Para David Droga, fundador da agência que tem apenas dois anos, estruturas pequenas e formadas por pessoas de diferentes perfis conseguem responder mais rápido às transformações atuais do mercado

A diversidade e a capacidade de adaptação definitivamente fazem parte do DNA de David Droga e exatamente por isso, são atributos que sua agência, a Droga5, que acaba de completar dois anos (é a mais nova dentre todas as que fazem parte desse projeto), também tem como principais características. Para falar da sua empresa é necessário contar antes sobre a carreira de seu fundador e como ele chegou até aqui.
David Droga é um dos profissionais de criação com maior notoriedade no atual cenário publicitário global. Esse australiano coleciona mais de 40 Leões em Cannes, 23 Lápis do One Show e sete D&AD. Foi eleito pela Advertising Age como World’s Top Creative Director, em 2002, e uma das pessoas mais influentes da Europa com menos de 40 anos pela Media Magazine, em 2001. A intuição, a insatisfação e a busca por sempre sair da zona do conforto talvez sejam duas marcas da personalidade de Droga que explicam sua bem-sucedida carreira.
Ele nunca cursou uma universidade. Com 18 anos, freqüentou um curso rápido de publicidade, no qual acabou se destacando e ganhou como prêmio um estágio na FCB. Não gostou do clima e do estilão um tanto sisudo da multinacional. Nessa época, tinha uns conhecidos que abriram uma agência chamada Omon, e eles o convidaram para ser o primeiro funcionário. Droga acabou crescendo com a agência e ganhou muitos prêmios, o que o levou a ser diretor de criação e, em seguida, sócio — o que aconteceu com apenas 21 anos. Um dia, a BBDO comprou a agência, e Droga resolveu sair, pois não estava satisfeito com os rumos que o negócio tomou após a venda. O dinheiro que ganhou na transação usou para fazer uma viagem pelo mundo. A aventura durou pouco. Bob Isherwood — seu conterrâneo, e exatamente por isso conhecia sua boa reputação —, vice-presidente de criação global da Saatchi & Saatchi, lhe ofereceu a liderança da rede na Ásia com a total liberdade para David escolher o local onde iria montar o quartel general da operação.
Ele escolheu Cingapura, por achar que seria um lugar estimulante. Desde o início, seu objetivo era claro: desenvolver um trabalho tão criativo quanto o realizado pela S&S Londres e ganhar muitos prêmios. Para pôr de pé seu desafio, recrutou criativos de todas as partes do mundo, pois sempre acreditou que da mistura de referências e culturas saem resultados surpreendentes e fora do lugar-comum.
A facilidade em lidar com pessoas, David aprendeu em casa. Quinto filho de uma família de nove irmãos, quando era criança, sua mãe identificava as roupas de cada um escrevendo o sobrenome e a ordem de nascimento deles ao lado. Daí veio o nome de sua agência: Droga5.
Pouco tempo depois de comandar a operação asiática da S&S, seu plano deu certo, e foi chamado para assumir a criação do escritório londrino da rede, com apenas 29 anos. O começo daquele moleque australiano vindo de Cingapura na terra dos caras que escreveram boa parte da história da publicidade mundial não foi nada fácil. Além da pressão, houve um certo choque cultural. “Os ingleses são muito pessimistas e ao mesmo tempo muito orgulhosos, não é fácil lidar com isso se você não está preparado. E eu nunca fui político, nem homem de negócios. Mas sou realista. E o que me salvou foi justamente isso.
Conseguimos virar o jogo e nos transformarmos em uma agência realista; foi quando começamos a nos soltar e fazer muita coisa divertida e diversificada.” Participou de campanhas memoráveis, como as do Club 18-30, Coco de Mer e os Irritating Eyes, que contribuíram para fazer com que a S&S Londres conquistasse, nos primeiros anos da década, uma série de prêmios, dentre os quais ser nomeada The Agency of The Year, no Festival de Cannes, em 2002, e vencer dois Grand Prix.
Neste mesmo ano, a S&S foi comprada pela holding francesa Publicis, cujo presidente Maurice Levy escolheu o próprio Droga para ser o head global de criação do grupo, função na qual permaneceu até o final de 2005.
“Ao final de dois anos e meio nessa função, eu me vi exausto e participando de um sistema grandioso, no qual eu não conseguia fazer a diferença que eu gostaria de fazer, e tomei a decisão de montar meu próprio negócio para poder ter mais autonomia e fazer aquilo em que realmente acredito”, diz Droga, ao contar em tom direto e despretensioso como ele posiciona sua agência hoje em relação às mudanças pela qual passa a publicidade. “Não tenho nada contra o comercial de 30 segundos, nem contra as agências tradicionais, nem vou revolucionar nada. Quero apenas fazer algo melhor. O que aconteceu é que eu tinha um cargo absolutamente burocrático e árduo. Passava três semanas por mês viajando ao redor do mundo. Não vou mudar a publicidade. Só que antes a propaganda de massa — TV e mídia impressa — andava sozinha em uma grande avenida. Agora essa avenida ganhou novas travessas e ninguém sabe ao certo qual direção tomar”.
