O publicitário famoso

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O publicitário famoso

Quando ele entrava na sala, sempre por último, os Leões e tudo o que eles significam vinham com ele


11 de setembro de 2017 - 16h38

Eles eram 20 e poucos. Receberam-me naquela sala com decoração moderna, chique e clean. As pessoas eram, assim como a sala, modernas, chiques e clean. Pareciam haver sido selecionadas em um casting só para participar daquela reunião. As artes nas paredes não eram reproduções como as que eu comprara na Fundação Joan Miró nas férias de 2004, mas sim um original que o próprio havia pintado em 1934. Isso sem contar a comida e a bebida. Não sei quem faz catering das agências de propaganda, mas eles são sempre excelentes. As reuniões, sempre no fim de tarde, ajudavam a deixar a comida ainda mais saborosa graças à fome que trazíamos conosco do escritório.

Mas o mais intimidador não era a quantidade de pessoas, o Miró ou os pães de queijo recém-saídos do forno. O que dava mais medo era ele: o publicitário famoso. Não era sua culpa ter morado em oito países durante sua bem-sucedida carreira, falar seis idiomas sem sotaque algum, pintar, compor poesias e músicas, tocar três instrumentos com maestria, saber de filosofia, arte medieval, conhecer todos os sites de coisas cool na web, ter um milhão de seguidores no Instagram e comentar sobre a novela e o Faustão. Mas ganhar aquele monte de Leões era. E eles estavam todos lá, muito bem expostos, para todo mundo ver. Naquela agência os Leões não estavam em extinção. Eles se multiplicavam todos os verões em Cannes e migravam para São Paulo para morar naquela sala de reuniões.

Quando ele entrava na sala, sempre por último, os Leões e tudo o que eles significam vinham com ele. Uma não tão discreta forma de relembrar o cliente das suas credenciais criativas.

Sempre muito agradável e descontraído, ele quase me fazia esquecer a ansiedade que aquelas reuniões me davam. Mas eu não conseguia pensar em outra coisa… Se a campanha não for boa, terei de falar pra ele que não está aprovado. Sabe como é difícil dizer para alguém que é muitas vezes mais talentoso do que você que a campanha não vai funcionar? Que autoridade eu tinha (além do orçamento da minha empresa) para julgar irrelevante algo que Cannes aplaudira de pé?

Perdi a conta quantas vezes passei por esta situação e não houve uma vez sequer que eu não tenha ficado nervoso. Assim eram as reuniões com a agência. O publicitário famoso na cabeceira da longa mesa, dez discípulos de cada lado e eu, com aquela cara de Judas, pronto para trair a sua confiança.

Até o dia em que eu entendi que nossos papéis naquelas reuniões eram bem diferentes. O meu não era julgar a criatividade mas sim discutir sua adequação à estratégia da marca. Por melhores que eles fossem (e como eram bons todos eles!), jamais entenderiam tanto sobre a minha marca e a minha empresa como eu. Nesse assunto, nenhum deles, nem mesmo o publicitário famoso, ganhava de mim. A minha opinião sobre a criação era só isso; uma opinião.

Depois disso eu nunca mais fiquei nervoso e nunca mais tive medo do publicitário famoso. Isso funcionou com a Ogilvy, com a JWT, com a Loducca, com a AlmapBBDO, com a  McCann, etc. A lista é longa mas os resultados foram sempre os mesmos.

Tive sorte, pois trabalhei com gente muito boa. Não só gente boa em propaganda, mas gente boa mesmo. Gente que, apesar de muito famosa, tinha muita paciência e boa vontade para tentar entender por que eu achava o que eu achava. Foram Nogueiras, Celsos e Marcellos que escutaram e debateram. Algumas vezes me convenceram e, em outras, se deixaram convencer.

Já vi muitos diretores de marketing destruindo campanhas por achar que eram mais criativos que os criativos de suas agências. Posso garantir que esta é a melhor receita para o fracasso do trabalho e da relação.

Se você fizer a sua parte e deixar que eles façam a deles, não precisa ter medo. Lembre-se: o publicitário famoso não ficou famoso por acaso.

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