A complexidade necessária

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A complexidade necessária

O encontro entre a percepção de uma corrupção sistêmica, a desconfiança e o medo amplia a insegurança, a fricção e o risco do reforço de posições populistas e autoritárias, por Ana Cortat


7 de dezembro de 2018 - 14h02

Crédito: iStock/Nihatdursun

Cada vez mais uma visão monolítica e definitiva do mundo está sendo substituída por realidades em camadas, gerando a existência consciente de ambiguidades, antagonismos e conflitos. Um mundo de realidades sobrepostas onde a simplificação e o reducionismo podem nos levar a resultados inconsistentes.

Pós eleições presidenciais de 2018 nos perguntamos: por que as pesquisas erraram tanto? Arrisco-me a dizer que elas não erraram, apenas fizeram a escolha de trabalhar com um conjunto limitado de variáveis e repetiram fórmulas de análise baseadas em experiências anteriores não aplicáveis à realidade atual.

Em 1956, o especialista em cibernética W. Ross Ashby criou a “lei da complexidade necessária”, que estabelece que um “sistema de controle tem de ser pelo menos tão complexo quanto o sistema a ser controlado; se não for, o fosso de complexidade entre os dois não irá conduzir ao melhor resultado”. No recente processo eleitoral, este parece ter sido o problema: a existência de um fosso entre a complexidade da análise e o sistema analisado.

Não havendo mais nada a ser discutido sobre a questão eleitoral, o objetivo deste artigo é colocar luz sobre o valor das análises complexas e a importância de buscarmos mais dimensões, não a respeito de intenções objetivas de voto ou de compra — frações do comportamento humano —, mas a respeito dos fatores que podem nos ajudar, como indivíduos, políticos e corporações, a entender nosso papel na construção de novas narrativas, na redução da polarização e no restabelecimento de nosso sistema de confiança.

A realidade que estamos vivendo agora não é surpreendente, foi construída no tempo e continuaria existindo fosse qual fosse o resultado das urnas. Sugiro observá-la a partir de três dimensões: o crash do sistema de confiança; a crise econômica e o crescimento das taxas de desemprego, inflação e percepção da corrupção; e o crescimento do conservadorismo.

Diferentes fontes podem ser consultadas sobre o crash da confiança, sugiro o Trust Barometer, da Edelman, que há 18 anos é feito com o objetivo de entender os fatores que constroem ou fragilizam as relações de confiança que estabelecemos com os governos, mídia, corporações e ongs. Na última década, o estudo vem apontando para a fragilização dessas relações e para o surgimento de uma crise perigosa, estimulada, inclusive, por conquistas tecnológicas que nos tornaram capazes de “rackear” sistemas e revelar o que é verdade ao mesmo tempo que nos tornaram capazes de construir e legitimar mentiras. Neste momento, 62% das pessoas acreditam que nosso sistema de confiança entrou em colapso. No Brasil, estamos 6,5 vezes mais propensos a ignorar informações que suportam posições contrárias àquelas nas quais acreditamos originalmente.

Os números divulgados na última década deixaram claro que estávamos perdendo o jogo no campo das relações humanas. Junto com a desconfiança, vimos prevalecer o medo de que as realidades que estão se tornando visíveis nos levassem a lugares piores do que os que já conhecíamos. Sem confiança, a dissonância que nasce do encontro do nosso desejo de recriar o mundo com a nossa natural busca por segurança tinha grande potencial de se transformar em confronto, de fazer crescer ainda mais o medo e de tentar se resolver na busca pelo conservadorismo, alimentando o crescimento do populismo e do extremismo.

É neste cenário de desconfiança, medo e insegurança que o brasileiro tem acompanhado o crescimento do desemprego, a queda do PIB e o crescimento da inflação enquanto vê serem revelados cada vez mais escândalos de corrupção envolvendo quem nos governa, quem nos protege, quem nos emprega. Em 2017, Fernando Scheller informou no Estadão que, em três anos, as principais empresas envolvidas na Lava Jato demitiram 600 mil pessoas, “5% de 11,2 milhões, o total de pessoas que entraram na fila do desemprego entre 2013”. O encontro entre a percepção de uma corrupção sistêmica, a desconfiança e o medo amplia a insegurança, a fricção e o risco do reforço de posições populistas e autoritárias.

Em 2010, 2016 e 2018, o Ibope Inteligência analisou o “Índice de Conservadorismo Brasileiro”. Sua premissa foi classificar a população brasileira dentro de um espectro de variação da concordância com cinco pautas: legalização do aborto, pena de morte, redução da maioridade penal, casamento entre homossexuais e prisão perpétua para crimes hediondos. O resultado apontou um crescimento no “alto grau de conservadorismo” de 49% para 55% de 2010 para 2018. Neste mesmo período, índice de favoráveis à redução da maioridade penal cresceu de 63% para 73% e o apoio à pena de morte pulou de 31% para 50%.

Um importante aprendizado é o “valor dos pequenos números”, aqueles que nos mantêm atentos a potenciais ambiguidades e contradições. No estudo divulgado pelo Ibope, por exemplo, o outro lado dos 61% que concordam que casais do mesmo sexo podem adotar e criar filhos tão bem quanto um casal formado por um homem e uma mulher são os 35% que discordam, um número suficiente de pessoas capaz de influenciar o destino de uma sociedade, de uma marca, de um político, de um país.

Encerro citando Micael Lissack, editor-in-chief of Emergence: A Journal of Complexity Issues in Organizations, em seu artigo “The Oft-Overlooked Dangers of Simplification”: “A complexidade do mundo em que operamos pode ameaçar nossa noção de coerência e nos tornar incapazes de encontrar respostas em que possamos acreditar.” Uma afirmação que complemento com a convicção de que a complexidade não é um problema é um fato com o qual precisamos lidar revisando modelos de diagnóstico e recusando reducionismos. Simples assim.

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