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Meus dez mandamentos

Separar o pessoal do profissional é fundamental para um julgamento isento no trabalho — o que não é fácil quando se lida com algo tão apaixonante quanto o futebol


12 de junho de 2018 - 15h22

Filme da Coca-Cola para a Copa do Mundo (Crédito: divulgação)

No dia 9 de junho de 2006 eu estava na Allianz Arena em Munique para a partida de abertura da Copa do Mundo da Alemanha. Depois de trabalhar por mais de três anos desenvolvendo a campanha global da Coca-Cola, o evento finalmente iria começar.

A partida de abertura era entre a dona da casa e a Costa Rica. Eu, como a maioria dos brasileiros, era Costa Rica desde criança. Seria ótimo começar a Copa com uma zebra daquelas, vendo a Alemanha perder em casa.

Eu esperava a chegada de Neville Isdell, o então CEO da empresa, na entrada do camarote VIP da Fifa. Lá dentro, estavam as pessoas que mandavam no futebol mundial, a maioria dos CEOs dos patrocinadores, ex-jogadores e muitos amigos dos amigos.

Quando Mr. Isdell chegou, sempre muito amável e educado com todos, recebeu rapidamente um briefing do que encontraria no camarote. Antes de entrar, perguntou: Quem ganha hoje? Sem titubear, respondi: Costa Rica, claro!

Imediatamente percebi que a resposta não caíra bem e, por um instante, achei que ele tinha alguma ascendência alemã.

Somos patrocinadores de ambas as seleções e temos de apoiá-las igualmente, ele disse. Não importa quem ganhe, a comemoração será com muitas Coca-Colas.

Nesse momento caiu a ficha. Eu não estava lá como torcedor e minhas preferências futebolísticas, além de irrelevantes, deveriam ficar só para mim mesmo. Como executivo, deveria torcer pelo negócio e não pelos times.

Esse foi um erro básico, mas a lição que aprendi aquele dia me ajuda até hoje. Separar o pessoal do profissional é fundamental para um julgamento isento no trabalho. Algumas vezes isto não é fácil. Ainda mais quando trabalhamos com algo tão apaixonante quanto o futebol.

Quando você estiver lendo este artigo, eu estarei trabalhando na Rússia. Todos os 35 dias que passarei por lá, lembrarei da lição que aprendi com meu ex-CEO: os interesses da empresa sempre devem vir antes das preferências pessoais.

Fazer parte de um projeto como Copa do Mundo é um privilégio. Mas para ter sucesso e atingir os resultados de negócio esperados, não basta trabalhar duro; é preciso seguir algumas regras. Estes são os meus dez mandamentos para ter sucesso trabalhando nos eventos esportivos:

1. Não interagirás com o telão: se estiver a trabalho no jogo, nada de fazer dancinha ou coreografias. Se a câmera do beijo aparecer, foque no celular.

2. Não usarás o uniforme do seu time: ver futebol de terno e gravata não é fácil, mas na maioria das vezes é necessário. Muitas reuniões acontecem nos estádios antes e depois das partidas. Lembre-se que você representa a sua empresa.

3. Não pintaras o rosto: você não pinta o rosto no escritório, certo? Não estou falando de maquiagem. Então, por que pintaria em um jogo onde você está trabalhando?

4. Não pedirás autógrafos nem tirarás selfies: provavelmente uma das regras mais difíceis de resistir nestes tempos de mídias sociais. Como contratamos muitos atletas, melhor não entregar que você é seu fã. Depois, como você vai negociar aquele contrato com dignidade?

5. Não farás a “Hola”: evite manifestações de torcedor quando você estiver a trabalho. A regra vale também para as palmas coreográficas da torcida da Islândia.

6. Não consumirás álcool na área VIP: beber no trabalho é o caminho mais rápido para passar vergonha, ainda mais na área VIP. Na dúvida, vá de Coca-Cola.

7. Não desrespeitarás os outros patrocinadores: respeite para ser respeitado. Em um evento patrocinado pela Adidas, evite a concorrência no seu uniforme.

8. Não farás previsões de placar: não caia na armadilha que eu caí. Resista à tentação e diga que, para o bem de sua empresa, prefere que o país que tem o maior impacto no seu negócio ganhe.

9. Não tratarás o trabalho do escritório com descaso: o trabalho do escritório não termina porque você está em um evento. Entre reuniões e durante jogos, sempre há tempo para telefonemas e e-mails.

10. Não distribuirás ingressos para os amigos: imoral e ilegal segundo o código de conduta das empresas patrocinadoras. Nesse caso, é melhor perder o amigo que o emprego.

O terno e a gravata já estão preparados. A camisa e a bandeira do Brasil, que serão devidamente escondidas, também. Afinal, ainda não há nenhuma regra que proíba torcer em silêncio, mesmo quando estamos trabalhando. Boa Copa para todos nós.

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