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Bem-vindo a Elysian Fields

Você pode dizer: tem muito barulho lá fora. Sim! Não é maravilhoso? O barulho que está lá fora está carregado de soluções


13 de junho de 2017 - 8h00

Estamos vivendo um momento de grandes mudanças nas relações de poder. Gerald Hawkins diria que estamos vivendo os últimos anos antes do próximo Mindstep, um momento de transformação irreversível de paradigmas. Pontos de mudança de agenda estão visíveis em diferentes realidades, ao mesmo tempo e de um jeito impossível de ser visto antes. Já procurei por equivalências, sabendo que se elas existissem também acabariam procurando por mim. Mas nunca nos encontramos. Sempre que parecia que estávamos perto, uma dimensão nova surgia e mudava tudo.

Dimensões novas que vinham de um mesmo lugar em movimento, de onde era sempre possível observar o surgimento de contextos gerados a partir de diferentes estágios do desenvolvimento científico e tecnológico. Andei lá pela Singularity há quatro anos em busca de entender um pouco isso. Aquele lugar mexeu muito comigo, tanto que quase não falei a respeito depois que voltei. Mas não porque acelerou meu desejo de me aproximar mais e mais das discussões que envolvem Inteligência Artificial, Bio Tecnologia, Nano Tecnologia, Data Science e Robótica.

Isso até aconteceu, mas em consequência de algo que me movia mais: perceber o lugar onde já estávamos naquele momento me fez mergulhar na busca por entender onde estamos e onde podemos chegar do ponto de vista humano. Estamos vivendo contextos com a força de interferir em valores, crenças, pilares, princípios, em uma velocidade e profundidade impressionantes. Não é só isso. Também estamos falando de realidades visíveis e compartilhadas em uma quantidade e velocidade muito maior do que já vimos antes.

Realidades sobrepostas. Novas realidades impressas sobre outras que já existiam. Não realidades concomitantes nem paralelas. Uma realidade sobre a outra, compartilhando tanto espaços comuns quando opostos, ao mesmo tempo em comunicação e em conflito. Sabe essa sensação de que estamos todo tempo navegando entre contradições? Essa sensação de que tudo está polarizado que, muitas vezes, nos faz acreditar que todos estão uns contra os outros? Então, é consequência do encontro de realidades. Não estamos todos uns contra os outros (claro que existem exceções), estamos experimentando entrar em contato com partes do mundo, de nós mesmos e do outro que desconhecíamos e que, antes, podíamos escolher continuar desconhecendo ou, no mínimo, continuar fingindo que não existiam. Não é hora de tentar simplificar.

Simplificar nem sempre é bom. Se você tem dúvida, olhe a sua volta e veja o resultado da escolha pela simplificação que, no passado, limitou a manifestação da identidade de gênero a binômios como homem e mulher, azul e rosa, força e sensibilidade. Ou aquela outra escolha que limitou a definição de família a homem, mulher e filhos vivendo em uma mesma casa.

Simplificar nem sempre é bom. Se você tem dúvida, olhe a sua volta e veja o resultado da escolha pela simplificação que, no passado, limitou a manifestação da identidade de gênero a binômios como homem e mulher, azul e rosa, força e sensibilidade

O mundo sempre foi complexo. O pensamento binário é uma invenção humana da qual podemos abrir mão agora. Olhe para o mundo: balões estão levando internet para lugares que os cabos não conseguiram alcançar. As redes sociais estão dando voz a pessoas que jamais conseguiriam se aproximar dos palanques eletrônicos. A internet está abrindo janelas pelas quais estamos vendo perseguições, desigualdades, injustiças antes fora da nossa referência. Estamos ganhando mais poderes.

Você pode dizer: tem muito barulho lá fora. Sim! Não é maravilhoso? Muita gente falando ao mesmo tempo a partir de realidades completamente diferentes, só falta agora ter muita gente ouvindo e escolhendo sair da sua área imaginária de segurança, esse lugar onde insistimos em nos apegar e repetir aprendizados que nos fazem repetir comportamentos como se alguma coisa estivesse tentando nos tirar de um paraíso imaginário. O barulho que está lá fora está carregado de soluções.

Exatamente agora, estamos experimentando, em escala, interseções de realidades diferentes sem que necessariamente exista nenhuma intenção de promover convergências. E isso é bom. Nem sempre é sobre concordar ou discordar, mas sempre é sobre prestar atenção. Viver em um mundo de realidades sobrepostas muda tudo. Para começar, que tal um reset na nossa forma de encarar conflitos? Conflitos nascem junto com a nossa necessidade de escolha. Ser a favor ou contra a legalização do aborto. Ser ou não a favor da importância política e social da discussão sobre gêneros. Ser ou não a favor da discussão sobre racismo no Brasil. Acreditar ou não que somos todos corruptos. E se não for sobre isso? E se pararmos de nos cobrar um posicionamento imediato? E se nos interessarmos mais pela pergunta que por ter a resposta?

Kurt Lewin, psicólogo alemão-americano que escreveu um importante trabalho sobre mudanças em organizações, diz que o comportamento deriva da coexistência dos fatos. Ele acredita que essa coexistência cria o que ele chama de “campo dinâmico”, o que quer dizer que o estado de qualquer parte depende de todas as outras. Não é sobre o que foi o passado ou sobre o que vai ser o futuro, é sobre o campo atual e como nos relacionamos com ele.

Bem-vindo a Elysian Fields! Um lugar onde você nunca esteve. O paraíso pós morte dos heróis. A música. Uma região de Marte. A banda do Brooklin. A sociedade secreta dos milionários conservadores de House of Cards. Tanto faz. Bem-vindo ao momento de descobrir, que pode ser sobre tanta coisa, um lugar que até ontem você nem sequer sabia que existia.

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