O futuro da TV chegou e sem hora marcada

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O futuro da TV chegou e sem hora marcada


2 de agosto de 2013 - 1h05

Quem não lembra ou pelo menos ouviu falar, das noites de domigo nos anos 70 e 80, quando pontualmente, às 19:00h, as hilárias aventuras lideradas pelo Anti-Herói brasileiro Didi Mocó, começavam e arrancavam gargalhadas das crianças e famílias brasileiras? Quando o Didi nos chamava com a maior intimidade de “Ô Psit?“ e “Ô da poltrona?”, ele parecia ter certeza que a gente estava ali, vidrados e grudados na tela da TV. E estávamos. A gente se distraía ou arranjava alguma coisa pra fazer nos intervalos comerciais, e voltava voando para a frente da TV quando o programa ameaçava retornar. Voltei muito no tempo? Só mais um minutinho.

Quando a TV “controlava” o nosso tempo era mais do que a época áurea da TV brasileira. Era uma distante época de controle sobre o tempo da audiência e o que havia à disposição na grade de programação, na tela da TV. Um tempo de controle total sobre a hora em que a audiência iria assistir a programacão. Porque cada dia está mais impossível saber aonde, quando e como a audiência assistirá o seu programa favorito.
 
O mundo foi reconfigurado: O Futurismo virou Presentismo.
Afinal o que está acontecendo hoje? Viramos zumbis digitais obcecados por tecnologia? A tecnologia tomou conta da Terra e dominou as nossas vidas? Não. Mas parece que email é coisa do passado, que ninguém tem tempo, nem paciência para ler um texto que ultrapasse 140 caracteres, e muito menos para responder. Não toleramos mais o intervalo comercial na TV, e “pulamos” o da web, por ser uma interrupção intrusiva no nosso tempo.

Há quase quatro décadas a nossa relação com o tempo vem se transformando profundamente. Somos imediatistas, apressados, impacientes, dispersivos, etc. Tudo ao nosso redor, na sociedade , na cultura mundial, economia, política, nas corporações, na forma de fazermos negócios e de nos relacionarmos, mudou.

Vivemos hoje uma realidade contemporânea mais do que prevista por George Orwell em seu último romance,”1984”, publicado em 1949, onde o personagem central, Winston, vivia aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo era feito coletivamente, mas cada qual vivia sozinho. Ao redor, na história, havia uma intensa vigilância do emblemático personagem “Big Brother”, uma personificação do poder.

Alvin Toffler, Marshall McLuhan, Gibson, Pierre Levy e outros sábios futuristas e filósofos, enxergaram há muito tempo um Futurismo de amplas transformações sociais na vida das pessoas. Um futuro que é o nosso presente.

Por exemplo, em “O Choque do Futuro”, livro de Toffler lançado em 1970, uma série de previsões sobre o futuro arrepiaram as pessoas na época, mas se concretizaram ao longo do tempo. Viveríamos um fluxo de mudanças tão acelerado, que influenciaria a nossa sensação de tempo, revolucionando o ritmo da vida cotidiana e afetando a forma como sentimos o mundo ao nosso redor. As pessoas e instituições teriam dificuldade em lidar com essa rapidez, todos se sentiriam obrigados a ter respostas imediatas, ficariam confusos na hora de tomar decisões e sofreriam muito por causa disso. Teríamos uma forte sensação de desorientação e quando tudo começasse a mudar de modo acelerado, muitas coisas se tornariam temporárias e facilmente descartadas. Até clonagem de animais poderia acontecer, segundo o autor futurista. 

Toffler sabia que as novas tecnologias nunca surgiriam sozinhas no futuro. Seria um pacote de mudanças tecnológicas, seguidas de mudanças sociais, políticas e culturais. A estrutura familiar seria afetada com a expansão dos computadores. As mulheres sairiam de casa para trabalhar e exigiriam, cada vez mais, o seu lugar ativo na sociedade. As famílias se tornariam menores e haveria uma evolutiva diversificação das mesmas. Enfim, o mundo foi acelerando, se descentralizando e se multiplicando. Os valores e conceitos da sociedade, também. 

Barack Obama e a privacidade. Há quarenta anos atrás, por exemplo, o atual presidente dos EUA, Barack Obama, crescia no Havaí, cercado por um amplo e arraigado preconceito racial, uma verdade absoluta estabelecida como realidade, vinda da maioria da população. 

Hoje, quarenta anos depois, a tal verdade absoluta e absurda, se tornou a opinião de uma minoria. Ainda bem que nem tudo é tão chocante e assustador, no atual Presentismo que vivemos. Fico impressionada com a reação apavorada e revoltada das pessoas por causa do discurso recente do Obama, sobre ninguém poder viver com segurança e privacidade. Ele não é o Big Brother do George Orwell, como mencionei aqui antes. A sociedade sim se tornou um gigante Big Brother. Não são as redes sociais que causam isso. Nós somos agentes com total responsabilidade sobre a tal sensação de vulnerabilidade e exposição de privacidade que reclamamos. Não somos vítimas. Alguma vez alguém te obrigou a dar um “Check-in” no Foursquare, assim que você chega no trabalho ou na balada? 

Lembro então, de um trecho da coluna sempre deliciosamente provocativa e irônica, do filósofo Luiz Felipe Pondé (Folha de SP – 22/07/13) – que na minha opinião é um potente intérprete da Era contemporânea, sobre a atual invasão de privacidade, Obama, e redes sociais: “… por muito menos, vigiamos a geladeira para ver quantos iogurtes tem, os armários da cozinha, as sacolas das empregadas para ver se elas estão levando algum pacotinho de carne… celulares nos avisam quando algo acontece em nossa conta e em nosso cartão de crédito, e isso tudo é muito prático, não?”

