país que tem 20% do PIB livres e metade dos domicílios não tem saneamento básico, os estudantes vão mal em avaliações da qualidade do ensino e epidemias do século 19 andam retornando. Por outro lado, o Estado tributa aqueles que menos podem pagar e inflige maior incidência de imposto sobre o consumo.

Tentando um tom mais otimista ao final de sua palestra, Giannetti afirmou que, embora não acredite que a carga tributária no Brasil irá diminuir, ainda é possível e preciso que o Governo coloque o Estado a serviço dos cidadãos. E que estes, por outro lado, devem exercer uma cidadania tributária e ficarem atentos aos impostos que pagam. Segundo ele, muitos não sabem, por exemplo, que 36% do preço dos remédios são relativos a imposto. “É preciso capacitar os brasileiros para uma vida plena”, disse. Resumindo que todos os dados nos desenham como um país profundamente injusto, em que as condições em que uma pessoa nasce praticamente determinam seu destino, ele arrematou sua fala com uma frase do escritor português Fernando Pessoa: “Extraviamo-nos a tal ponto, que devemos estar no bom caminho”.

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