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Criada em 1996, a KK construiu uma história de independência, inovação e opção por não estar no mainstream, fatores que reforçaram sua boa reputação, tornandose uma das principais referências quando o assunto é hotshop

Uma agência que se recusa a usar modelos em seus trabalhos. Em vez disso, prefere compor o casting com pessoas escolhidas na rua, pois acredita que o valor fundamental da publicidade é dizer a verdade. Uma agência que confia que o mais importante que tem para vender não é a criatividade, mas o pensamento estratégico. Uma agência que decidiu recrutar mulheres que tinham apenas uma perna para protagonizarem a campanha de uma loja de sapatos e com esse material produziu um livro que acendeu o debate, na Holanda, sobre pessoas com impedimentos físicos. Uma agência que promoveu, no dia da final da Copa do Mundo de 2002, entre Brasil e Alemanha, em Yokohama, no Japão, uma partida de futebol entre os dois piores times do mundo:

Butão e Montserrat, respectivamente, números 202 e 203 no ranking da Fifa. A idéia era fazer as pessoas pensarem exatamente sobre o que é “perder”. Uma agência que não quer crescer se para isso tiver de abrir concessões a respeito daquilo em que realmente acredita. Uma agência cuja sede é uma igreja construída em 1882.

Bem-vindos à KesselsKramer!

Todos esses fatores conseguiram imprimir uma aura quase mística à agência holandesa, reforçando a boa reputação construída ao longo da última década por meio de sua história de independência, inovação e opção por não estar no mainstream.

Sua fachada não entrega que é uma igreja, já que ela está plenamente adaptada à arquitetura dos prédios à beira dos canais de Amsterdã. No entanto, ao entrar na agência, todos os elementos sacros estão lá, preservados e restaurados por uma empresa de arquitetura inglesa: os vitrais, as colunas, as abóbadas e um órgão acústico que ainda funciona.

Se a publicidade fosse uma religião, a KesselsKramer optaria pelo caminho da linha reformista, que, não por acaso, teve um capítulo importante escrito exatamente na Holanda.

Fundada em 1996 pelos sócios Erik Kessels e Johan Kramer, respectivamente, diretor de arte e redator, após ambos terem trabalhado em Londres em agências como Chiat Day e GGT (onde também atuou Robert Saville, que fundou a Mother no mesmo ano), a KK foi a primeira agência da Holanda cujos sócios eram criativos, inspirando nos anos seguintes a abertura de outras hotshops em Amsterdã e em grandes capitais mundiais.

A outra final

Desde sua fundação, não há departamento de atendimento na agência (outra coisa em comum com a Mother — ver matéria na pág. 80 ). “Uma das coisas que percebemos era o fato de que os clientes queriam ter contato direto com quem desenvolvia as campanhas. Não fazia sentido ter intermediários nessa relação. Criamos a agência com apenas três departamentos: criação, planejamento e produção. E ela é assim até hoje”, explica Erik Kessels que, desde 2004, passou a comandar sozinho a agência, após Johan Kramer optar por sair da operação para se dedicar à direção de filmes.

O mais curioso é que o primeiro contato com a agência, ainda em dezembro passado, foi por meio de um e-mail enviado a Kramer solicitando a entrevista que resultou nesta reportagem. Isso porque o site da KK (www.kesselskramer.com) não fornece nenhum tipo de informação, muda o tempo todo e a cada momento, como se fosse um labirinto com layout propositalmente de mau gosto, transformando-se hora na home do imaginário salão de beleza KesselsKramer Yeti, hora da KesselsKramer Whitening (clareador de dentes), hora da consultoria sentimental KesselsKramer Glue Advice.

A rápida resposta de Johan Kramer foi curta e grossa: “Há alguns anos eu saí da agência, pois me enchi da publicidade e hoje me dedico à direção de filmes. Vou colocá-la em contato com as pessoas da KK, que poderão te ajudar”. Depois de ter conhecido a KesselsKramer, a ilação óbvia é imaginar que, se construindo uma agência como essa ele ficou de saco cheio, como seria se trabalhasse no Brasil... Coisas de holandeses.

Um dos projetos audiovisuais de Johan Kramer, quando ainda estava na agência, resultou no filme A Outra Final. Apaixonado por futebol, ele conseguiu arrecadar US$ 400 mil para produzir o documentário que registra a partida, realizada na capital do país budista Butão, Thimphu, contra a seleção da pequena ilha caribenha Montserrat, destruída por uma erupção vulcânica. O jogo reuniu 20 mil torcedores, que viram o time da casa ganhar por 4 a 0. A KK decidiu proclamar ambas as equipes vencedoras e dividiu o troféu entre ambas. “Futebol não é apenas um esporte de vencedores. É antes de tudo a celebração de dois países que compartilham a paixão pelo jogo”, declarou Kramer à imprensa holandesa, na época.

