E agora, Tony Ramos?

Buscar

Opinião

Publicidade

E agora, Tony Ramos?

Ao passar tantos anos vinculado à Friboi, o ator global não estabeleceu algo efêmero e passageiro. Ao aceitar esse projeto de marketing, ele se casou para sempre com a marca


19 de março de 2017 - 17h57

Tony Ramos friboi
Fiquei surpreso ao começar a ler a matéria no site Ego. Logo no início,  surge a seguinte declaração de Tony Ramos: “Eu sou apenas contratado pela empresa de publicidade, não tenho nenhum contato com a JBS”.

O meu queixo caiu! O que é isso? Como você não tem nenhum contato com a JBS? Você tem entrado na minha casa todos os dias, nos últimos quatro anos, dizendo que “carne confiável tem nome: Friboi” e agora vem dizer que não tem relacionamento com a empresa para a qual você entrega a sua credibilidade a cada comercial?

Aquele filme que você entrou de surpresa numa hamburgueria era mentira? Nada daquilo dito por você era verdade?

E aquele filme em que você aparece na linha de produção? Não era linha de produção? Foi filmado num estúdio frio e cenográfico?

Quer dizer que durante todo esse tempo não era você realmente se pronunciando nos anúncios? Você fazia um personagem? Era uma espécie de Totó de Passione ou o Opash de Caminhos das Índias falando da carne da Friboi? Pô, cara, numa boa, então no final de cada anúncio deveria ter uma legenda dizendo “essa não é a opinião real de Tony Ramos, e sim a representação de um personagem”.

Essa foi a minha primeira reação ao ler o início da matéria no ego. Tudo isso me passou pela cabeça instantaneamente. Mas aí eu continuei a ler o artigo e os parágrafos seguintes diziam que o Tony Ramos afirmou ainda acreditar na boa qualidade dos produtos que ele anuncia. Ele também disse que já visitou uma das fábricas, que continua comprando e consumindo produtos Friboi. Em função das notícias na mídia, está comprometido a entrar imediatamente em contato com a empresa para saber mais detalhes sobre o caso. Disse que a JBS tem direito do uso de sua imagem e que não sabia se faria novamente anúncio para eles. Mas se forem inocentados dos erros que estão sendo acusados, ele faria. Bem, com essa declaração, ele recuperou a sua imagem para mim, mas com ressalvas.

Certamente ele tem relacionamento com a JBS-Friboi. Como não ter relacionamento com o produto que anuncia de forma tão intensa há quatro anos? O ator colocou o seu rosto, a sua voz e a sua carreira a serviço da marca durante todo esse tempo, falando sobre garantia de origem, controle de qualidade, higiene, certificações e processos que diferenciam seus produtos dentro do mercado. Ao se juntar à Friboi de maneira tão simbiótica através de seus testemunhais, Tony deu a sua credibilidade como pessoa à marca. Portanto, Tony, você tem que ir até o fim. Segura a onda, procura entender o que está acontecendo e se transforme num real defensor da marca. E foi isso que parcialmente li nas declarações. Ele falou em procurar entender o que está acontecendo, mas fez questão de não se posicionar como defensor da marca. Isso eu não gostei.

Não sou fã incondicional de atores e atrizes, mas sempre encarei Tony Ramos como um ator diferenciado. Um artista que não se contagiou com o estrelato, que não vive num universo paralelo de fantasia e preserva sua vida pessoal longe dos holofotes. Esse seu comportamento exemplar deu a ele uma imagem muito especial para mim e para o grande público. É um sujeito que passa credibilidade, honestidade e bom cidadão. E foi exatamente essa imagem que ele aplicou nos anúncios da Friboi.

Do ponto de vista publicitário e de negócios, a campanha da Friboi com Tony Ramos é de um sucesso retumbante. É um tremendo caso de marketing. A campanha publicitária estrelada pelo ator global elevou continuamente as vendas das carnes Friboi e posicionou a marca como uma marca de qualidade irrepreensível. Eu, como consumidor, acreditei e hoje sou um consumidor regular da Friboi. Antes carne era qualquer uma, agora carne de qualidade é Friboi.

Todo o noticiário ao redor da operação Carne Fraca da Polícia Federal não me fez pensar somente no Tony Ramos. Outro nome que me veio imediatamente a cabeça foi a Fátima Bernardes. Ela nunca havia estrelado comerciais e sempre teve uma forte imagem de credibilidade, resultado de uma carreira de sucesso como jornalista. Ela virou a garota propaganda da Seara, marca também da JBS, com um cachê de milhões de reais, e sua figura entrou na casa dos brasileiros dizendo que “Seara é tudo de bom e a qualidade vai te surpreender”. A imagem de Fátima Bernardes e a Seara também estão fortemente vinculadas. Tal qual a Friboi, a marca Seara também aparece citada nos noticiários. O que será que a Fátima está pensando agora?

