A Carta Deneuve

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A Carta Deneuve

Provocando concordância ou estarrecimento de quem nunca confundiu elogio e assédio, a publicação do Le Monde mostra que existem vozes querendo se manifestar e elas precisam ser ouvidas


12 de janeiro de 2018 - 11h03

Considerando tudo o que sabemos e que está comprovado em diferentes estudos já realizados mundo afora, é natural que a  primeira reação de pessoas como eu, envolvidas na luta contra o assédio, seja protestar contra as pessoas que parecem não entender o mundo onde estamos vivendo e assinam a carta publicada pelo Le Monde, mas creio que esse é um caminho pouco eficiente agora por um motivo simples: o assédio sexual tem destruído mulheres em todo o mundo há tempo demais e precisamos de mulheres e homens conscientes do problema, unidos, decididos a eliminá-lo em todos os lugares onde ele acontece e a Carta Deneuve mostra que existem vozes dissonantes e que precisamos dialogar para que consigamos caminhar na velocidade e com a escala necessária.

Erradicar o assédio exige que lidemos com todas as realidades que estão relacionadas à sua existência e à sua naturalização, a Carta Deneuve representa algumas dessas realidades: a realidade de mulheres que nunca foram abusadas e não conseguem nem alcançar o dano que já foi causado nem entender o motivo pelo qual precisamos de mudanças urgentes; a realidade de homens que veem na mobilização contra o assédio uma luta contra o masculino e contra o direito livre e legítimo ao desenvolvimento de relações saudáveis.

Concordemos ou não, o que está colocado na Carta publicada no Le Monde reflete a opinião de mulheres e homens – empresarios, artistas, politicos, intelectuais – na França e em diferentes lugares do mundo, inclusive no Brasil. Desde a publicação do estudo “Hostilidade, Silêncio e Omissão”, que apresenta um retrato do assédio nas agências de publicidade, tenho ouvido de dezenas de pessoas influentes, que ocupam cargos de liderança e formam opinião, considerações semelhantes.

Parecendo fazer sentido ou não aos olhos de quem nunca confundiu elogio e assédio, provocando concordância ou estarrecimento, a publicação da Carta mostra que existem vozes querendo se manifestar e elas precisam ser ouvidas sob o risco de que falsamente se silenciem enquanto continuam influenciando o sistema, agindo de forma invisível, tornando a luta contra o abuso mais difícil e fazendo com que a doença não encontre cura e que a dor e o sofrimento permaneçam nos indivíduos e nas famílias.

Temos falado muito sobre o encontro de diferenças e seus desafios, sobre fricções e a dificuldade que temos de impedir que elas se tornem conflitos. Temos falado sobre tudo isso e sobre a necessidade de encontrarmos caminhos não violentos de transformação capazes de impedir o crescimento da insegurança e do medo que alimentam o conservadorismo radical e o populismo. A Carta publicada no Le Monde nos pede para ir além do discurso.

Está na hora de praticar o respeito que defendemos e de iniciar, juntos, a construção de um espaço onde seja possível encontrar pontos de vista diferentes sobre nosso desejo comum de fazer cessar a dor e o sofrimento das vítimas de nosso antigo hábito de regular o mundo a partir, apenas, de nossa própria condição, enquanto observamos o outro a partir de um limitado conjunto de referências.

 

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