Sobre o assédio do tempo

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Sobre o assédio do tempo

Desperdiçar o seu tempo é o mesmo que suicidar-se lentamente


4 de junho de 2018 - 15h03

Crédito: bernie_photo/iStock

Você dura cerca de 77 voltas no Sol. Esta é a longevidade média de um brasileiro. E a cada volta no sol, um punhado de areia da ampulheta do tempo da sua vida vai embora. A partir de agora, imagine-se com essa ampulheta pairando sobre sua cabeça e vertendo areia sem parar. Cada grão dessa areia representa um segundo a menos da sua existência.

Se há uma forma de definir a vida é por meio do tempo. E desperdiçá-lo é suicidar-se lentamente. O tempo é a coisa mais valiosa que temos. Você pode reparar sua saúde, suas finanças ou suas relações, mas o tempo é o único recurso irrecuperável. Mesmo assim, parece que nos esquecemos do valor do nosso tempo e do tempo dos outros. E isso nos faz sofrer e praticar um tipo de assédio típico da vida contemporânea: o assédio do tempo.

Com a revolução da velocidade que vivemos desde a era industrial, a impressão que fica é que as pessoas estão cada vez mais letárgicas em relação ao valor do tempo. Sofremos de apatia temporal, uma total falta de consideração com o nosso tempo e com o do outro. Nós nos assediamos temporalmente todos os dias, sem nem mesmo nos dar conta. Quando um cliente demanda um trabalho para sua agência sem um prazo mínimo exequível e acaba tomando noites ou finais de semana das pessoas, isso é um assédio de tempo. Por outro lado, quando a agência tem o tempo necessário para o trabalho, mas usa apenas os últimos dias em sua execução por falta de gestão, é ela quem assedia o tempo do cliente. Atrasos em compromissos, projetos sem cronograma, reuniões sem pauta, falta de brief, ficar com os olhos no celular durante uma apresentação ou pedir um papo de “cinco minutinhos” e levar 40 são também exemplos de pequenos assédios de tempo cotidiano. E apesar disso tudo parecer normal em nosso dia a dia, muita coisa séria acaba ficando sem areia na ampulheta: os filhos, as relações pessoais, o cuidado com a saúde e a mente, por exemplo. Gastamos a areia do outro sem a menor preocupação nem respeito. E acabamos desperdiçando a nossa.

Vivemos num mundo acelerado que criou novas expectativas sobre o nosso ritmo. A cada ano, temos de nos tornar versões mais rápidas de nós mesmos, assim como um novo modelo de celular. O problema é que a sensação temporal impacta diretamente as nossas relações, nossa capacidade criativa e nossa tomada de decisões. O efeito de estarmos expostos a uma vida em alta velocidade é o da frustração de uma vida não vivida. Certa vez, sentada de cavalinho nos meus ombros, minha filha Maria pediu para ficarmos um pouco mais contemplando um rio. Foram dois minutos de silêncio, ouvindo a natureza. Talvez a experiência mais singela e deliciosa que tive com ela. Mas, provavelmente, sem consciência temporal, eu não teria desfrutado com tanta riqueza esse momento que não voltará mais.

Como você gastou a sua areia ontem? Ela foi usada de forma produtiva, em algo que te deixou mais realizado ou feliz? Ou foi aplicada em tarefas sem sentido, que nem mesmo foram planejadas por você? Valeu a pena gastar um tanto da sua areia com o dia de ontem?

Saber onde colocar cada grão da sua areia é o retrato das suas prioridades. E à medida que sua consciência temporal cresce, você aumenta o critério sobre onde pôr ou não a sua areia. Hoje, fico muito mais agradecido quando alguém aceita estar comigo, pois entendo que a pessoa decidiu gastar sua areia (seu tempo) em nossa relação.

Agradeço cada grão de areia que você me deu ao ler esse texto. E termino compartilhando uma pergunta que tenho me feito com frequência: o que você pretende fazer com o tempo que te resta?

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