O paradoxo da Net Generation
Sete. Sim, sete. Esta é a média de curriculuns que recebo diariamente em minha caixa de entrada. Não falo dos que chegam pelas vias normais da empresa, pelo email destinado exclusivamente a este fim. São quase 50 por semana em meu próprio email. Confesso.
Não os leio. Encaminho todos, quase sem exceção ao departamento responsável pela seleção de candidatos. Caso julguem que seja o caso de uma entrevista comigo ou com alguém de minha equipe, estarei lá.
Mas vez ou outra, por curiosidade, dou dois cliques no anexo. E invariavelmente me surpreendo.
Primeiro susto: eles não falam inglês. Ou melhor, eles não falam apenas inglês. Falam português, inglês, espanhol, italiano, francês, alemão e uma ou outra língua escandinava.
Segundo susto: não têm o segundo grau completo. Sim, não fizeram o que nós chamávamos de científico ou colegial. Não, eles não. Completaram a high school em alguma escola da Califórnia. E já que estavam por lá mesmo, aproveitaram e emendaram uma graduação. Muitos deles, um MBA na sequência.
Terceiro susto: tinham dois, três anos de idade quando chorei a eliminação do Brasil pela Itália na Copa de 82.
O maior susto, porém, vem quando um deles senta-se à minha frente para uma entrevista. É incrível a capacidade que têm em falar nada em seis línguas distintas.
Este é o paradoxo desta geração. São absurdamente bem formados no papel, mas mal informados. Quem é o ditador que está caindo (caiu) na Líbia? O nome do ministro xis, do primeiro-ministro y, o que aconteceu em 1922? Nada. Nothing. Niente. Rien.
O que falta a eles, então? Ler jornais? Também, mas o principal seria dar atenção às “ias” que tanto abominam quando entram na faculdade. Não é de hoje que o universitário chega à academia querendo aprender a apertar botões, a colocar a mão na massa, a fazer na prática o que deseja que venha a se tornar sua profissão. Com isso, valorizam em excesso as disciplinas técnicas e desprezam as únicas que de fato poderão fazer diferença na hora de enfrentarem uma entrevista real de emprego. Sim, as “ias”: sociologia, antropologia, psicologia, filosofia e outras tantas mais.
A isso, damos o nome de formação humanística. Entregue ao mercado um universitário bem (in) formado culturalmente, com plena noção do que aconteceu pelo menos nos últimos 50 anos neste globo em que vivemos e devolveremos um profissional competente após alguns meses de trabalho. Trabalhando, ele saberá apertar botões, tratar a massa, viver a prática.
Mas não, não teremos tempo entre uma tarefa diária e outra para falar da semana de arte moderna, de Gaddafi ou ensiná-lo quem é quem em Brasília ou Los Angeles.