Somos péssimos juízes

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Somos péssimos juízes

Ou entendemos que somos péssimos juízes ou podemos ter certeza de que a era de luz que se vislumbrava com a revolução da informação acessível a todos não passará de uma nova e devastadora era de trevas


24 de setembro de 2019 - 17h30

(Crédito: Aksonov/iStock)

Talvez por ter passado três maravilhosos anos em Buenos Aires, em meados dos anos 1990, sou grande admirador dos filmes de Hector Babenco, o argentino mais brasileiro que já viveu no país (título que o diretor compartilhou com o igualmente talentoso Fernando “Fino” Meligeni, o atleta mais raçudo que já vi em ação). Por conta disso, recebi com grande alegria a notícia de que o filme Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, dirigido pela atriz Bárbara Paz, levou o prêmio de melhor documentário sobre cinema da Venice Classics, mostra paralela do 76º Festival de Veneza, além do prêmio da crítica independente, o Bisato D’oro. Uma das facetas mais importantes de Babenco foi a luta contra a censura e, como não poderia deixar de ser, isso foi algo que a diretora fez questão de ressaltar em seu discurso de premiação.

Como escreveu João Pereira Coutinho em uma inteligente coluna na Folha de S.Paulo: “Se a nova direita brasileira persistir na censura e na sabotagem de autores de esquerda, isso pode ser uma derrota para a liberdade de expressão. Mas, quem sabe, talvez assim o Brasil tenha finalmente o prêmio Nobel com que sonha há vários anos”. Infelizmente, se quanto mais forte é a censura a uma obra de arte, maior é o sucesso que ela parece alcançar, o mesmo não pode ser dito da censura e dos julgamentos sumários que o tribunal das redes sociais faz sobre as pessoas. E por uma razão muito simples: somos péssimos juízes — e, cada vez mais, sem qualquer noção de limite, proporcionalidade ou razoabilidade. E é justamente aí que um filme de Babenco pode nos ajudar.

Quem gosta de cinema não pode deixar de ver — ou rever — Carandiru, talvez o filme de maior sucesso comercial do saudoso diretor. O roteiro se baseou no livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella, um dos grandes sucessos literários do Brasil nas últimas décadas, com mais de um milhão de leitores. Armado de conhecimentos médicos e enorme sensibilidade — e absolutamente desarmado de preconceito — o autor relatou os dramas e curiosidades de sua experiência como médico num dos maiores presídios do mundo. Quem gosta de cinema deve ver o filme. E quem gosta de futebol também. Isso porque, em meio a um dos mais pungentes retratos sobre a liberdade e a sobrevivência, há um episódio muito especial para os amantes do bom e velho esporte das butinadas. Refiro-me à cena da final do campeonato de pelada da cadeia.

A cena é inesquecível e vale por centenas de livros que procuram explicar a relação do povo brasileiro com o esporte que tanto o identifica. Nela, os jogadores dos pavilhões que chegaram à decisão do campeonato do presídio entram em campo — na verdade, um lamaçal com as linhas demarcadas com cal — para a partida. Com indisfarçável orgulho, eles trajam seus toscos e coloridos uniformes quando se perfilam no centro do charco para aguardar a execução do hino nacional. Entre eles, está o juiz, provavelmente, apenas mais um dos detentos. Ao redor dos protagonistas, empoleirados nas grades ou amontoados pelas galerias e corredores, estão quase todos os sete mil presos de Carandiru, uivando de excitação. Quando o hino começa a ecoar entre os altos e cinzentos muros do cárcere, o filme chega ao seu instante mais significativo. Sinceramente emocionados, jogadores e torcedores cantam, a plenos pulmões, as famosas estrofes do hino, mesmo sem compreender o significado das palavras difíceis e empoladas. Apenas as sentem. Naquele momento, pouco importavam os crimes e o passado dos participantes do evento. Naquele instante, eram todos apenas brasileiros. E concluímos que o conceito de patriotismo não está relacionado com os símbolos da República ou desfiles de tropas militares. Nada traduz mais a paixão do brasileiro por seu país do que uma partida de futebol. Nossa pátria, como já dizia Nelson Rodrigues, calça chuteiras.

Descrevi a cena para chegar ao personagem principal: o juiz. É que o campeonato da cadeia foi decidido numa cobrança de pênalti. Um pênalti existente, vale dizer, e corretamente marcado pelo destemido árbitro. Ao ver a cena, eu me surpreendi: é preciso ser muito corajoso para apitar um jogo num presídio, cercado por milhares de detentos, muitos dos quais armados. Imaginem a coragem necessária para marcar um pênalti num jogo assim! Quantos assassinos haveria no pavilhão derrotadoo? E se o zagueiro que fez o pênalti fosse um desses chefes do tráfico que não saem das manchetes? Pois é. Ainda assim, o cara foi lá e apontou a marca de cal. Refletindo sobre isso, fiquei pensando: o que falta para que os árbitros do lado de cá dos muros tenham coragem para fazer valer as regras do jogo ou para tomar decisões desprovidas de ódio ou rancor? O que nos falta, coletivamente, para sermos ao mesmo tempo corajosos e equilibrados como o juiz de Carandiru na hora de emitirmos nossos julgamentos sobre as pessoas? Essa reflexão ganhou, ao menos para mim, nova dimensão ao me deparar com mais um capítulo na saga do linchamento digital do Zé Boralli.

Durante a apuração do primeiro turno da eleição presidencial do ano passado, quando percebeu que Bolsonaro havia perdido a chance de se eleger no primeiro turno, por conta de uma votação menos expressiva no Nordeste, Boralli fez esse lamentável post no Facebook: “Nordeste vota em peso no PT. Depois vem pro Sul e Sudeste procurar emprego! Se liga aí Nordeste!!!”. Um post absolutamente estúpido, desnecessário e sem noção — ainda mais para ele, um profissional que, como eu, há mais 20 anos, trocou o Rio por São Paulo em busca de melhores oportunidades. Sustento hoje exatamente o que disse à época do post: ele mereceu ser demitido da Africa pelo post. Por mais que eu saiba que ele não é um sujeito preconceituoso ou com implicância com o Nordeste (basta dizer que, à época, o presidente do Grupo ABC era Nizan Guanaes, enquanto a Africa era, como é hoje, comandada por Sérgio Gordilho, ambos baianos), um líder de sua estatura tem que saber que não pode cometer erros como o que cometeu, mesmo no clima insano que o Brasil se tornou, desde aquela eleição. Errou, pagou. Uns acharam exagero, outros não. Eu achei justo. Vida que segue.

Vida que segue? Puro engano. Há algumas semanas, depois de dez meses desempregado, Boralli finalmente se recolocou no mercado publicitário, como managing director da BETC. Sob enorme pressão das redes sociais, e até de alguns colaboradores, a direção da agência abriu mão da contratação e o executivo perdeu o segundo emprego seguido. Pois é, amigos, no mesmo país no qual o goleiro Bruno — julgado e condenado por ter matado a esposa grávida e entregado os restos mortais para serem devorados por cachorros — voltou a trabalhar como goleiro, em um time do Espírito Santo, o Boralli parece condenado a nunca mais poder trabalhar, por causa de um péssimo post.

Ou entendemos que somos péssimos juízes e não temos poderes para impedir alguém de ganhar o pão de cada dia pelo resto da vida ou podemos ter certeza de que a era de luz que se vislumbrava com a revolução da informação acessível a todos não passará de uma nova e devastadora era de trevas.

*Crédito da foto no topo: Vedanti/Pexels 

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