“Propaganda brasileira vive o Second
Life”
Confira a entrevista completa com os sócios diretores da
AlmapBBDO, José Luiz Madeira e Marcello Serpa, na qual ambos comentam sobre
diversos assuntos, entre os quais o atual momento da criação nacional, concorrências
e as propostas de restrições de propaganda de bebidas alcoólicas.
Regina Augusto

José Luiz Madeira – A Almap tem sido, nos últimos 14 anos, uma agência
cheia de idéias. Mudamos para ficar no mesmo lugar que é na ponta. Eu trabalhei
seis anos na Standard Ogilvy & Mather e esse negócio de 360 graus foi
inventado há muito tempo pelo David Ogilvy, há 20 anos era inovação. Hoje é
obrigação. A Almap começou trabalhando para cinco mídias (TV, rádio, jornal,
revista e outdoor). Mas, em 1994, fizemos o primeiro “Zeppelin” voar para a
Pepsi, em um momento no qual a marca precisava se diferenciar para concorrer
com a Coca-Cola. Ou seja, fazemos comunicação integrada desde a reinauguração
desta agência, em 1993. A diferença é que hoje existem 300 possibilidades
diferentes além daquelas cinco de antes. O fato é que nós publicitários somos
mestres – e alguns vão além da conta – de falar a mesma coisa com outras
palavras.
Marcello Serpa – Essa é a diferença. Nós trabalhamos mais e
discursamos menos. Às vezes se cria uma falsa percepção no mercado onde todo
mundo, no discurso, diz que está fazendo um monte de coisas, mas não entrega
direito. Toda hora tem alguém abrindo uma empresa nova. Somos agência de idéias
e de trabalho. O que desenvolvemos para a Havaianas, por exemplo, é totalmente
comunicação integrada, um case de absoluto sucesso para uma marca que hoje é global.
Fazemos 360 graus no mundo inteiro para a Havaianas. De janeiro até agora, nós
criamos seis campanhas para exportar para a marca, mais quatro só para o
Brasil. Essa é a nossa vocação. Quem tem que aparecer aqui são os clientes, não
somos nós. E eles, graças a Deus, têm aparecido bem.
M&M - Em Internet vocês chegaram a montar uma empresa
dentro da Almap nesta área no passado.
Serpa – Chegamos a montar uma empresa de internet em 1995/96, a No Media que
depois virou On Media. Depois veio a bolha e revimos o modelo. A internet foi
crescendo e se tornou uma opção além das cinco básicas. Percebemos que não
fazia mais sentido manter uma empresa em separado, mas sim desenvolver um
conteúdo diferenciado que deve ser pensado desde o nascimento de uma idéia, e
não atualizado depois que o conceito já foi criado. Hoje existem 35 pessoas
dedicadas exclusivamente a essa mídia aqui dentro. Um exemplo desse trabalho é
o que foi feito para a Antarctica, um case de relacionamento, um site da
campanha dos bebedores oficiais de Antarctica, no qual era necessário chamar as
pessoas para participar deste clube. Foi feito um site que tinha hino, estatuto,
carteirinha, camiseta e uma lojinha. A pessoa entrava nele, colocava uma foto e
imprimia a carteirinha. Foram feitas 120 mil carteirinhas, com nome, endereço,
telefone, foto, uma base cadastral dessas pessoas nas classes C e D, que
ninguém tem.
M&M – Com o crescimento das diversas formas de projetos
executados pela agência a questão do preço e da remuneração se tornou mais
complexa. Como vocês lidam com isso?
Madeira – Esse é um assunto polêmico, ruim de conversar no
mundo inteiro. As agências estão quebrando por causa de um modelo que está
sendo questionado em todos os lugares. Graças a Deus estamos em um country
comission. Isso é um aprendizado de todos os dias. A publicidade é o core
business aqui. Vivemos da composição de dois tipos de receitas – a vinda das comissões
e a dos projetos especiais. É muito difícil cobrar isso, mas quando oferecemos
uma idéia para o cliente e ele se convence de que aquilo irá fazer a diferença
fica mais fácil. Por isso que há dez anos nós abolimos o briefing aqui. Nós
geramos o que fazer com ele. Para nós remuneração é conseqüência apenas.
