Na hora e na lata?

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Na hora e na lata?

Não saber tudo abre espaço para saber mais. Em momentos como esses, em que o autoritarismo, a opinião radical e a falta de espaço para discussões sem que acabem em ódio tomaram conta de nossas vidas, saber ouvir me parece ainda mais fundamental


22 de outubro de 2018 - 18h51

A coisa mais difícil quando você está em uma posição de liderança é que todos acham que você tem de ter opinião sobre tudo. Bom, eu não tenho. E isso me dá uma sensação de alívio da qual eu preciso. Eu já acho que falo muito mais do que escuto. E acho isso péssimo, já que ouvir me dá a chance de saber mais.

Crédito: Rodolfo Clix/Pexels

No início da profissão uma redatora, que viria a ser uma grande amiga até hoje, me causava profunda inveja. Ela conseguia responder na lata, na hora, a quaisquer provocações ou perguntas. E do mesmo modo que respondia, ela também perguntava e provocava. Era aí que eu me lascava. Levei para a terapeuta. Estava arrasada que só conseguia pensar em uma resposta boa depois de umas três horas. Não vinha na hora nem na lata. E na minha opinião aquilo fazia de mim uma bobona.

Mas um dia aconteceu: ela me perguntou alguma coisa e eu pá, respondi na lata e na hora. E aí ela pá, pá, pá e pá. E mais uma vez precisei de três horas para responder algo que eu julgasse minimamente inteligente. Segui na terapia, onde falamos sobre o ser e o parecer. Sobre a bicicleta e o trator. “Joanna, se acharem que você é um trator vão chegar como um trator para enfrentar você. E quando descobrirem que você é uma bicicleta será tarde demais, e o trator vai te atropelar sem dó.”

Gosto da liderança que tem espaço para dúvidas. Tem de haver espaço para ouvir quem você contrata. Se a opinião de quem você colocou na equipe não importa, lo siento, você contratou mal

Descobrir que eu era uma bicicleta àquela altura do campeonato foi uma derrota. Mas foi o que me trouxe até aqui. Para mim, não saber tudo abre espaço para saber mais. Em momentos como esses, em que o autoritarismo, a opinião radical e a falta de espaço para discussões sem que acabem em ódio tomaram conta de nossas vidas, saber ouvir me parece ainda mais fundamental.

Gosto da liderança que tem espaço para dúvidas. Tem de haver espaço para ouvir quem você contrata. Se a opinião de quem você colocou na equipe não importa, lo siento, você contratou mal. Não gosto da velha liderança amedrontada, que quer pessoas piores para que os líderes possam se sentir inteligentes.

Já vi trabalhos regulares ficarem bons e trabalhos bons ficarem ótimos quando aceitaram outros olhares e opiniões. Todos ganham. Infelizmente também já vi o contrário: gente que aceita o mediano só para não dividir o excelente. E, como se o “eu não sei” já não fosse difícil para tantos chefes, na era digital também tem gente com pavor do “não, eu não vi”. “Como assim não viu? Todo mundo viu!!!” Pois é, uma liderança também não vê tudo. E que bom. Assim a equipe ou os colegas vão poder mostrar.

Cada vez mais fica claro para mim que liderar não passa só por ensinar. Passa muito por aprender. Hoje acho três horas muito pouco para dar uma resposta. E realmente acho que a liderança que não tem dúvidas inspira menos porque é menos humana. Bobão hoje é quem teima em saber tudo num mundo que mostra em muitas telas que a gente não sabe quase nada.

No mais, minha amiga segue brilhante. Segue rápida no gatilho nas perguntas e nas respostas. Ela é assim. Sem esforço. Ela segue um trator adorável e eu uma bicicleta. Ok, uma bicicleta elétrica.

Crédito da foto do topo: kmlmtz66/iStock

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