Eu não tenho nenhum juízo de valor em relação à Friboi, Seara e outras marcas citadas na operação da Polícia Federal. Na verdade, me faltam elementos para me posicionar em relação ao caso, mas vivemos um momento no país onde o nível de reação popular tem sido imenso, polarizado e irracional. Temos que tratar tudo que circula na imprensa e nas mídias sociais com muito critério e racionalidade. O fato é que a JBS se posicionou imediatamente através de um comunicado público contundente e, com certeza, está tratando de entender todo o contexto, os detalhes, e tomando as ações adequadas. Certamente vai trabalhar um plano de posicionamento e comunicação para proteger a marca e sua reputação.

Abro um parênteses para dizer que tenho amigos que trabalham na JBS e que sempre compartilharam comigo o rigor que a empresa tem com o controle de qualidade, a intolerância em relação aos abates ilegais e aos desvios de qualidade em seus processos industriais. A empresa exporta para mais de uma centena de países com um nível de qualidade super exigente. Por isso, confesso, encaro isso tudo como exceções dentro de um universo gigante. Em relação as marcas Friboi e Seara, continuarei um consumidor regular até que os fatos divulgados me façam mudar de ideia.

Mas meu objetivo aqui nesse artigo não é falar do caso em si, mas entender como o Tony Ramos se posicionará frente aos fatos. Me parece natural imaginar que o posicionamento da marca perante o público deveria ser feito através de seu maior porta-voz: Tony Ramos. Se ele deu credibilidade à marca até agora, então faz todo sentido imagina-lo como porta-voz nesse momento que a marca precisa dele.

Situações como essa não são comuns. Eu já escrevi muito sobre influenciadores digitais e o risco das marcas se associarem fortemente à uma pessoa. O caso recente do PewDiePie no mundo digital é um bom exemplo, mas no mundo real existem casos emblemáticos como os de Ryan Lochte, Michael Phelps e Tiger Woods, todos atletas ícones em seus esportes que, de repente, protagonizaram situações complicadíssimas para seus patrocinadores.

Quase sempre analisamos os casos sob o viés do olhar da marca, mas no caso atual eu não paro de pensar o caso de maneira inversa. O que será que está passando na cabeça de Tony Ramos? Será que ele pensa que sua reputação foi arranhada com tudo que aparece na mídia? Ele foi um dos campeões de memes nesse final de semana.

O fato é que, Tony Ramos, ao passar tantos anos vinculado à Friboi, não estabeleceu algo efêmero e passageiro. Ao aceitar esse projeto de marketing, o ator se casou para sempre com a Friboi. O vínculo é indissolúvel. Ele levou o passado, o presente e o futuro da marca. O inverso também é verdadeiro. Se o Tony pirar na batata, a Friboi terá um impacto imediato. Portanto, relações como essa, vão muito além de um contrato publicitário.

Nesse momento onde todas as emoções ficam a flor da pele, podemos pensar na conexão Friboi-Tony como um matrimônio, de papel passado. Como todo casamento, cuide do seu parceiro na saúde e na doença. Trate de não se afastar e não se isolar do problema, em vez disso, chame para conversar, reforce a relação, entenda o que está acontecendo, tome ações e vá a luta para defender o seu parceiro. Isso é uma relação honesta e verdadeira. Portanto, Tony, mais do que nunca, agora é hora de você ir para mídia e representar a marca que você celebrou durante todos esses anos. Os seus fãs e os clientes da Friboi estão esperando por isso.

Publicidade

Compartilhe

  • Temas

  • Fátima Bernardes

  • Mauro Segura

  • Tony Ramos

  • BRF

  • Friboi

  • JBS

  • Perdigão

  • Sadia

  • Seara

Comente

“Meio & Mensagem informa que não modera e tampouco apaga comentários, seja no site ou nos perfis de redes sociais. No site, quando o usuário ler a indicação Este comentário foi apagado’ significa que o próprio comentarista deletou o comentário postado. Não faz parte da política de M&M gerenciar comentários, seja para interagir, moderar ou apagar eventuais postagens do leitor. Exceções serão aplicadas a comentários que contenham palavrões e ofensas pessoais. O conteúdo de cada comentário é de única e exclusiva responsabilidade civil e penal do cadastrado.”

  • Carolina Macedo

    Acredito que tanto o Tony Ramos quanto a Fátima Bernardes são meros atores nisso tudo e o jornal Meio e Mensagem sendo do ramo de publicidade deveria enternder isso mais do que ninguém. Eles não são donos da empresa, podem ter sim suas imagens afetadas mas cobrar que eles se posicionem ou achem uma solução pra isso é irreal; eles estao longe da linha de produção. É igual cobrar dos vendedores da Zara explições sobre os trabalhos escravos.

  • Paulo Penteado

    muito bom o artigo.

  • Jose

    Artigo ruim. Muito prosaico sobre o que passa na cabeça do Tony Ramos e pouca analise seria. E também muita defesa da JBS o que conta que quem escreveu tem receio de se posicionar sobre quão serio sao os fatos de corrupção e acusações que tem provas mais que claras sobre o envolvimento da empresa. Talvez um receio da JBS ser cliente então melhor apenas cerrar fogo sobre o Tony Ramos e Fatima Bernardes mesmo.

