Os inconformados e o novo normal

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Os inconformados e o novo normal

As mais transformadoras ideias de nosso tempo nasceram tão poderosas quanto tortas. Um dia morrem Napster, só para depois renascerem Uber


27 de agosto de 2018 - 12h03

(Crédito: Pixabay/Pexels)

Ideias nunca são neutras. Mesmo que indefinidas e imperfeitas, elas carregam agendas em seus miolos. Ninguém duvida que vivemos um tempo de empreendimentos gigantes executados em tempo real: carros autônomos, mapas genéticos e viagens a Marte pipocam todo dia no nosso imaginário. A velocidade de absorção é absurda, mas já convivemos com o acesso simples e direto a toda informação do mundo, a redes de conexões pessoais de alcance global e a capacidade de comunicação e processamento diretos na palma da mão. Também já quebramos tabus culturais enormes ao dividir um carro, uma casa, um local de trabalho com pessoas quase desconhecidas. São ideias apaixonantes para alguns e repugnantes para outros, porque nunca são isentas, nunca são imparciais. Mesmo na falta de clareza de sua aparência, seus planos rompem sistemas estabelecidos e tiram muita gente do conforto.

Ideias são sagazes e, às vezes, se fingem de mortas só para renascerem mais fortes em outros formatos. No caminho incerto em que vão tomando corpo, lutam agressivamente para cumprir os seus destinos enquanto vão se associando a outras ideias, se transformando, transmutando, virando outras ainda mais poderosas. Um dia morrem Napster, só para depois renascerem Uber. Assim, Economia Compartilhada vira Economia de Acesso e as duas, no caminho, vão quebrando a ordem estabelecida. Talvez tenha sido sempre assim, talvez não, mas as mais transformadoras ideias de nosso tempo nasceram tão poderosas quanto tortas.

A indústria de tecnologia aprendeu a fazer revoluções explorando ideias em movimento, dando um salto de cada vez. Avançam na conquista de seu espaço por meio de ciclos contínuos de produtos minimamente viáveis que testam conceitos, incorporam retorno e introduzem novas ideias em suas raízes. Mais ou menos como Picasso remontando pessoas azuis por anos, até que nos apresente as Senhoritas de D’avignon e mude tudo de uma vez, arrancando outra onda da mesma origem. E os dois momentos abrindo novas caixinhas, para que um dia seja possível uma coisa absurda como foi a Guernica. Estava tudo lá, desde o início, mas talvez nem ele mesmo soubesse onde o trabalho iria chegar.

Tem quem acredite que as ideias tenham vida própria e que nosso papel seja apenas hospedar sua constante expansão e desenvolvimento. Um pensamento interessante para negócios criativos, mas que nos afasta um pouco da responsabilidade profissional e deixa pouco espaço para aproveitarmos dos prazeres e angústias do nosso ofício. Se olharmos com cuidado e colocarmos a curiosidade na frente, vamos ver que ciclos de geração e desenvolvimento de ideias que a indústria de tecnologia colocou na mesa criaram uma festa interminável para criativos de todos os tipos.

Neste novo contexto, o espaço entre a geração de conceitos e a comunicação para o mercado, tradicionalmente desabitado por criativos, está cheio de oportunidades incríveis. A casa onde moravam a eficiência, o acerto e o controle, hoje é compartilhada com o risco, a investigação e a invenção. Isto tem tudo a ver com a maneira que ideias, hoje em dia materializadas em série de produtos e serviços surpreendentes, são construídas para uma evolução criativa desde sua essência. Um sistema em constante aprimoramento e evolução, que abre espaço para entrada de novas informações e saltos criativos em todas as suas etapas. São sistemas sofisticadamente elaborados ao longo do tempo, mas nunca fechados a retorno de opiniões e ideias até mesmo do cliente mais granular.

Por isso faz cada vez mais sentido a presença de líderes genuinamente criativos no comando das mais impactantes iniciativas, independentemente (ou não) de quanto brilhante será a estória contada na hora da venda. Uma nova espécie de liderança assumiu o comando das naves-ideias mais interessantes. Os inventivos, os desajustados do manifesto de Steve Jobs nunca foram tantos e tão presentes. Na transição para o novo padrão de negócios criativos, logo serão o normal.

Crédito da foto no topo: Vedanti/Pexels

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