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Um Fla x Flu de palavras

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Um Fla x Flu de palavras

Tristes tempos os nossos, nos quais parece não haver mais espaço para a mistura de jornalismo e literatura que Nelson Rodrigues sabia fazer como ninguém


16 de maio de 2018 - 15h49

Crédito: efks/iStock

Fiquei muitos anos sem perder uma edição da Flip – Festa Literária de Paraty. Durante dez anos, até me mudar para os Estados Unidos, me deliciei com as palestras, painéis de debate e poli o vocabulário no evento anual, que, para quem ama literatura, é quase como estar no céu, cercado por grandes textos e escritores.

O homenageado de uma das melhores edições da Flip, já há muitos anos, foi Gilberto Freyre, nosso original, irrequieto, provocativo e, acima de tudo, genial sociólogo — o homem que melhor pensou e explicou o Brasil. E que fez isso com textos impecáveis, que o colocam entre os maiores escritores que já tivemos. Recordo que um dos painéis do evento, discutiu-se sua obra “Ingleses do Brasil”, que abordava a influência britânica em nossa cultura. Mais do que isso, procurava mostrar como um povo com tamanha tradição colonizadora muitas vezes se permitiu reinterpretar seus próprios valores e tradições à luz do que encontrava nos trópicos. E, entre os legados dos ingleses para nós — e, mais tarde, de nós para eles — está, evidentemente, o futebol. Qualquer um que tenha tido a oportunidade de conviver com um tio ou um avô fã do velho esporte bretão, sabe reconhecer a origem de palavras hoje corriqueiras como córner e beque, mas também de outras que vão se esvanecendo com o passar das gerações, como centrefór, centeralf, alf e quíper. Essas palavras deixam clara a influência britânica sobre o futebol do Brasil e do resto do mundo. Inventado por eles, o esporte que amamos e reinventamos chegou aqui com goalkeepers, backs, center-halfs, centre-forwards, halfs e wings, esquerdos ou direitos. Na Argentina, até hoje o árbitro é chamado de referi (referee) e o impedimento de orsai (offside). Coisas da linguagem, mas, acima de tudo, coisas que mostram o quanto o mundo se move através da mistura de influências.

O reverso desse jogo de espelhos de colonizadores e colonizados é a maneira pela qual os ingleses passaram a chamar um chute desferido de um ângulo impossível, depois que Ronaldinho Gaúcho deixou boquiaberto o goleiro (quíper) Seaman — e o resto do mundo — ao cobrar aquela falta (foul) nas quartas de final da Copa do Mundo de 2002. “To do a Ronaldinho” (fazer um Ronaldinho), é a expressão que muitos súditos da rainha usam, desde então, para tentar explicar um chute inexplicável. Parêntesis: ainda no mundo das palavras e expressões do futebol, ninguém soube me explicar ainda por que diabos chamamos de “chilena” uma jogada que nem os chilenos chamam dessa maneira…

Vez por outra, um amigo brasileiro que vai viver num país estrangeiro, como eu vivi na Argentina, vem me pedir dicas de como se adaptar à outra realidade. “Vá a um jogo de futebol!” — aconselho na hora. Gilberto Freyre se servia de qualquer coisa para entender o comportamento social: anúncios de jornal, correspondência consular, bulas de remédios, garrafadas caseiras, canções populares e assim por diante. Ele também soube enxergar no futebol a grande metáfora do nosso país mestiço, sim, graças a Deus. E, indiscutivelmente influenciado pelo brilhante sociólogo, Mário Filho deu forma ao seu “O Negro no Futebol Brasileiro”, livro que resgatou e deu a verdadeira dimensão ao papel do negro no esporte que nos apaixona. Da mesma maneira que antes de Gilberto Freyre a miscigenação era apontada por muitos como a principal causa do nosso atraso, antes do livro de Mário Filho não era difícil ouvirmos frases como esta: “Perdemos a Copa de 1950 porque Barbosa e Bigode (ambos negros) falharam no segundo gol do Uruguai”. O sociólogo mostrou que a mistura de raças forjou um país melhor, enquanto o jornalista, bebendo na fonte do mestre, colocou no papel o que o mulato Garricha e o negro Pelé provaram ao mundo com a conquista das copas de 1958 e 1962. É por isso que, de certa maneira, “O Negro no Futebol Brasileiro” é o nosso “Casa-Grande & Senzala” de chuteiras.

