Alfabetização midiática incentiva jovens a refletir sobre a informação

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Alfabetização midiática incentiva jovens a refletir sobre a informação

Projetos voltados para adolescentes apostam em métodos de checagem de notícia e produção de conteúdo com abordagem crítica

Karina Balan Julio
13 de agosto de 2018 - 12h22

O olhar mais apurado sobre as práticas de mídia está presente nos estudos de educomunicação desde meados dos anos 70. Embora este campo do conhecimento não seja novo, a reflexão sobre os usos dos meios de comunicação e as nuances do discurso midiático ganharam novos contornos em tempos de fake news e consumo precoce de informação via dispositivos móveis. Na mesma onda, a alfabetização midiática aparece como pilar central em projetos voltados para a formação de adolescentes e jovens adultos.

Um destes projetos é a  Énois Conteúdo, que tem como uma de suas iniciativas uma escola e laboratório aberto de jornalismo para jovens com entre 16 e 21 anos, advindos de regiões periféricas de São Paulo. Criada pelas jornalistas Amanda Rahra e Nina Weingrill, a Enóis promove uma espécie de redação jovem, onde os participantes pensam em pautas e reportagens, experimentam formatos e refletem sobre os modelos de financiamento para o jornalismo.

Esta semana, a Escola de Jornalismo da Énois lança a segunda edição do livro Prato Firmeza, um guia gastronômico das “quebradas de SP”, que também ganhará uma websérie em parceria com a Folha de S. Paulo.

Foto: Pexels

“Temos uma imprensa pouco diversa no Brasil, onde as redações têm pouquíssimos negros, pessoas trans e de periferia. Nossa ideia sempre foi a de ampliar o espectro do jornalismo e levar uma leitura crítica sobre a mídia para estes jovens, para que eles entendam a disputa de narrativas presente no jornalismo”, afirma Amanda Rahra.

Todos os anos, a Énóis seleciona jovens bolsistas que, durante o contraturno de seus estudos, participam de aulas e oficinas sobre produção midiática, edição de texto e vídeo, em um espaço de coworking que acomoda até 10 projetos simultâneos. A Énois opera com apoio de doações, parcerias com entidades como Google News Lab e com veículos como Uol e Nexo, para os quais já realizou matérias especiais.

No momento, a Énois também desenvolve um site com metodologias  que poderão ser adotados por outras escolas e projetos de alfabetização midiática. A ONG ainda está participando de iniciativas de checagem de notícias de veículos como CBN, HuffPost Brasil e Quebrando o Tabu.

Outro case focado em educomunicação é o Dante em Foco, projeto do colégio particular Dante Alighieri, em São Paulo. O colégio criou, a partir do interesse dos próprios alunos, um currículo extra-classe  que engloba desde discussões sobre o teor da informação publicado por veículos, até questões relacionadas a influenciadores. Os alunos, entre o 5º ano do ensino fundamental até o ensino médio, também fazem entrevistas e coberturas de eventos para redes sociais e web TV da escola.

A professora de tecnologia educacional responsável, Verônica Martins Cannatá, explica que o objetivo não é necessariamente criar interesse pela carreira jornalística, mas trabalhar aspectos cívicos inerentes às discussões sobre mídia. “Queremos trabalhar questões sobre cidadania, responsabilidade na produção de conteúdo e criticidade no consumo de mídia. Damos aos alunos diferentes referências, da Veja à Carta Capital, e os incentivamos a analisar a linha editorial e as intenções que estão ali”, afirma.

Além das atividades internas, o colégio já realizou projetos em parceria com escolas da rede pública. O  Educom Geração Cidadã, realizado desde 2016, une alunos do Dante a alunos da rede pública envolvidos no projeto Imprensa Jovem, da prefeitura de São Paulo, para que juntos pensem em conteúdo e participem de congressos de comunicação. “A mídia não tem apenas um papel de desconstrução, mas é um instrumento pedagógico para criar pontes com alunos de outras realidades e aproximar grupos pelo interesse em comum na mídia”, afirma Verônica.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco), por sua vez, criou em 2015 um documento com recomendações sobre alfabetização midiática a todos os Estados membros. Adauto Soares, coordenador de Comunicação e Informação da Unesco no Brasil, ressalta no entanto que os parâmetros pedagógicos para este tipo de educação estão em constante transformação.

Ele afirma que a leitura intencional sobre os processos de mídia é um fenômeno recente, motivado pelas notícias falsas e pelo anonimato dos agentes que as compartilham. “Cada país está em um estágio. Há nações onde a inclusão digital já aconteceu há mais tempo e onde o assunto já foi incluído na rotina das pessoas e escolas, o que não é muito a realidade dos brasileiros. Alfabetização midiática tem a ver com fomentar a formação das pessoas para que sejam produtores de inovação com olhar crítico, e não simples usuários das tecnologias”, avalia.

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