Por que os talentos desistem

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Por que os talentos desistem

No meu íntimo, acho errado que uma grande mente de qualquer campo do conhecimento, por acomodação ou fastio, jogue fora uma habilidade rara de se encontrar


16 de julho de 2019 - 16h03

(Crédito: iStock)

Até hoje eu recordo com tristeza o dia 27 de janeiro de 2010, data da morte de J.D. Salinger, autor do mais importante romance de formação do século 20: O Apanhador no Campo de Centeio, obra que tanto me influenciou e que devorei com a incomparável ânsia dos meus 19 anos. Um romance de formação, por definição, é aquele cujo tema central é o rito de passagem entre a adolescência e a vida adulta, com suas dúvidas e certezas, amores e ódios, som e fúria. No livro de Salinger, o personagem às voltas com esse rito é Holden Caulfield, o mais profundo entre todos os adolescentes que haviam aparecido num texto literário, até então. Escrito em prosa coloquial e sonora, o livro foi considerado revolucionário ao ser lançado, em 1951, e até hoje possui indescritível força, representada por mais de 250 mil cópias vendidas todos os anos.

Através de sua obra-prima, Salinger inventou o adolescente moderno e, de certa forma, reinventou a literatura norte-americana. No entanto, o que tem a ver a morte de um escritor com uma coluna sobre o mundo da comunicação? Paciência, querida leitora. Calma, estimado leitor. Esta coluna, certas vezes, é como um grande clube de futebol europeu: vai direto ao ponto, em velocidade, e conclui em gol assim que possível. Outras vezes, é como um time de várzea naquelas tardes modorrentas de sábado: cisca daqui para lá, valoriza as firulas e se diverte mais com o jogo do que com o gol. Nesta coluna, o futebol será de várzea. Mas pretendo marcar ao menos um golzinho.

Como escritor, Salinger chocou o mundo duas vezes: a primeira, ao publicar O Apanhador. E a segunda, após ter conquistado a fama, quando simplesmente decidiu parar de publicar todo e qualquer tipo de texto. Na verdade, ele foi além disso: isolou-se numa casinha nas montanhas, jamais voltou a dar entrevistas, nunca mais se deixou fotografar, cortou contato com o mundo, sumiu de tudo e todos. Trancou-se por dentro, por assim dizer. Sua morte em vida tornou-se um enigma que desafiou a capacidade de compreensão de leitores e críticos com a mesma intensidade. Há quem ache que ele largou tudo porque nada mais tinha a dizer. Alguns garantiam que ele teria continuado a escrever e que, após ter nos deixado, obras inéditas seriam retiradas do baú e finalmente publicadas — o que simplesmente não aconteceu. A verdade é que ninguém sabe a verdade sobre o misterioso e cultuado autor.

O que terá acontecido na cabeça de Salinger, um escritor indiscutivelmente formidável, para que tivesse desistido do ofício que tão bem praticava? Eis a pergunta que me assombra e, ao mesmo tempo, explica a relação de tudo o que contei com o universo do trabalho. Sim, porque também me inquieto com o processo mental que leva um profissional de sucesso, em qualquer campo, a abandonar seu talento — ou a ser abandonado por ele.

“Eu aproveito para agradecer a vocês, e não é que eu não queira jogar mais. Desculpa, mas não consigo mais…” — disse Gustavo Kuerten, chorando copiosamente, para a emocionada plateia do Brasil Open de 2008. O maior tenista brasileiro de todos os tempos e ex-número um do mundo se despediu do torneio na Costa do Sauípe após ter sido derrotado pelo desconhecido argentino Carlos Berlocq e, acima de tudo, pelas dores crônicas em seu quadril, responsáveis pelo encerramento precoce de uma carreira brilhante e inesquecível. O doloroso episódio, envolvendo um dos maiores ídolos esportivos da história do País, também me levou a refletir sobre a melancolia do final das carreiras e, especialmente, sobre o desolamento das carreiras abreviadas. No entanto, o caso de Guga era bem diferente do de Salinger, pois se deveu a um impedimento físico — e não a uma decisão de caráter íntimo. Guga queria muito, mas não podia. Salinger podia muito, mas não queria.

A mesma mistura de estranhamento com tristeza me atinge quando leio que um grande executivo, um criativo de enorme talento, um comunicador nato ou um líder empresarial extremamente admirado decide que é hora de abandonar a carreira para fazer coisas como virar coach e palestrante, abrir um restaurante, cuidar de um pequeno negócio, ser membro de conselhos, estudar no exterior, virar artista etc. Nada contra — e quem sou eu para julgar, já que abri mão de uma carreira tradicional de executivo para empreender nos Estados Unidos —, mas tenho a impressão de que mais e mais pessoas estão parando, cada dia mais cedo, de fazer o que as definiu profissionalmente. Alguns motivos explicam esse fenômeno, desde uma crescente convicção entre os gestores de RH de que pessoas mais experientes não têm como produzir respostas para um mundo em vertiginosa transição (discordo muito) até a crescente sensação, entre os executivos, de que aquilo que os americanos chamam de “rat race”, a louca corrida para chegar ao topo das organizações, vem cobrando um preço cada vez mais alto (concordo muito). O fato é que, quando comecei a trabalhar, era comum ver líderes na ativa até os 70 anos. Essa idade logo baixou para os 60, até que hoje se tornou raro encontrar, por exemplo, um head de marketing com mais de 50 anos em uma grande organização. E não percam por esperar: os 40 serão os novos 50, muito em breve.

Respeito a decisão de Salinger e de muitos profissionais extraordinários que decidiram se aposentar, mesmo quando ainda tinham muitas histórias para escrever. Quem sou eu para julgar os fatores que o levou a guardar a máquina de escrever no fundo de uma cabana em Cornish, New Hampshire. No meu íntimo, entretanto, acho errado que o autor não tenha usado seu incrível talento para continuar iluminando o sombrio mundo em que viveu — como acho errado que uma grande mente de qualquer campo do conhecimento, por acomodação ou fastio, jogue fora uma habilidade rara de se encontrar. Mesmo porque, tenho a impressão de que, em algum momento, todos acabarão se mostrando arrependidos por haver pendurado as chuteiras quando ainda tinham algumas copas do mundo por conquistar.

A verdade é que não tiro da cabeça a ideia de que, longe da literatura, Salinger morreu amargo como um viúvo de seu próprio talento — ou como um órfão de sua grande arte.

*Crédito da foto no topo: Boris Rabtsevich/ iStock

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