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Women to Watch

Campanhas conscientizam sobre as dimensões da violência contra a mulher

Da forte relação entre violência infantil e contra a mulher ao debate sobre o papel dos homens na solução do problema, iniciativas mostram abordagens diversas sobre o tema

Michelle Borborema
24 de maio de 2022 - 11h18

“Fui delegada aos 22 anos, quando a violência contra a mulher estava em outro contexto. Agora, a conscientização é gigante e o problema é enfrentado todos os dias. Há 30 anos não tinha nada disso. Era uma pauta feia, as marcas não queriam se conectar a essa temática porque era muito desconfortável. Hoje, posso dizer que a causa da violência sexual contra crianças e adolescentes enfrenta o mesmo tabu”, diz Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, entidade que atua contra a violência sexual infantil.  

Para ela, seu objetivo é claro: romper o silêncio e falar dessa violência com naturalidade, para dar visibilidade à dimensão do problema e, com isso, apoiar a mudança do cenário, influenciando políticas públicas. “O gestor público trabalha sob pressão. O que importa para a sociedade e é massivamente debatido vira a pauta prioritária dele. Quando falamos muito sobre um problema, pressionamos a máquina pública para buscar a solução.” 

Luciana tem propriedade no que diz. Advogada e professora universitária, foi secretária da Juventude, Esporte e Lazer do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e secretária de Assistência e Desenvolvimento Social do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad. Filha do ex-presidente Michel Temer, foi, ainda, delegada de polícia por cinco anos, em Osasco, quando diz ter acolhido muitas mulheres vítimas de violência.

Após uma jornada de cinco anos nesse tema, no último dia 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, Luciana promoveu a primeira de uma série de passeatas virtuais para receber vídeos de pessoas que sofreram alguma violência sexual até os 18 anos de idade. Por meio do uso da hashtag #AgoraVcSabe e de um site para o envio dos vídeos, a advogada espera alcançar 1 milhão de registros de depoimentos até agosto deste ano, data em que ocorrerá o último levante virtual do movimento. No site Agora Você Sabe é possível encontrar todas as instruções de envio dos vídeos, disponível para todo público. 

“A violência contra a mulher poderá ter outra dimensão no futuro se começarmos a olhar para a violência sexual com crianças e adolescentes. E, para chegar lá, precisamos sair do silêncio, do constrangimento que é falar sobre isso, como fizemos com a violência contra a mulher”, diz. Até agora, a campanha, que conta com o apoio da Folha de S.Paulo e tem a apresentadora Angélica como embaixadora, recebeu aproximadamente 2.500 vídeos. Confira abaixo a simulação da passeata virtual da ação.

Dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram uma forte relação entre a violência infantil e contra a mulher. Em 2020, 60,6% de todos os estupros registrados no Brasil foram contra menores de 13 anos, e a porcentagem vem aumentando ano a ano. A maioria das vítimas é do sexo feminino (86,9%). Os autores, majoritariamente do sexo masculino (96,3%), são conhecidos delas em 85,2% dos casos. 

AUMENTO DE VIOLÊNCIA NA PANDEMIA 

Segundo a OMS, a pandemia de covid-19 aumentou ainda mais a exposição das mulheres à violência devido a medidas como o lockdown, que forçou o público feminino ao confinamento com seus agressores e à interrupção de serviços essenciais. “Sabemos que os múltiplos impactos da doença desencadearam uma ‘pandemia sombria’ de aumento da violência relatada de todos os tipos contra mulheres e meninas”, disse a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, ainda no início da pandemia. 

No Brasil, a realidade foi mesmo essa. De acordo com levantamento do Datafolha encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2021, 4,3 milhões de mulheres brasileiras de 16 anos ou mais foram agredidas com tapas, socos ou chutes. Isso significa que, a cada minuto, 8 mulheres apanharam no Brasil durante a pandemia. 

HOMENS COMO ALIADOS 

O cenário mobilizou marcas em torno do tema, entre elas a Globo, que lançou em maio de 2020 a campanha Juntos Contra a Violência, em parceria com a ONU Mulheres, para alertar a população sobre o crescimento da violência doméstica e combater seus diferentes tipos: moral, patrimonial, sexual, física e psicológica. “Abordamos tudo com muito didatismo, para conscientizar mulheres e homens sobre as diversas formas de agressão, pois algumas são complexas de identificarmos, mas todas constituem violação dos direitos humanos e precisam ser denunciadas”, conta Daniela Mignani, diretora da unidade de canais pagos da Globo, que reúne as marcas GNT, VIVA e Modo Viagem, e a área de negócios da GloboNews. 

A terceira fase da campanha começou em novembro do ano passado e é direcionada aos homens. As peças, veiculadas nos canais TV Globo, GNT, SporTV e nas redes sociais, foram criadas para desconstruir a normalização de comportamentos e atos violentos, com foco na inclusão do público masculino no combate à violência de gênero. Os apresentadores Manoel Soares e Alex Escobar, os atores João Vicente de Castro e Paulo Vieira e o narrador Luiz Carlos Júnior integram os vídeos da campanha, convidando os homens para a conversa. Confira abaixo uma das peças.


“Para esse passo da campanha, convocamos os homens, que são os agressores em potencial. Nossa ideia é que eles despertem a atenção de outros homens com suas próprias perspectivas, pois eles são a solução para essa violência. Trazê-los para falar nos pareceu forte e reto, sem atalhos”, diz Daniela. 

OLHAR PODE SER ASSÉDIO? 

Fora do Brasil, a violência contra mulheres e meninas também é pauta de campanhas muitas vezes polêmicas. É o caso da ação mais recente da Transport for London (TfL), que traz comportamentos associados ao assédio sexual, entre eles os olhares invasivos e intimidadores de natureza sexual que costumam causar medo ou angústia em suas vítimas. Nos cartazes do metrô de Londres, uma mensagem é clara: o olhar insistente pode ser considerado uma forma de assédio sexual e deve ser denunciado. A pena pode chegar a seis meses de prisão e multa.  

De acordo com matéria recente do Fantástico, o staring, que pode ser traduzido como um olhar intenso, insistente e intrusivo, tem ganhado destaque no debate entre os britânicos sobre a campanha. Em geral, na maioria dos casos, a mulher se distancia, muda de assento ou de lugar no metrô e não percebe que foi vítima de assédio. 

 

“Olhar fixamente de maneira invasiva e sexual é assédio sexual e não é tolerável”, diz cartaz no metrô de Londres (Crédito: Transport for London)

Ainda segundo a matéria, casos recentes foram parar nos jornais de Londres, como o de uma mulher impedida de sair do trem por um homem que passou minutos olhando fixamente para ela. O agressor foi condenado a 22 semanas de prisão. 

Uma investigação da TfL concluiu que os olhares invasivos são um dos tipos de comportamento sexual indesejado mais frequentes, sobretudo com as mulheres. No Brasilquase todas as mulheres acima de 18 anos afirmaram já terem sido vítimas de assédio sexual no transporte coletivo, em transportes por aplicativos ou em táxis. 

As campanhas mais recentes que dão luz à violência contra mulheres e meninas no Brasil e no mundo trazem perspectivas diversas de uma mesma urgência: seja em casa, no metrô ou na rua, o problema precisa ser debatido em diferentes esferas da sociedade, por homens e mulheres, marcas e entidades, para que mudanças efetivas aconteçam. 

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