    • Mauro Segura

      José. Recomendo que nas próximas vezes se posicione informando o seu nome completo para termos uma conversa mais transparente. A minha proposta não foi analisar o caso de forma completa, mas sim fazer uma reflexão sobre o posicionamento do Tony Ramos peranta as manchetes.

  • Rodrigo Lino

    Mmm… Estranho hein. Porque só veio à tona o ator contratado e o cliente desmoralizado? E quem criou as campanhas, quem “vende” o produto? A agência não foi citada. Não que ela tenha culpa, assim como, menos ainda, o ator. Mas vamos e convenhamos que há um certo tabu em nós posicionarmos contrários a nossos clientes e/ou potenciais. Nestas horas preferimos desviar a atenção (coisa que sabemos fazer como ninguém né) do que enfrentar e, porque não, cobrar uma atitude. Afinal, nós, como profissionais de comunicação, somos responsáveis pela interlocução de nossos clientes. Nossa cara também está a tapa. Nossa reputação e a do Tony também, se seguirmos a lógica do artigo. Mas na verdade parece que quando o time está ganhando a gente quer falar que ajudamos e quando está perdendo melhor sair à francesa. É um ato de covardia não se posicionar num caso desse, de saúde pública. Uma reflexão: será que existem agências que investigam o comportamento de seus clientes ou não, só são pagos para “venderem” e não se meterem onde não são chamados? Covardia, rabo entre as pernas e submissão às gordas verbas, venham de onde vierem. Ética passa longe quando o assunto é contrato assinado.

    • Mauro Segura

      O meu artigo não se propôs a analisar o caso como um todo, mas simplesmente fazer uma reflexão sobre o posicionamento do Tony perante as manchetes na grande mídia.

  • Tico Vicente

    Artigo completamente equivocado. “Matrimonio com a marca”, “obrigação de defender o cliente na saúde e na doença”…isso só revela a completa falta de entendimento de como funciona a relação de porta voz de uma marca. É, sim, apenas um contrato, um negócio. Ou o autor acha que Robert de Niro deve estar preocupado em restaurar a imagem da Seara?? Muito pelo contrario, em se provando as acusações, Tony, ou Fatima ou De Niro deveriam processar as marcas, pois a imagem deles pode ser arranhada e pq foram enganados ao serem informados sobre a qualidade das empresas, assim como os clientes, muito embora seja óbvio que, diante do conjunto da obra desses artistas, o trabalho para essas marcas não significa absolutamente nada. A última coisa pela qual eles serão lembrados será suas campanhas publicitårias, ninguém mais lembra dos incidentes Chico Anysio/Maguari, Zeca Pagodinho/Schin, isso é algo irrelevante em suas biografias… Dizer que a imagem desses artistas está eternamente atrelada as marcas é de uma distorção delirante… Alem disso, Imaginemos o contrario – Tony é acusado de ser, por exemplo – drogado – a marca rescindiria sumariamente o contrato (e aí garanto que ninguem usaria a palavra “matrimônio” rss). Pergunto: seria correto afirmar que a empresa é desonesta ou ruim pq se associou com
    um cara que usa drogas?? lógico que não, pq quando assinaram o
    contrato não se sabia disso. Celebridades são porta-vozes das marcas, mas jamais podem ser responsáveis por elas, eles não têm meios nem obrigação de, por exemplo, auditar a linha de producao das empresas. É como acusar a Ivete Sangalo de mentirosa pq meu plano Vivo não funciona direito….Remete a uma filosofia na qual o grupo econômico contratante sempre tem razão e a cadeia de comunicação deve ser servil e condescendente. Lamentável.

    • Mauro Segura

      Fiquei muito surpreso com o seu comentário citando que o artigo mostra falta de entendimento sobre como funciona a relação porta voz e marca. Na verdade achei até engracado. Sou executivo de comunicação e marketing há mais de 20 anos, de várias empresas diferentes, portanto esse tema de porta voz e comunicação corporativa eu conheço muito bem. Infelizmente você não entendeu o meu artigo. Em nenhum momento citei que porta-vozes de marcas são responsáveis por ela. Você acha que o Tony Ramos não se preocupou com todo o caso citado na grande mídia? Enfim, minha avaliação é que você não entendeu o meu artigo.

      • Tico Vicente

        Aparentemente muita gente “não entendeu” seu artigo, vide os outros comentários…Amigo, tenha certeza, tenho mais experiência que você em trabalhos com celebridades e acho que sua abordagem foi equivocada, apenas isso. Mas esperava de um profissional do seu nível um debate de conteúdo beeem melhor do que esse pueril “vc não entendeu meu artigo”…Eu e os leitores do M&M merecemos algo melhor.

  • marcelo sobrinho

    A PF faz um operação desse tamanho, a mídia faz um baita escândalo, o Mercado Internacional generaliza e pára de comprar carne do Brasil, famílias inteiras perdem o emprego, e você está preocupado com o Tony Ramos? é ‘sério??? Como dizia minha avó, Dona Alzira: “Que falta de serviço…”rsss