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Vincent Peyrègne, CEO da WAN-Ifra, fala sobre os 70 anos da entidade e os desafios do jornalismo hoje

Igor Ribeiro
6 de setembro de 2018 - 14h19

Com o nome de WAN-Ifra, a Associação Mundial de Jornais e Publishers de Notícias existe de 2009, fruto da união de diversas entidades de classe ao decorrer de sua história. Mas sua origem remonta à Federation Internationale des Editeurs de Journaux et Publications (Fiej), órgão europeu que marcou o início da representatividade internacional das empresas de jornalismo, ainda em 1948. A WAN-Ifra comemora, portanto, 70 anos. E alguns de seus principais executivos estiveram no Brasil para receber, da Associação Nacional de Jornais, o Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa de 2018, reconhecendo uma das principais atividades da entidade.

Vincent Peyregne, CEO da WAN-Ifra (Crédito: Arthur Nobre)

Para falar sobre a celebração e os desafios atuais da entidade, o CEO Vincent Peyrègne falou com Meio & Mensagem. Principal executivo da entidade há seis anos, o profissional teve passagens anteriores pelo gabinete do ministério de cultura e comunicação da França e foi chefe de desenvolvimento da Edipresse Publications em Lausane, na Suíça. Passou também por jornais como La Tribune e Libération, com expertise em marketing, vendas e analytics, e chegou a ser diretor para o sul da Europa por sete anos da Inca Fiej Research Association, uma das entidades que deu origem ao WAN-Ifra.

Setenta anos
O Congresso Internacional é para nós o ponto principal da nossa celebração, que foi agora em junho em Portugal, no qual fizemos um tributo aos fundadores e debatemos o atual cenário, muito desafiante, que enfrentamos no negócio de notícias. No fim das contas, é similar ao que o setor enfrentava na época, em 1948. Antes eram desafios de reconstrução e, hoje, são desafios de transformação, de transição. Os fundamentos da WAN-Ifra seguem os mesmos, nossos statements são parecidos com os dos fundadores, de ser uma voz de apoio aos empreendedores nesse negócio, no que diz respeito à liberdade de imprensa. Isso é algo bastante único, não me recordo de outras associações de classe internacionais que tem como um de seus princípios básicos defender a liberdade de imprensa e proteger os jornalistas — a maioria diz respeito a negócios, direitos autorais, melhores práticas. Nossa segunda premissa essencial é apoiar nossos filiados em impulsionar a transformação de suas operações e somos muito enfáticos nisso por meio de nossos eventos: são entre 13 e 15 por ano, com muito networking, além de nossa conversa frequente com mais de 10 mil executivos de negócios de mídia ao longo do ano, por meio de outros fóruns, reports e conteúdos diversos.

Missão do CEO
Nossos associados, hoje, vão além dos publishers, reunindo empresas, entidades comerciais, associações representativas, todos dedicados a pensar o futuro. São cerca de 3 mil filiados. Sou responsável pelas operações e por colocar em prática as medidas consideradas pelos membros, que têm voz muito ativa em determinar as estratégias. Nós conversamos com os conselhos regionais e integrantes dos comitês para alinhar essas expectativas com as missões da associação e eu e a equipe estamos encarregados em executar isso.

Fake news
A coisa mais óbvia é se organizar para evitar a desinformação. Vemos muitas iniciativas para bloquear fake news e informar ao público e acredito que é uma atividade lógica para os profissionais de jornalismo. Mas mentiras sempre estiveram por aí e seu principal impacto na sociedade, em última instância, é sobre a educação. Quanto mais o público em geral souber diferenciar jornalismo responsável de humor, fake news, propaganda… melhor. E isso é um assunto do maior interesse dos jornalistas. O caso da França não é uma referência para todos os mercados, mas nosso diretor no país tem se empenhado em deixar uma marca forte no sentido da responsabilidade pública sobre ao ensino de crianças e adolescentes no que diz respeito ao entendimento de notícias, com o apoio do ministro da educação há décadas. E após muitas pesquisas, ficou óbvio que é cíclico: quanto mais se é educado sobre isso, mais atenta a sociedade fica sobre o que é mentira e quais são as melhores decisões para se tomar para evitar isso. Esse movimento, com a adesão de publishers, autoridades, outros veículos de mídia, grandes empresas e do próprio público, acaba florescendo o debate sobre quem está tentando manipular quem. Nesse sentido, as empresas do setor devem colaborar o máximo possível entre si para incentivar o debate. O Brasil tem sido um ótimo exemplo disso, existe essa iniciativa aqui reunindo boa parte dos grandes outlets de notícias, o Comprova.

Diretrizes para plataformas
Fake news é responsabilidade das empresas de tecnologia, mas não é a matriz de seu negócio. Então temos muita dificuldade em engajar numa discussão em que essas responsabilidades esteja bem definidas. As plataformas temem o impacto de regulamentações. Hoje, elas operam num universo muito aberto. São multadas, especialmente na Europa, de modo muito substancioso. Mas mesmo o Facebook, por exemplo, mal foi impactado por qualquer tipo de decisão, inclusive dentro do Comitê Europeu. Então é confortável para elas não entrar no debate sobre responsabilidades, pois assim que as autoridades direcionarem isso, eles terão de cumprir obrigações que poderão ferir seus negócios. Assim como Google teve de reconhecer problemas de direitos autorais, que não eram compreendidos dentro de sua filosofia de compartilhar conhecimento, o Facebook terá que responder a questões sobre a distribuição de conteúdo gratuito dentro da plataforma, ferindo as proteções de empresas jornalísticas. Por isso também temos essas empresas de tecnologia como integrantes do WAN-Ifra, queremos trazer eles para o debate de conteúdo e modelo de publicidade, pois eles fazem parte da cadeia. As organizações envolvidas estão aqui para tornar mais fácil a conversa entre os provedores de tecnologia, de serviços e as organizações de mídia.

Publicidade e circulação paga
Até pouco tempo, a publicidade era 80% das receitas das empresas de mídia e somente há cerca de cinco anos que o dinheiro direto do público começou a inverter a balança. Claro, a queda de advertising acelerou isso, mas também colaboraram para receita de assinantes fatores como melhores conteúdos, melhores interfaces, incentivos mais interessantes para se fidelizar a um publisher, todos os esforços em analytics e marketing digital, melhores insights sobre quem são seus consumidores… Por outro lado, os grandes anunciantes voltaram a perceber que quem promove brand safety com confiança são as empresas com expertise em produção de conteúdo, e essas empresas passaram a ficar temerosas em vincular suas marcas a conteúdos polêmicos, que costumam se espalhar com maior facilidade nas plataformas, voltando a fazer das mídias de publishers um investimento menos arriscado.

Crédito da imagem do topo: Pixabay/Pexels

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