M&M – Recentemente publicamos o resultado de uma pesquisa
que diz que as agências dedicam 25% do seu tempo às
concorrências e a Almap tem por princípio não participar deste tipo de seleção.
Madeira - Não
damos o que vendemos. Nós dependemos de idéias para viver, se vendemos nossas
idéias vamos morrer. Vendemos cada vez mais caro porque quando vendemos barato,
nos arrependemos depois. Até aqui deu para nos manter desse jeito. Lutamos para
não ter de voltar atrás. Há dez anos temos conseguido nos manter fiel a essa
decisão. Não sabemos o dia de amanhã. Até aqui a agência tem sido procurada. E,
quando você é procurado, você cobra o seu preço. A nossa matéria-prima é
perecível, é o tempo. E temos de usá-lo de uma maneira inteligente. O último
processo pelo qual passamos, que não foi concorrência, foi com o Carrefour. Nunca
tínhamos atendido varejo porque achávamos que um cliente desse setor seria ruim
para a Almap. O Ricardo Lacerda (diretor
de marketing da rede varejista) nos procurou e queria que fizéssemos uma
proposta de trabalho para atender a empresa. Demoramos um mês para dar a
resposta, e acabamos fazendo uma proposta a ele – não apresentamos campanha.
Eles aceitaram e desde então a comunicação do Carrefour alcançou níveis de
satisfação e resultados nunca antes experimentados pela empresa.
Serpa - Normalmente, chegamos até a apresentação de credenciais apenas,
porque muitas vezes a concorrência serve apenas para validar um processo
interno do cliente, mas a decisão é tomada anteriormente.
Madeira – Somos ruins de relações públicas; não
atendemos conta de governo – todo mundo sabe que se você se relaciona com a
política consegue também contas da iniciativa privada. Está aí o Sr. Duda
Mendonça para confirmar. É um absurdo o que esse cara fez e continua aí. Ele
deveria ser banido da propaganda brasileira. É um mau exemplo; não participamos
de concorrências; e conseguimos construir uma das carteiras de clientes mais
invejáveis do mercado. Ou seja, estamos no caminho certo. O desafio é continuar
nesta posição a que chegamos.
M&M – A Almap construiu boa parte de sua
percepção criativa com base em uma participação intensa em premiações. Este
ano, a agência diminui em 80% as inscrições no Festival de Cannes. No ano
passado, foi a agência que mais inscreveu peças (278) e voltou para cá com
apenas dois Leões. Essa diminuição reflete uma queda na qualidade criativa do
trabalho da agência?
Serpa – A Almap tem ganhado muita coisa desde
1996, quando recebemos seis Leões em Cannes. Em 2000, fomos a Agência do Ano em
Cannes; em 2004, a agência mais premiada do Gunn Report, feito repetido no ano
seguinte. Para manter esse patamar alto assim, é necessário inscrever muitas
peças nas diversas categorias de todos os principais prêmios. Ao fazer a conta,
percebe-se que manter a performance criativa que tínhamos ficou completamente
irreal. Quando nós ganhávamos tudo em Cannes, só tinha televisão e mídia
impressa. Agora, só em Cyber tem 20 categorias. Financeiramente, ficou inviável
inscrever-se em todas as categorias. O mundo mudou. Além disso, países que
antes não tinham muita expressão hoje estão se destacando. A Itália, que antes
não fazia nada, ganhou o Grand Prix do Clio. Eu vi recentemente uma peça
maravilhosa do Vietnã – ou seja, países dos quais há algum tempo você não ouvia
falar nas premiações. Quando se fala que o Brasil vai mal, na verdade a questão
é outra, diluiu, mudou o patamar. Quando vi o que ocorreu no ano passado em
Cannes cheguei à conclusão de que estávamos fazendo papel de bobo. Este ano,
mesmo com essa diminuição temos trabalhos relevantes. O que vejo é que as peças
que concorrem a prêmios não são de ponta. Hoje só nós e a F/Nazca fazemos isso.
Na Almap, temos a oportunidade de exercitar o talento criativo em vários
segmentos.