“Nunca produzi nada de que tenha me arrependido”

Ser fiel aos seus princípios é um dos lemas seguidos ao pé da letra na KK. “Nunca produzi nada de que tenha me arrependido. Desde o início, sempre achamos que um filme de TV não era a resposta a qualquer problema do cliente.” Iniciativas culturais, como exposições fotográficas, mostras de documentários, design de objetos e embalagens — sempre com um toque fashion e provocativo —, fazem parte do leque de ações que a KesselsKramer criou para seus clientes ao longo destes 12 anos.

O tamanho e a independência também são valores preservados. Atualmente, são 45 funcionários. “Esse perfil enxuto faz com que não tenhamos a pressão de gerar grandes receitas e ter de veicular em mídias tradicionais para sustentar uma grande estrutura.”

Entre seus trabalhos mais memoráveis estão os criados para a marca italiana Diesel, com anúncios que ganharam Leão de Ouro em Cannes no começo da década. Logo depois da saída de Kramer da agência, o cliente também deixou a KK. Exatamente para a Diesel, a agência veiculou anúncios com modelos profissionais. Tudo estaria normal se não fosse apenas um detalhe: todas elas estavam de máscara.

Na véspera de completar dez anos, no

final de 2005, a KK lançou o livro 2 Kilo, com a coletânea de seus principais trabalhos até aquele momento. Uma folheada no verdadeiro tijolo que é a publicação ajuda a entender o estilo KesselsKramer de fazer propaganda. Chamam a atenção algumas campanhas, como a criada para a loja de sapato holandesa Shoebaloo, citada na abertura desta matéria.

A série de anúncios feita para o cliente inaugural da agência, Hans Brinker Budget Hotel, uma cadeia de hotéis de baixo custo, também é emblemática e logo de cara já dizia a que veio a KK. Títulos como “Agora mais quartos sem janelas”, “Agora ainda mais cocô de cachorro na entrada principal” e “Agora ainda menos serviços” davam o tom sarcástico que virou marca registrada da agência.

Fazia parte da campanha ainda uma caixa de pílulas para dormir colocada nos criados-mudos de cada quarto com a instrução de que elas deveriam ser tomadas para o hóspede poder se livrar do intenso barulho.

Em uma campanha para a marca de carros Audi, o target da KK foram pessoas que já tinham o automóvel da montadora alemã. Foram enviados para várias ruas de Amsterdã grupos que lavavam todo Audi que passava e entregavam um cartão dizendo “Desculpe-me, mas não pudemos resistir”.

Um dos trabalhos que mais chamou a atenção do mercado holandês foi o desenvolvido para a companhia telefônica Ben. A agência sugeriu desde o nome até todas as etapas de comunicação para o lançamento da marca. O detalhe é que, além de ser o nome de uma pessoa — e não de uma empresa —, Ben também significa “eu sou” em holandês. Assim, o mote da campanha de lançamento foi colocar pessoas de diversas etnias e nacionalidades nas peças apenas com a assinatura “Ik ben Ben” (prazer, eu sou Ben). Nada de referências ao serviço que a companhia estava lançando.

“Por que não iniciar uma empresa fazendo ela se comportar como uma pessoa? Quando você se apresenta a alguém nunca começa dizendo o quão bom você é. Primeiro conquista a atenção e depois mostra o que tem a oferecer”, explica Kessels. A estratégia teve um tremendo impacto positivo e o cliente ficou mais de oito anos na carteira de clientes da agência.

Fazem parte ainda do portfólio da KK vodca Absolut, J&B (uísque), prefeitura de Amsterdã e SNS Bank.

No último dia 1o de fevereiro, a empresa abriu seu escritório em Londres — a KK Outlet —, que, segundo Erik, não é bem uma agência, mas sim um espaço que mistura loja e uma galeria diferente para exposições visuais. “É um conceito que tem como objetivo conquistar clientes de lá que estejam em busca de uma proposta diferenciada e fora do lugar-comum.”

Perfil da KesselsKramer

Ano de fundação: 1996
Sócios: Erik Kessels e Johan Kramer (fora da operação desde 2004)
Mercados nos quais atua: Amsterdã e Londres
Principais clientes: vodca Absolut, J&B (uísque), prefeitura de Amsterdã, SNS Bank e Hans Brinker Budget Hotel

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