Os tempos atuais são também hiperconsumistas e hipermidiáticos, configurados por uma superabundância de informações, de imagens, de ofertas excessivas de marcas, uma imensa variedade de produtos, restaurantes, festivais, músicas, filmes e fatos que podem ser encontrados em qualquer parte do mundo, a qualquer momento. Jamais um consumidor teve tanto à sua disposição e com tanta convicção de que pode escolher e ter no tempo que quiser, quantas vezes e onde preferir . E, é claro, fazer o mundo saber. Nosso jeito de ser multi-tasking (multi-tarefas) se intensifica. 

Somos espectadores que participam e produzem na Sociedade do Espetáculo. Ao vivo. Agora. E em tempo real. 
Há uma ampla hiperindividualização que configura o quanto nos fechamos menos para o mundo, enquanto a nossa conexão com o grande mundo, só aumenta. Quanto mais as culturas se aproximam hoje, mais se desenvolve uma dinâmica de pluralização, heterogenização e diversidade social. O que ajuda fortemente a mudar a nossa relação com a distância e o tempo. A Terra nunca foi tão pequena. Os grandes acontecimentos históricos ou esportivos são vistos ao vivo, como um conteúdo linear. Todos podem ter acesso imediato às imagens, e os fatos são retransmitidos e amplificados de forma desordenada e não linear. Uma notícia, muitas vezes é reproduzida pela audiência, e é capaz de se espalhar e reverberar pelo mundo, dispersa pela rede, em segundos. Os fãs de seriados não conseguem esperar uma semana para ver o próximo episódio. A ansiedade contemporânea naturalmente provoca e intensifica a pirataria, em diversos segmentos da indústria cultural.

Todos têm acesso imediato às imagens e às informações, de todos os cantos do mundo. Em uma cultura mundial de compressão do tempo e encolhimento do espaço. O “local” está ligado ao “global”. Um intenso sentimento de simultaneidade e imediatismo se faz presente e permite, aos indivíduos afastados no espaço, que compartilhem de uma mesma informação, de uma mesma experiência. E em tempo real. Porque ninguém quer se sentir de fora ou estar por fora de um assunto que acontece agora. 

O “Ô da poltrona” sumiu mesmo. Mas ele continua vendo TV e cada vez mais conectado. Porém o controle do tempo foi transferido para ele, E não trocamos a tela da TV pelas telas menores. Adicionamos. As telas convivem e coexistem porque é absolutamente humano ver, curtir, discordar, comentar, e socializar. Algo antigo na vida de todos. A mudança é que a tecnologia enriqueceu e tornou muito mais divertida, e em tempo real, a experiência de fazer várias outras coisas simultaneamente, enquanto vemos TV. Navegar na web, postar, comentar, twittar e pesquisar enquanto vemos um seriado favorito, é incrível. A conexão com o mundo fica melhor, a sensação de sintonia e de estar por dentro é boa, muito boa. Sem risco de ser pego desprevinido por alguém que conta detalhes do episódio daquela semana, na hora em que ele vai ao ar. O uso das redes sociais só ajuda a audiência a voltar para a TV.

SocialTV: A TV se reinventa e tenta sair da “caixa”.

A revolução da tecnologia e do comportamento social continua. A reinvenção do negócio e do conceito da TV flui fora do Brasil, de forma acelerada. O que os americanos chamam de “Consumer Cord-Cutting” é uma ameaça ainda não expressiva, mas real, à TV à cabo. Seriam assinantes de TV à cabo abandonando este sistema, optando por Apple TV, Google, Amazon, Hulu, Netflix, HBO Go, que distribuem sua programação via Streaming. Uma escolha que parece natural e reflexo da sociedade contemporânea, que vive plenamente a liberdade do controle remoto e da grade de programação da TV. Indo além do aparelho da TV. Seria a livre escolha da programação, do conteúdo, do Entretenimento. Não é uma escolha de tela, de plataformas ou de mídia. 

Assim como outro fenômeno comportamental, chamado “Binge Watching TV”. Como a humanidade tem pressa, é ansiosa, cada vez mais insaciável, quer tudo na hora e sabe que pode ter, literalmente “mergulha”, se esbalda e, da mesma forma que devoraria de uma vez só um pote gigante de sorvete, ou um bolo inteiro de chocolate, ou uma garrafa inteirinha de Whisky, assiste os treze capítulos da primeira temporada de House of Cards ou Orange is the New Black, em uma tacada, sem parar, em um fim de semana, e quantas vezes quiser. Para o antropólogo e escritor americano Grant McCracken, isso acontece porque o indivíduo cria uma espécie de espaço e tempo paralelos à tensa realidade cotidiana, sentindo um certo conforto e distanciamento, pelo menos por um tempo. Tanto na vida como vendo TV. O “pulo do gato” que a atual líder Netflix usou para sacudir o mercado e superar a HBO em milhões de assinantes, foi exatamente inspirado no comportamento, sintonizando o serviço e o conteúdo com a audiência, com a forma contemporânea e super humana de ver TV. A Netflix financiou a produção de três seriados originais e disponibilizou a 1a temporada para os assinantes, de uma vez só.

O futuro da TV tradicional chegou e vai continuar a evoluir. Mesmo que demore um pouco no Brasil. Os concorrentes da Netflix no mundo, são potentes gladiadores tanto pelo conteúdo próprio e excepcional (HBO) que produzem, como pelas inovações tecnológicas que ainda surgirão na tentativa de alcançar e capturar a audiência. Uma audiência com muito poder. 

Patrícia Weiss, Brand Strategy Consultant (Brand Culture & Branded Entertainment) e Chief Strategy Officer da Wanted

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