Prestes a completar dez anos, a 180 alcançou visibilidade com o trabalho desenvolvido para seu principal cliente, a Adidas. Após a venda para a Omnicom, agência ganhou novas contas, como Sony, e abriu operação em Los Angeles

No mundo atual, não basta apenas ter uma “big idea” – expressão até um pouco desgastada de tanto que é utilizada. Muito mais importante é como fazer com que esse conceito chegue ao consumidor da melhor forma, garantindo impacto e engajamento. Esse princípio é um dos mantras da 180, agência prestes a completar sua primeira década de existência. No final dos anos 90, três profissionais da Wieden + Kennedy de Amsterdã (Alex Melvin, Chris Mendola e Guy Hayward), que trabalhavam diretamente com a principal conta da agência, a Nike, saíram da empresa para montar seu próprio negócio com um cliente inaugural não menos tentador: a Adidas. Assim nasceu a 180 Amsterdam, em 1o de outubro de 1998.
O nome foi escolhido quando um deles leu, dias antes, uma citação de Francis Ford Copolla falando sobre a importância de se dar meia volta quando se está diante de um problema e como isso pode representar um passo à frente.
O desejo de ver as coisas sob uma perspectiva diferente e fazer com que as idéias pudessem viajar para qualquer lugar e por meio de várias formas foi a proposta inicial da 180, aplicada com afinco no trabalho desenvolvido para a Adidas. Foi a agência que criou o conceito certeiro “Impossible is Nothing” e passou a ganhar cada vez mais espaço dentro da empresa fabricante de artigos esportivos, participando de todas as suas estratégias criativas globais.
Assim como a agência que deu origem à sua formação, a 180 também possui uma equipe bastante globalizada: são 25 países representados por 130 funcionários. “Essa é uma característica de Amsterdã – somos uma cidade internacional, e isso faz com que nossa equipe seja mesmo multifacetada, o que é ótimo para a nossa proposta de entregar a melhor idéia em qualquer disciplina”, diz Andy Fackrell, diretor executivo de criação da 180, ele próprio um neozelandês.
Não há como evitar comparações. Da mesma forma que a 180 tem um ambiente e uma cultura empresarial que lembra muito a agência originária de seus sócios-fundadores, a W+K, o conceito “Impossible is nothing” tem desdobramentos muito parecidos com o “Just do it”, que a agência de Dan Wieden criou há vários anos para a Nike.
Fackrell, que também deixou, em 2003, a W+K de Amsterdã – onde trabalhava para Nike – para ingressar na 180, não perde a oportunidade de dar uma alfineta no seu antigo cliente. “O conceito ‘Impossible is nothing’ é muito mais adequado e envolvente do que o ‘Just do it’; além do mais, a marca tem um apelo
maior”, diz, negando haver qualquer questão pessoal nessa colocação.
A paixão pelo futebol e pela Adidas chama a atenção ao ver e ouvir Fackrell falar sobre o cliente. Afinal, foi a empresa, criada em 1948 na cidade alemã de Herzogenarauch pelo sapateiro Adolf (Adi) Dassler, que deu origem ao que hoje se profissionalizou, tornando-se uma indústria que movimenta bilhões de dólares – o marketing esportivo.
O curioso é que as acirradas disputas por patrocínios de atletas e de seleções, especialmente de futebol, surgiu por um problema familiar. A fábrica de sapatos para atletas, criada ainda nos anos 20, tinha além de Adolf, responsável pela produção, seu irmão Rudolf, que respondia pela parte comercial. Uma história de desentendimentos, ataques e brigas irreversíveis entre ambos culminou na separação dos bens da antiga fábrica. A parte que coube a Rudolf ele batizou na mesma época em que surgiu a Adidas como Puma.
Desde as décadas seguintes e, principalmente, a partir dos anos 70 – quando a Nike foi fundada e entrou no mercado com a agressividade que tornou seu fundador Phil Knight um dos homens mais ricos dos Estados Unidos –, o mercado global de artigos esportivos tem atraído rios de dinheiro e a atenção da mídia. Pelo fato de estarem muito próximas e fazerem parte dos bastidores do esporte mais popular do mundo – o futebol –, Nike e Adidas chamam a atenção por suas estratégias de marketing e contam para isso com agências de ponta do mercado global de publicidade. Em 2002, a empresa norte-americana, líder do mercado global de material esportivo, foi escolhida como Anunciante do Ano no Festival de Cannes de Publicidade. Quatro anos depois, foi a vez da Adidas receber a mesma honraria.
Não é por acaso que estamos falando de anos de Copa do Mundo. Ainda em 2006, não bastasse o prêmio, a Adidas foi mais longe. Além de o maior evento esportivo do mundo acontecer em seu país de origem, a concorrente Nike não conseguiu emplacar seu conceito “Joga bonito”. A marca chegou à Copa patrocinando algumas seleções importantes, como Brasil e Portugal, que não chegaram às finais. A Adidas, por sua vez, teve mais sucesso com o seu conceito “+10”, que aposta na coletividade, e conseguiu chegar à final, após ter vencido o time mais temido da Copa, o Brasil da Nike, em uma partida que foi, na realidade, “Zidane + 10”. Além disso, marcou um golaço no design de suas camisas e das bolas que tinham a inscrição “Teamgeist” (Espírito de Equipe). Para a festa ficar em família, a Puma, patrocinadora da Itália, foi quem riu por último e melhor.
Em 2002, a 180 firmou parceria com a TBWA para que a rede pertencente ao poderoso Grupo Omnicom veiculasse mundialmente suas campanhas criadas para o principal cliente por meio das operações espalhadas internacionalmente. Tal entrosamento evoluiu e levou à compra da agência pela Omnicom, em 2006. “Tínhamos muito medo de dar esse passo, mas hoje posso afirmar que continuamos no controle da situação, mantendo nossa essência, e a relação com a TBWA e com o Lee Clow (chief creative officer da TBWA\Worldwide) é ótima”, diz Andy Fackrell. Ele explica que essa mudança de status – de agência independente para pertencer a um grande grupo global – abriu portas para clientes importantes, como Sony, o que resultou, inclusive, na abertura do segundo escritório da 180, em Los Angeles, em janeiro de 2007.
De fato, a associação com a Omnicom deu força para a agência holandesa exportar a filosofia 180 para um lugar que pudesse ser também um centro de integração de publicidade e entretenimento, este último vocação de LA.
Se Amsterdã influenciou decisivamente para o desenvolvimento dessa cultura da agência, é curioso observar o contraste absolutamente radical entre a cidade européia e a da costa oeste norte-americana, que exatamente por isso irá inevitavelmente ter um perfil diferente da agência-mãe.
Hoje, a carteira de clientes da 180 é formada, além de Adidas e Sony, por Amstel, segunda marca de cerveja da Holanda (atrás apenas de Heineken), BMW, Glenfiddich (uísque) e Omega.
Ano de fundação: 1998
Comando: Alex Melvin, Chris Mendola e Guy Hayward, sócios fundadores;
Peter Cline, sócio diretor de operações;
Mike Allen, sócio diretor de operações (LA);
Andy Fackrell e Richard Bullock, diretores executivos de criação;
William Gelner, diretor executivo de criação (LA)
Mercados nos quais atua: Amsterdã e Los Angeles
Principais clientes: Adidas e Sony, Amstel, BMW, Glenfiddich (uísque), Bombay Saphire e Omega.
@2008 MEIO & MENSAGEM