O velho, o novo e o velho do novo

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O velho, o novo e o velho do novo

Quer se divertir criando com as ferramentas novas? Vá direto à fonte, trabalhando com quem já nasceu conectado, aprendendo de um jeito muito diferente da nossa velha escola


16 de novembro de 2016 - 12h03

Foto: Reprodução

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O genial Will Eisner, criador do durão Spirit, em seus quadrinhos autobiográficos Ao Coração da Tempestade, conta a história de seu pai, aprendiz de um famoso pintor de obras sacras em Viena do início do século passado. O iniciante Samuel Eisner descolou uma oportunidade com o bem-sucedido artista e se mandou para a capital em busca da fama. Começou ajudando a esposa do mestre com os afazeres domésticos em troca de observar seu trabalho por dez minutos diários e foi lentamente subindo na vida do ateliê misturando tintas, limpando pincéis, enquanto era consistentemente humilhado e intimidado como parte do aprendizado.

Cansado do mau humor do patrão, um dia pintou uma mosca no nariz de um anjo, figura central de um quadro no qual seu mestre vinha trabalhando ao longo de seis meses. Pintou com tanto talento e vontade que o chefe, enfurecido pela ousadia do inseto que teimava em resistir aos seus espantos, esburacou a tela toda enquanto tentava expulsar o bicho.

Hoje, no meio de tantas possibilidades, com tantas plataformas criativas e tecnologias nascendo a todo momento, também aprendemos todos os dias com criativos mais novos, com quem faz a menos tempo que a gente

Lembrei da história dos Eisner quando um dia destes ouvimos do antenadíssimo Eco Moliterno, num painel de discussões sobre processos criativos, um pensamento que reflete bem a mudança no aprendizado criativo desde os mais de cem anos que nos separam do modernismo Vienense. Eco dizia que no passado, quando um estagiário entrava para uma agência, olhava para os criativos experientes como verdadeiros mestres da arte dos filmes e anúncios, conhecedores de todos os segredos por trás das ideias e execuções geniais.

O melhor que se podia fazer era observar atentamente e absorver o máximo possível de um ofício que se levava anos para entender e dominar por completo. Simplesmente, se aprendia com os mais velhos. Então, completou o raciocínio observando que hoje, no meio de tantas possibilidades, com tantas plataformas criativas e tecnologias nascendo a todo momento, também aprendemos todos os dias com criativos mais novos, com quem faz a menos tempo que a gente. Bum!

Fica a dica de quem sabe tudo. Quer falar com os nativos do mundo “mobile”? Quer se divertir criando com as ferramentas novas? Vá direto à fonte, trabalhando com quem já nasceu conectado, aprendendo de um jeito muito diferente da nossa velha escola. Melhor ainda, troque ideias com quem começou a vida se expressando de um jeito novo, consumindo enquanto cria e criando enquanto consome. Eu mesmo trabalho com uma turma enorme de jovens com quem aprendo compulsivamente. Sou uma esponja do talento dos meus colegas, meus alunos e de todos os mestres com quem pude trabalhar. Faço assim há tanto tempo, que quase acabei me esquecendo de uma coisa muito importante: não é assim por todo canto. O mundo está cheio de chefes de todas as idades que preferem ensinar para jovens que perpetuem o jeito velho do chefe, no caso eles mesmos.

Quer falar com os nativos do mundo “mobile”? Quer se divertir criando com as ferramentas novas? Vá direto à fonte, trabalhando com quem já nasceu conectado, aprendendo de um jeito muito diferente da nossa velha escola

É que nós criativos empregamos tanta energia construindo o mundo ao nosso redor do jeito que ele sempre deveria ter sido, que mudar um quadro perfeito dá nervoso em muita gente. Falo isso com todo o respeito de quem admira a consistência, mesmo andando em outra trilha — afinal, cada um escolhe seu caminho. Tudo tranquilo e favorável. Está cientificamente provado que hip-hop e samba combinam no mesmo prato. Criatividade, como a felicidade, vem em diversas formas e tamanhos.

Tenho um livro na estante com fotos da Rua Larga, no centro velho do Rio. No meio das salas empoeiradas das oficinas criativas, velhos mestres e jovens aprendizes constroem os mais lindos violões e cavaquinhos, os mais finos sapatos, ternos e chapéus, retratos de um rio antigo. Do lado de fora, os prédios vizinhos vão literalmente desabando, levando junto as marcas da mais elegante rua da antiga capital. Não há nada de decadente em sua arte, pelo contrário sua permanência indica o sucesso sólido, resistente ao tempo. Sua qualidade não mudou, seu ofício não mudou, apenas a rua mudou ao seu redor.

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