David Droga faz questão de ressaltar que um dos fatores responsáveis por essa transformação é a tecnologia. “A tecnologia não é a resposta, mas ela possibilita que as pessoas tenham mais opções. E, exatamente por isso, ela deixa tudo muito mais complexo. Essa nova estrada ainda está sendo construída. E nós sabemos que ter mais opções é um problema tanto para quem cria quanto para quem consome as mensagens. Esta é a chave, e o que muda a publicidade hoje em relação ao que ela era há algum tempo.”
O espírito realista que aprendeu a desenvolver quando trabalhava em Londres também impregna o jeito que o David empresário olha para seu negócio. “Os clientes querem que suas agências sejam mais inteligentes não apenas criativamente, mas estrategicamente. E é isso que estamos tentando fazer. Nem todos os clientes estão preparados para sair da zona do conforto, mas eles sabem que, se não partirem para a ação, o concorrente o fará. Além disso, eles sofrem pressão por parte de seus acionistas e do próprio mercado para fazer algo. Não é simplesmente uma questão de fazer diferente, mas fazer certo.”
A relação com a Publicis e a confiança conquistada de Maurice Levy fez com que a parceria com o quarto maior conglomerado de comunicação do mundo continuasse na fase empresarial de Droga. Embora ele faça questão de enfatizar que a Droga5 é independente e não tem participação acionária do Publicis Groupe, a Revista da Criação apurou que a holding francesa investiu
US$ 24 milhões na abertura da agência, que fica em um charmoso escritório no Soho e conta com cerca de 50 funcionários.
Droga só admite a sociedade com a Publicis na novíssima empresa Honeyshed, focada na área de produção de conteúdo, na qual a multinacional detém 51%. “A Publicis é sócia apenas da Honeyshed, empresa de brand entertainment que lançamos em dezembro passado e que está ainda em fase beta”, enfatiza.
Com a bagagem de quem já trabalhou em quatro continentes diferentes, ele acredita que agências com estruturas pequenas e formadas por profissionais de diferentes backgrounds podem responder mais rápido às novas demandas do mercado. “Não temos medo de experimentar, e, exatamente pelo fato de as pessoas aqui serem multifacetadas, elas agregam uma visão mais rica ao desenvolvimento dos trabalhos.”
Com poucos meses de existência, a Droga5 não poderia ter participado de seu primeiro Festival de Cannes de forma melhor. Além de David Droga ter presidido o júri de Film e de Press & Outdoor, conquistou o GP em Cyber, em 2006, com uma campanha viral criada pelo próprio David para a marca de roupas Ecko, no qual grafiteiros pintam o avião Air Force One, do presidente norte-americano. O controverso filme de 3 minutos chamado “Still Free” – que é o mantra da Ecko – utilizou um avião antigo pintado com cores similares às do Air Force One e um mock-up do modelo. Ele mostra dois homens andando do lado de fora da base até que eles saltam a grade para chegar até o avião e grafitá-lo. O objetivo do filme é reforçar que a Ecko está envolvida com a cultura de rua, e o grafite é uma de suas expressões. A campanha, veiculada pela internet, atraiu tanto a atenção da mídia que o Pentágono precisou ir a público dizer que o filme não era real.
Em 2007, a agência conquistou o Titanium Lions pela campanha muito bem amarrada “Tap Project”, criada para a Unicef. “O Titanium é uma categoria que me interessa muito. Ela aponta para o novo”, diz o publicitário.
O projeto desenvolvido para a Unicef materializa um pouco o que Droga acredita ser o novo papel da comunicação: algo que envolve pessoas em torno de uma marca de uma forma diferente. Entre os clientes da Droga5 estão Microsoft, Tracfone, Coca-Cola, VB, Net10, Pernord Ricard e Unicef, além da companhia telefônica VB e balance, estes últimos fizeram com que a agência abrisse sua primeira filial, em Sydney, Austrália. Além de ser muito ligado à família — o filho mais velho dos três que tem estava brincando em um canto da sua sala enquanto ele dava a entrevista para esta reportagem —, Droga adora pintura. “O que eu acho legal na arte é que ela mexe com as emoções, e isso tem tudo a ver com a minha profissão. Para mim publicidade é, acima de tudo, emoção, sensação, humor. Quantas campanhas a gente gosta sem saber o porquê? A arte é isso, mas em estado puro.”
Ano de fundação: 2006
Presidente e fundador: David Droga
Mercados nos quais atua: Nova York e Sydney
Principais clientes: Microsoft, Tracfone, Coca-Cola, VB, Net10, Pernord Ricard, Unicef, VB e Balance
@2008 MEIO & MENSAGEM