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Opinião

Não dá mais para se “avestruzar”

Sigamos lutando pelo direito de sermos quem quisermos e estarmos onde o vento nos levar. Sigamos nesta luta tão óbvia, tão urgente


5 de maio de 2022 - 11h12

(Crédito: Photobank.kiev.ua/Shutterstock)

Chegou uma hora em que me avestruzei. Exatamente no final de 2018. Fui cuidar dos filhos, fazer o meu trabalho, pagar os boletos, tomar vinho e planejar a próxima viagem para a pousada de charme com o marido. Sob o argumento egoísta de que me fazia muito mal pensar na calamitosa situação política e social do país, optei por me avestruzar no buraco dos meus privilégios. Enquanto isso, meu país gemia. Sem parar! E continua gemendo com o rompimento da coerência, com o genocídio dos negros e dos povos originários, com o esgarçamento das instituições, com a violação da Amazônia. A minha nação geme de medo pela democracia que dorme e acorda ameaçada. Não dá mais para se avestruzar.

Isabela Kalil, professora de Antropologia e coordenadora do curso de Sociologia da Fesp – Escola de Sociologia e Política de São Paulo, diz que nós já toleramos coisas que não toleraríamos há cinco anos atrás. Vocês, eu não sei. Mas eu, sim. Avestruzada e anestesiada dentro do meu buraco branco e acolchoado, fone de ouvido no Emicida e orgulhosa por ser uma aliada da equidade racial e estudante de Sociologia. Que vergonha de achar que isso é muito, que é suficiente. A fala da professora Isabela, durante o debate “Os Neofascismos e o uso das Redes Sociais”, que ocorreu no dia 28/04, na Fesp, onde dividiu o palco com o professor Sergio Amadeu, da Universidade Federal do ABC, ainda não sai da minha cabeça. Tolerar o absurdo, o insano, só acontece quando a gente se avestruza. 

Estamos diante de uma violência recorrente que se nutre da desinformação por meio das fake news, das fake sciences. Segundo o professor Amadeu, a desinformação é a principal estratégia para desestabilizar uma sociedade no século XXI. “Não podemos confundir liberdade de expressão com liberdade de agressão”. E as agressões estão correndo soltas em todos os níveis. Não adianta só colocar o imã de protesto na segurança da nossa geladeira. Este ano, vamos ter que fazer mais do que isso.

Para onde a gente olha, há uma agenda de destruição e retrocesso. A democratização do acesso ao ensino superior, uma conquista de anos de luta do movimento negro, está seriamente ameaçada. Em 2019, pela primeira vez, a população que se declara de cor preta ou parda passou a representar mais da metade ( 50,3%)  dos estudantes de ensino superior da rede pública, de acordo com o IBGE. Acontece que este ano haverá a revisão da Lei de Cotas (Lei 12.711, de 2012), que prevê 50% das vagas em universidades e institutos federais para pessoas que estudaram em escolas públicas. E ninguém sabe o que vai acontecer. Precisamos acompanhar, vigiar.

O que está ameaçado é todo o ecossistema que começou a ser construído, com atraso, há alguns anos atrás, para dar espaço a quem sempre foi de direito, à população negra que ergueu este país. Meu estômago embrulha só de pensar que isso pode retroceder! Todas e todos os talentos negros que encontrei nos últimos anos foram possíveis por causa das cotas, do Fies. Na maioria dos casos, eles foram os primeiros da família a obter o diploma universitário.

Como disse outro dia meu amigo e babalorixá Moisés Patrício, um artista plástico reconhecido internacionalmente, “a mediocridade é um privilégio”. Muito educado, Moisés parou a frase aí, mas eu completo: a mediocridade é um privilégio dos brancos. O negro não tem esse privilégio. Ele sempre terá que ser muito, muito melhor para poder ocupar algum espaço. E isso é de uma injustiça brutal.  Há um meme muito emblemático em que duas bonecas brancas conversam: “Passou, filha?”, “Não, mãe, são só 60 vagas e ainda colocam 10% de cotas!”, “Mas em que lugar você ficou?”, “1018o”. O pior é que o meme é real! Já ouvi isso mais de uma vez.

Sigamos lutando pelo direito de sermos quem quisermos e estarmos onde o vento nos levar. Sigamos nesta luta tão óbvia, tão urgente. Este artigo não é político-partidário. É apenas partidário de um Brasil que volte a ser um país possível. Com a benção de Nosso Senhor vai chegar o dia em que o sol nunca mais vai se pôr. Salve, Chico Buarque!

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