M&M – Qual a sua avaliação sobre o momento
atual da criação brasileira?
Serpa – Acho que a propaganda nacional passa
por um momento muito complexo; ela vive o Second Life. Ela não é real, é
virtual. O momento atual é de ilusão completa. As pessoas estão se iludindo
muito com o trabalho criativo que tem pouca relevância hoje fora de uma sala de
júri. A criação brasileira está gastando toda a energia para falar com jurados
e quase nada para falar com o consumidor. Se você for hoje assistir ao rolo do
Profissionais do Ano, com as peças que
são veiculadas na televisão normal, você toma um susto enorme porque a
qualidade é muito baixa. São pouquíssimas agências colocando um trabalho
interessante no meio de um monte de porcaria, de fórmulas gastas, de filme com
musiquinha, com pedaços de cenas vida, muito pouco esforço em produzir um
trabalho de ponta. Ou a propaganda brasileira volta a trazer sua energia para
falar com o consumidor de uma maneira diferente ou ela vai morrer de inanição,
porque lá fora as coisas estão mudando rapidamente.
M&M – Na sua opinião, a Almap está em um
patamar diferente dessa sua análise?
Serpa – Acho cabotino ficar falando de mim
mesmo, auto-elogio não vale, mas se você olhar o Prêmio Abril de 2006 (a agência ganhou o Grand Prix da última
edição da premiação, realizada na quarta-feira, 30 de maio), oito dentre as
dez finalistas eram peças nossas. No Anuário deste ano, você vai ver trabalhos
para a Volkswagen, Havaianas. O Giba (Gilberto
Reis, diretor executivo do Clube de Criação de São Paulo) me disse que eu
deveria fazer um anúncio com todas as peças premiadas dizendo “isso você já viu
antes, você não ver apenas quando o Anuário sair”!. Essa é uma percepção do mercado sobre o trabalho da Almap, não
sou eu que estou dizendo. Nosso foco é o mesmo para o trabalho que colocamos na
rua e o que colocamos em prêmio.
M&M – Essa visão leva a crer que os trabalhos
inéditos criados para festivais devem diminuir?
Serpa – Não é uma questão de ineditismo. Eu
gostaria que as grandes campanhas brasileiras premiadas nos festivais fossem as
melhores que o País produzisse e não campanhas para restaurante, para academia.
Imagina uma agência do tamanho da Almap e que só ganhasse prêmio com anúncios
para esse tipo de cliente. Algo estaria errado. Temos que ganhar com trabalhos
para Volkswagen, Pepsi, Mizuno, Havaianas. Em geral, trabalhamos com clientes
desse porte. É preciso vencer com as contas grandes. A Argentina está levando
prêmios com campanhas para Coca-Cola, bancos, empresas de telefonia. Não é isso
que está acontecendo hoje aqui. Ou os criativos caem na real - e vai ser uma
queda dolorosa, porque haverá menos coisas premiadas, mas que serão factíveis -
ou vai cada um lavar suas mãos e continuar tudo como está.
M&M – Você, Marcello, e a Almap são,
respectivamente, uns dos profissionais e agência brasileira, mais premiados do
Brasil da última década. Você alimentou muito essa questão da premiação...
Serpa – ...assim como o Washington (Olivetto) alimentou, como o Nizan (Guanaes) e o Fábio Fernandes também
alimentaram. Só que o Brasil não está ganhando mais.
M&M – Mas o fato de você adotar esse discurso
agora que o Brasil não vem ganhando mais prêmios como anteriormente não soa um
pouco incoerente? Afinal, todo mundo hoje quer ser como você e sua agência por
causa de uma visibilidade conquistada em grande parte por causa dos prêmios...
Serpa – Eu só quero que a propaganda brasileira
ganhe mais. Para ela recuperar o poder que tinha nos anos 90 e no início desta
década terá de mudar de atitude porque o mundo se transformou e nossas fórmulas
ficaram antigas. A molecada está seguindo uma fórmula que não funciona mais. O
que eu ou o Fabinho fizemos e ganhamos nos anos 90 e início dos anos 2000 já
não era o que o Washington fez e ganhou nos anos 80, e agora essas mudanças são
ainda maiores. Eu não estou dizendo “não façam fantasmas”, mas criar só
fantasmas acaba fazendo com que você não saiba fazer propaganda de verdade. É
claro que eu fiz fantasmas, mas havia também uma outra parte que era muito boa.