O rubro-negro Mário Filho era, dessa forma, uma espécie de sociólogo do futebol. Um estudioso. Alguém que entendeu que o esporte que nos foi legado pelos ingleses também poderia ser uma maneira — uma deliciosa maneira — de compreendermos melhor o mundo que nos cerca. Seu irmão tricolor, Nelson Rodrigues, era abissalmente diferente. Ele era um cronista e um dramaturgo. O ofício do cronista esportivo é deveras interessante. O nome da ocupação já prenuncia um desafiador rosário de ambiguidades: se por um lado nossa matéria prima é o esporte, por outro a forma pela qual nos expressamos é a crônica. E, como diria o velho poeta, entre a literatura e o esporte, balançam nossos corações. O meu pelo menos, balança inquietantemente.

Tristes tempos os nossos, nos quais parece não haver mais espaço para a mistura de jornalismo e literatura que Nelson Rodrigues sabia fazer como ninguém. Que outro apaixonado pelo futebol foi também tão formidável escritor? Não recordo nenhum que possa ser comparado ao gênio da Aldeia Campista. Dizem que Nelson não entendia patavina de futebol, o que é uma injustiça, já que ele foi o arauto da qualidade daquela que viria a ser a grande Seleção Brasileira das copas de 58 e 62 e ainda por cima outorgou o título de rei a Pelé. É verdade que o grande dramaturgo enxergava mal de longe, o que o obrigava a recorrer à visão de Armando Nogueira: “E então, Armando, o que foi que nós achamos do jogo?” — costumava perguntar, antes da mitológica mesa redonda Facit. Não obstante essa limitação ocular, Nelson enxergava o esporte com o coração, o que vale mais do que a fria análise tática. O esporte é uma atividade humana e, como tal, é compreendido melhor por aqueles que, como os escritores, conhecem os mais profundos segredos da alma. Com opiniões fortes e hipérboles delirantes, ninguém soube expressar tão bem a essência de um embate esportivo do que o autor de “Vestido de Noiva”.

É claro que os melhores textos de Nelson nasceram do amor pelo Fluminense, como um sobre o título estadual de 63, onde observou o movimento das bandeiras tricolores e concluiu que “se um turista estrangeiro passasse pelo Maracanã naquela tarde anotaria em seu caderninho de viagem: ‘começou a nova Revolução Francesa!’”. Ele também pregava a burrice do videoteipe quando este invalidava os gols do seu time, e alçou à condição de gênios jogadores medíocres como Parraro. Mas, apesar de tricolor doente, o generoso Nelson foi capaz de produzir os melhores textos sobre o Flamengo. Lembro-me de um que consolidou a mística da camisa rubro-negra. Ele garantia que, no futuro, bastaria ao clube da Gávea hastear sua camisa no travessão para que os adversários tremessem diante do gol vazio, convertido então numa “bastilha inexpugnável”.

Além da sagração de Pelé como rei, Nelson demoliu o “complexo de vira-lata” do brasileiro, negou-se a admitir a decadência futebolística de Garrincha ou a fazer concessões a uma pretensa superioridade de qualquer povo em relação ao nosso quando o assunto era futebol. Futebol ou qualquer outro, aliás. Jamais viajou para o exterior, sentia uma terrível nostalgia do país já quando atravessava o túnel Rebouças e foi tão patriota que acabou rotulado de reacionário. A história lhe fez justiça e hoje, para seu desespero póstumo, ele, que odiava as unanimidades, se tornou uma delas.

Mário usou o futebol para explicar o mundo ao seu redor. Inventou a imprensa esportiva e foi um gigante. Nelson usou o futebol para expor o ser humano “em todo o seu patético esplendor”. Transformou a crônica esportiva em literatura universal — e foi o maior de todos.

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