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A loucura das galinhas de granja

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A loucura das galinhas de granja

Há absurdos que se fossem ditos em outro ambiente diferente de uma agência de publicidade, provavelmente, teriam consequências como intervenção ou internação compulsória


2 de agosto de 2018 - 13h25

Eu sou verdadeiramente apaixonado por publicidade. Me sinto privilegiado por trabalhar com algo que gosto tanto. E a profissão me permitiu realizar sonhos que pareciam impossíveis. Mas o melhor que a publicidade me ofereceu, e oferece, é a oportunidade de conhecer pessoas interessantíssimas. E pessoas interessantíssimas eventualmente proporcionam episódios engraçados e inesquecíveis.

Trabalhei em uma agência onde tinha uma moça pra lá de exótica. Ela era muito magra, muito branca e possuía grandes olhos que lhe imputavam a aparência de alguém permanentemente assustado. Era uma moça bonita, mas definitivamente não era alguém com quem você gostaria de cruzar à noite na calçada de um cemitério.

Certa vez, eu estava conversando com um colega quando essa moça veio caminhando em nossa direção com um longo vestido branco esvoaçante. O colega ao meu lado, então, pergunta baixinho: “você também está vendo ela, não é?” Respondi que sim e ele suspirou aliviado com a mão no peito.

Em outra agência, eu estava conversando com o meu diretor de criação, um gênio consumado, próximo ao horário de almoço, quando passa por nós um colega que se encontrava bastante acima do peso, segurando uma raquete de tênis dentro de um case. Imediatamente meu diretor de criação, ainda olhando para o case, comenta: “suspeito que seja uma colher”.

Um amigo casado há muito tempo, decide se separar, aluga um apartamento e faz a mudança. A tristeza do divórcio não termina e, então, ele decide voltar para a esposa e o antigo apartamento. Vira o homem mais feliz do mundo. Passa um tempo, e nova mudança de apartamento e de temperamento. Mais alguns meses e ele volta para a esposa e a sorrir. E assim a vida segue, com uma enorme sucessão de mudanças de endereço, de humor e de estado civil. Um dia, esse amigo chega na agência com aquela tristeza atroz já bastante conhecida. Um colega então toma coragem e diz o que todos tinham vontade de dizer: “Francisco, está na hora de você reconhecer que essa separação não deu certo”.

Mas o mais divertido na agência não são as piadas elaboradas. São as piadas não elaboradas. Absurdos que se fossem ditos em outro ambiente diferente de uma agência de publicidade, provavelmente, teriam consequências como intervenção ou internação compulsória.

Na W/Brasil, Rui Branquinho colocava um post-it na parede atrás de sua mesa toda vez que alguém falava uma frase, digamos, curiosa. Eu era dono de algumas dessas frases. Fabio Meneghini, Guime Davidson e Gustavo Soares, donos de outras tantas.

Decidi trazer a tradição para a Heads, quando nossa montadora, minha amiga, Luciana Nunes, soltou a seguinte pérola: “você sabe que essas galinhas de granja são todas loucas, né?”

Perceba que a frase não é: “as galinhas de granja são todas loucas”. A frase é: “você sabe que essas galinhas de granja são todas loucas, né?” Ou seja, Luciana parte do princípio que se trata de uma verdade universal. Algo que naturalmente está todo mundo careca de saber.

Você pode estar se perguntando em que universo semântico tal pergunta é cabível. Ou seja, você pode estar se perguntando: “o que esses caras deveriam estar conversando para soltarem essa pergunta?”

Meu amigo, minha amiga, a criação de uma agência de publicidade não é território para amadores. Não queira buscar lógica e sensatez na loucura das galinhas de granja. Não queira buscar lógica no cérebro de Luciana Nunes.

Como toda pessoa extraordinária, Luciana vive em um filme de Tim Burton. Só o corpo vaga sobre a Terra. Ela me confessou, inclusive, que um dia um amigo lhe fez a seguinte pergunta: “como você conseguiu fugir do Sítio do Pica Pau Amarelo para viver aqui com a gente?”

É o convívio com Lucianas, Ruis, Fabios e Guimes que me fazem ir para agência com sorriso no rosto mesmo nos momentos mais difíceis.

Dedico esse texto a um dos melhores redatores de todos os tempos e o mais genial frasista que conheci na vida: meu amigo, Sir Ercílio Tranjan.

*Crédito da foto no topo: RawPixel/Pexels

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