Não é hipocrisia o que estou falando - é a realidade. As nossas fórmulas estão
velhas. O que existe hoje é Havaianas, Skol e Claro ganhando prêmios. Cadê o
resto?
M&M – Vivemos atualmente um momento em que o
negócio da publicidade está sendo colocado em xeque por algumas frentes como o Tribunal
de Contas da União (TCU) que está questionando o BV (bonificação por volume); a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde
também querem aumentar as restrições à propaganda de bebidas alcoólicas. Qual
sua opinião sobre isso até porque a Almap tem entre seus clientes a cerveja
Antarctica?
Madeira - Vejo isso com um sentimento de
tristeza. A propaganda não pode carregar nas costas o que algumas entidades
estão querendo imputar a ela. Em um país onde convivemos todos os dias com um
vasto número de problemas, acho meio injusto que a publicidade fique nesta
posição de tanta vulnerabilidade. Eu a vejo como uma ferramenta essencial de
desenvolvimento econômico. A propaganda, direta ou indiretamente, é capaz de
fazer com que as empresas façam produtos e serviços melhores. O mundo vive o
dilema dos exageros. Alguns matam gente e a propaganda está muito longe de
produzir esse efeito. Os fabricantes de bebidas alcoólicas e o Conar tomaram a
iniciativa de se auto-regulamentar e aumentaram as exigências que pautam a
propaganda de bebidas há alguns anos. Eles olham para isso com muita seriedade
e essa atitude mudou o tom de comunicação do setor. Isso é algo louvável de
quem está nesse meio, e você não ouve falar nada a respeito.
Serpa – Em nome de um suposto moralismo, está
nascendo um fundamentalismo que é absolutamente intolerante. Existe a liberdade
de expressão das marcas, elas podem anunciar o que fazem e empresas divulgam aquilo
que produzem. Se é permitida a venda, deve-se permitir também o anúncio disso,
lógico que dentro de algumas regras. Esse fundamentalismo é hipócrita também.
Você tem uma série de coisas que é feita em qualquer país do mundo como
restrição de consumo, tais como controle por meio de bafômetros. Eu tenho 44
anos de idade e nunca fui testado com bafômetro neste país. Ninguém nunca me
parou para fazer um teste de álcool em alguma esquina. A venda de bebidas
alcoólicas na estrada é permitida livremente. Ou seja, uma série de coisas que
faz parte da tarefa do governo, das instituições para restringir, para educar
não é feita e aí a culpa é 100% da propaganda? Acho isso uma injustiça sem
tamanho. Hoje é tudo livre, tudo pode, menos anunciar. A mídia está sendo levada
a cobrar dos publicitários algo que deveria ser cobrado do poder público.
M&M – Qual é seu o maior desafio na gestão de
uma agência como a Almap?
Madeira – É necessário mudar todo dia para
continuar no lugar aonde você chegou. Essa é uma agência que tem um turn over
baixíssimo – seja de clientes ou de pessoas. E o desafio é justamente mantê-la
no patamar que ela conseguiu alcançar. Outro dia uma das minhas filhas me
perguntou: “Pai, por que você ainda trabalha?”. E eu falei: “Porque eu
aprendo”. E existe uma superdiferença entre estudar e aprender. Aprender é
sempre muito prazeroso. Aqui nós temos essa humildade de aprender e gerar algo
que faça a diferença na guerra do dia-a-dia em que tudo é muito igual. Quando
se diz que a propaganda está na berlinda, é preciso mais do que nunca fazer a
diferença via percepção. E como diria David Ogilvy, o importante não é o que
você fala, mas o que as pessoas entendem. Enquanto todo mundo fala de conteúdo,
nós, há três anos, fizemos a reedição do programa Carga Pesada, um case para a
Volkswagen. Não somos agência de conteúdo, somos uma agência de comunicação, um
banco de idéias.