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Em versão enxuta, Cannes segue com inscrições em queda, mas mostra sintonia com seu tempo nos conceitos de avaliação e curadoria


24 de junho de 2019 - 11h30

Cannes Lions 2019 (Crédito: Celina Filgueiras)

As mudanças às quais o Festival Internacional de Criatividade vem se submetendo em suas duas últimas edições foram motivadas por uma cobrança do mercado para que o Cannes Lions estivesse mais sintonizado com os objetivos e dores do mercado — tanto em termos de conceito para a avaliação e valorização dos prêmios, quanto de estrutura e custos.

No segundo ano de realização de sua versão mais enxuta (com apenas cinco dias de duração, que já chegaram a ser oito), o evento pareceu mais bem planejado em termos de curadoria de conteúdo, tanto pela diversidade de temas aos quais os participantes foram expostos, quanto pela maior importância conferida à áreas menos tradicionais (Innovation, Health, Entertainment e suas derivadas), que são fontes de novos negócios, inspiração e ideias para as agências de publicidade.

A sensação de um volume menor de pessoas circulando pelo Palais des Festivals e seus arredores, que pode ter sido causada pela profusão de eventos paralelos tanto nas áreas adjacentes externas bancadas pelos patrocinadores quanto nos hotéis e restaurantes da cidade,foi reforçada pela facilidade com que se avistavam grandes executivos da indústria, aqui e ali, diariamente. Menos pessoas não é necessariamente algo ruim, especialmente se as pessoas que continuarem dando as caras forem ícones como Arthur Sadoun e Martin Sorrell — a dupla que ateou fogo no Cannes Lions em 2017 foi figurinha fácil na edição deste ano, para lá e para cá na cidade, ainda mais destacados por conta da pouca densidade na multidão.

Os números oficiais de presença do evento que podem comprovar essas primeiras impressões ainda não haviam sido divulgados até o fechamento da edição 1866 do Meio & Mensagem, na sexta-feira 21. Mas, pelo outro lado da moeda que compõe o valor de Cannes, a mais respeitada premiação criativa global, os cases vencedores indicam que o festival acertou em cheio: poucas vezes mostrou tamanha harmonia com o espírito do tempo da sociedade em seus conceitos de avaliação — o que é ótima notícia.

Enquanto a oito mil quilômetros da Riviera Francesa, na Flórida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciava que tentaria a reeleição no pleito de 2020, repetindo o discurso que o levou ao cargo, atacando a imprensa e reforçando seu apreço por causas como o endurecimento das políticas de imigração, os jurados do Festival Internacional de Criatividade reconheciam a coragem de marcas e a ousadia de campanhas a defender e incentivar políticas inclusivas e as liberdades de expressão e de imprensa. A lista de ganhadores de GPs sob essa perspectiva foi grande, mais da metade dos 28 distribuídos nas 27 categorias, com “Dream Crazy”, da Wieden + Kennedy para Nike, e “The Truth is Worth It”, da Droga5 para o New York Times, puxando a fila na qual aparecem também os 2 GPs conquistados pela AKQA, em performance histórica para as agências brasileiras.

Do ponto de vista das corporações, esse contraponto às ideias da direita radical também tem um lado business. Políticas inclusivas têm comprovadamente o poder de ampliar o mercado de consumo. A globalização unifica processos e reduz custos para as multinacionais. Ao adicionar talentos e olhares distintos, a diversidade é mandatória para a construção de equipes multidisciplinares e vencedoras — o que é uma dinâmica indispensável para se chegar a novas ideias, gerar novos negócios.

Na busca por provar sua relevância e manter o status de destino preferido da indústria da publicidade no calendário anual de eventos, se o South by Southwest tornou-se o palco mais próximo da comunicação para debater temas políticos e sociais, com a presença marcante de personalidades e representantes de peso de diversos setores da sociedade, Cannes é o lugar onde a cultura e o zeitgeist precisam ser transformados em entregas criativas que aproximam pessoas e marcas em seus propósitos e desafios.

Em um mundo polarizado, onde o posicionamento social e político pode fazer a diferença estratégica em termos de negócios, e não apenas de comunicação, essa tarefa fica ainda mais complexa, mas também ganha relevância e valor.

*Crédito da foto no topo: Eduardo Lopes / Imagem Paulista

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