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A propaganda e o poeta

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A propaganda e o poeta

Everton Behenck é um diretor criativo que faz da publicidade o seu sarau


26 de abril de 2018 - 14h27

Créditos: divulgação

Quando encontrei com o Everton Behenck no hall de entrada da agência Africa, notei que ele tinha um longo texto tatuado nos dois braços. Só depois ele me contaria o significado dessas palavras. “É um poema de Vinícius de Moraes que sempre achei maravilhoso. Persigo esse poema desde que eu era moleque. Chama O Desespero da Piedade”.

Everton tem uma relação forte com a poesia desde cedo. “Comecei a escrever versos assim que me alfabetizei,” ele conta. Hoje ele atua como Diretor Criativo, mas antes trabalhava como Redator Sênior do mesmo núcleo ­– escrevendo roteiros para campanhas marcantes como “Eu sou o tempo” e “Eu sou o futuro” do Itaú, com locução soberana da Fernanda Montenegro.

Locução também é uma habilidade que faz parte do portfólio deste criativo. Às vezes o Everton dá voz aos próprios roteiros em peças publicitárias. Foi um hábito que ele criou nos saraus e que trouxe para a publicidade. Nesta entrevista, o Everton fala sobre a relação entre a poesia, a redação e a locução no seu trabalho profissional.

Por que você escolheu a propaganda como carreira?

Escolhi esta carreira pensando em como eu poderia trabalhar escrevendo. Não existe poeta profissional, né? Ninguém nunca foi, ninguém nunca será. O Vinícius não foi, o Drummond não foi. Todo mundo tem um trabalho de verdade. Isso é uma das belezas da poesia: a inutilidade mercadológica dela. Fiquei na dúvida entre o jornalismo e a redação e acabei escolhendo a publicidade. É um universo em que as pessoas trabalham com criação… trabalham escrevendo.

Você diz que não existe poeta profissional. E você? Escrever roteiros poéticos não faz parte do seu trabalho?

Na medida que você faz para uma marca, ela deixa de ser poesia, por mais lírico que seja. Para discutir o que é poesia e o que não é poesia, a gente teria que entrar numa discussão mais profunda da arte para decidir se ainda é poesia quando ela está emprestada para a propaganda. Eu acho que o lirismo a gente empresta. A poesia, de fato, é um outro bicho.

Mas existe uma tradição de poetas que trabalharam com a propaganda, certo?

Claro, diversos poetas trabalharam com a propaganda aqui no Brasil…  desde os tempos de Augusto dos Anjos e Olavo Bilac. Eu não acho que seja poesia por mais poético que seja, mas de fato este é um lugar que tento encontrar. Como eu trago este lirismo… como eu trago o poético para dentro de um discurso de marca?

Além de escrever roteiros, você também grava locuções. Como adquiriu esta habilidade?

A questão da voz veio da poesia mesmo. Comecei a escrever e antes de conseguir publicar, eu frequentava saraus. Num sarau, quando chega o seu momento, você tem que pegar o papel e dar a cara a tapa. Foi assim que entrei na tradição de dizer poesia. É um lugar diferente das outras colocações da voz no universo da palavra. Temos a Escola de Dramaturgia e temos a Escola de Locução… e no meio das duas, escondidinha, temos a Escola da Poesia. Ler poesia para os outros num sarau me ensinou como a colocação da voz faz com que você comunique ou não o que está escrito num texto.

Itaú BBA – Valores que geram valor (redação e locução por Everton Behenck):

Você pode falar sobre o processo criativo que levou você a ser redator e locutor?

Os grandes escritores sempre dizem que você tem que achar a sua voz de escritor. Você tem que achar a sua voz de poeta. Neste momento, “voz” ainda se refere à maneira que você escreve. Qual é o jeito que você compõe as estrofes?  Qual é o seu ritmo? Qual é a sua estrutura? Você é um poeta que faz sonetos? Um poeta de verso livre? Seus versos são curtos? São longos? Quais são os seus temas? Tudo isso vai compor a tua voz. E depois que você tem uma voz e você vai jogar a sua poesia para o mundo, você tem que descobrir também a sua voz de fato. Esse foi o meu processo… de achar um lugar de dizer texto… que não foi nem a Escola da Dramaturgia e nem a Escola da Locução… foi a Escola da “Dizeção”.

Segundo a filosofia da Escola da Poesia, que conselho você daria para um jovem locutor?

Olha, eu diria para ele a mesma coisa que se diz para o jovem poeta: encontre a sua voz. Seu jeito de dizer. Não tente ser um locutor. Não tente ser um ator. Tente entender a sua voz. Que recursos ela tem? Qual é a colocação que faz sentido na tua boca? É mais no palato? É mais na garganta? Como é que você fala? Quais são as variáveis que funcionam para você? Acima de tudo, você precisa “dizer”. Essa palavra resume tudo que acho interessante na locução. Dizer as coisas. Não interpretar. Não locutar. Mas dizer. Tem pouca gente que diz. Pegue um texto e diga aquele texto.

Você já escreveu algum roteiro pensando na locução?

As campanhas do Itaú de final de ano em 2016 e 2017 com a Fernanda foram assim. Ela já tinha feito o primeiro filme da campanha, que foi o da virada do milênio. Quando cheguei aqui este filme já existia. Nós sabíamos que ia ser uma continuidade e que seria uma trilogia. O segundo foi “Eu sou o tempo” e o terceiro foi “Eu sou o futuro”. Então neste caso foi o inverso. Eu sabia que eu tinha ela, então fui atrás de um texto feito para a voz dela. Por isso enveredei por este caminho de sabedoria ancestral… o tempo falando em primeira pessoa, o futuro falando em primeira pessoa. A voz dela carrega bem todas essas qualidades… todas essas caraterísticas.

“Eu sou o tempo” (2016)

“Eu sou o futuro” (2017)

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