Como o NYT transformou o digital em receita?

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Como o NYT transformou o digital em receita?

Representatividade de assinaturas digitais do jornal indica, segundo analistas, saídas para a queda de receita publicitária

Luiz Gustavo Pacete
10 de agosto de 2018 - 8h42

Os dados divulgados na última quarta-feira, 8, sobre os resultados do segundo trimestre nas receitas do New York Times indicam algumas questões relacionadas à rentabilização no ambiente digital. Ao comentar os resultados, Mark Thompson, CEO do NYT, afirmou que o jornal deve chegar em breve ao marco de 4 milhões de assinantes e agradeceu, especialmente, aos assinantes digitais. O título fechou o mês de junho com 3,8 milhões de assinaturas, essa fonte de receita, inclusive, já representa 62% do faturamento do NYT ante 50,5% de cinco anos atrás.

Do montante de assinaturas, 2,8 milhões vêm da versão digital. Desde o fim de 2016, período pós-eleitoral nos Estados Unidos, o NYT conquistou 1 milhão de novos assinantes digitais. As receitas de assinaturas digitais somaram US$ 99 milhões, alta de 20% na comparação com o mesmo período de 2017. A receita total da empresa no trimestre foi de US$ 415 milhões, alta de 2%, com um lucro de US$ 24 milhões. “Em breve, vamos passar os 3 milhões de assinantes digitais e 4 milhões no total”, disse Thompson. Ele reforçou, no entanto, que o resultado do período foi menor do que nos últimos trimestres.

“Esses números mostram uma marca de jornal que  tem chances de converter leitores e receitas para o universo digital. Ainda há um desafio enorme de garantir que ‘dólares analógicos não virem centavos digitais’ (como disse o Jeff Zucker, CEO da NBCi). Outro ponto é que marcas analógicas podem criar novos produtos no universo digital, como o podcast The Daily, e extrair valor deles (assinaturas e publicidade). Ou seja, vejo que a vida seguirá muito difícil para a empresa, mas detecto um trabalho consistente que pode fazer ela sair do outro lado do túnel”, diz Bob Wollheim, fundador da The B Network.

Antonio Rocha Filho, professor de jornalismo da ESPM, entende que em um momento em que os negócios dos grupos de comunicação tradicionais passam por grave crise de financiamento em todo o mundo o resultado do NYT pode ser um indicativo de que há saída para a queda de receita publicitária no meio impresso. “O resultado também traz embutido o significado de que a população em um ambiente de caos de desinformação, com as chamadas fake news, está disposta a pagar por informação de qualidade, que pode ser obtida por meio do jornalismo profissional”, afirma Antonio.

Rodrigo Tigre, CEO da RedMas, diz que muito se discute sobre conteúdo pago na internet, “mas a verdade é que os veículos tradicionais criaram desde o início essa sensação de que o conteúdo é gratuito e ficaram presos por muito tempo em modelos antigos. As pessoas estão sim interessadas em pagar por conteúdo, desde que vejam valor nisso. ” Já Rodrigo Souto, gerente de marketing da HubSpot para o Brasil, entende que o crescimento do New York Times através de assinaturas digitais serve como mais uma demonstração que algumas indústrias podem sobreviver sem uma forte presença digital, “mas elas estarão apenas sobrevivendo, não prosperando.

”Não é uma surpresa que o NYT se adiante a esse movimento. O jornal começou a migração para o cenário digital investindo em podcasts, o que foi uma estratégia muito importante para atrair o público jovem. Vale ressaltar que o leitor norte-americano enxerga o valor do conteúdo com qualidade e entende que ele pode continuar existindo, mesmo sendo pago. Trazendo para o mercado brasileiro, temos alguns desafios: fazer com que o leitor valorize e pague por isso e que os produtores de conteúdo não percam o foco em manter a qualidade em todas as mídias”, diz Marcio Cavalieri, CEO da RMA Comunicação.

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