OPINIÃO: ANA CÉLIA BIONDI

O futuro não chega nunca

Precisamos falar do presente, pois decisões de hoje determinarão quem seremos lá na frente

Ana Célia Biondi

CEO da JCDecaux Brasil 15 de outubro de 2026 - 10h47

Todo ano viajo com nosso comitê executivo para discutir a estratégia do ano seguinte, mas há algum tempo percebi que falávamos de futuro o tempo todo. Planos de cinco anos, visão 2030, muitas previsões e projetos. No PowerPoint, a empresa do amanhã é sempre perfeita, ágil, colaborativa, diversa, com resultados brilhantes. Só tem um detalhe: o futuro, quando chega, muda de nome. Vira presente. E aí, quase sem perceber, já estamos olhando para outro futuro lá na frente.

No fundo, a empresa que você quer no futuro precisa refletir a empresa que você está construindo hoje. Não existe salto mágico entre presente e futuro; existe uma sequência de dias, decisões e pequenos ajustes que silenciosamente vão empurrando a organização na direção certa… ou errada.

O problema é que estamos cada vez menos presentes no agora. Vivemos acelerados, hiperconectados, com agendas cheias, reuniões em sequência, notificações sem fim. Ao mesmo tempo, passamos horas consumindo tendências, estudos, benchmarks. Sabemos muito sobre “o que vem por aí”, mas nem sempre estamos atentas ao que está acontecendo agora, dentro da empresa. Isso é um desafio. Por isso, precisamos falar do presente.

Falar de futuro é confortável. Tudo é possível, os conflitos ainda não apareceram e as limitações parecem menores. Já o presente é imperfeito. É nele que mora o processo que não funciona tão bem, a conversa difícil que alguém evita, a decisão política que precisa ser tomada, o “depois a gente vê” que vai se acumulando. E é exatamente esse presente, com todas as suas imperfeições, que constrói o futuro que veremos. É nele que temos que focar.

Do ponto de vista de gestão, isso significa que, se queremos uma empresa mais ágil, precisamos tomar decisões ágeis hoje; se queremos uma cultura mais colaborativa, precisamos criar espaços reais de colaboração hoje; se queremos mais diversidade, precisamos revisar políticas e práticas agora. Futuro que não encontra consequência no presente vira apenas lista de desejos.

Um bom exercício é inverter a pergunta. Em vez de “Como será a nossa empresa no futuro?”, perguntar: “Como estamos sendo, de fato, hoje?”. Essa é uma boa maneira de começar as discussões.

Porque o futuro não é um grande evento que chega de uma vez. Ele chega em parcelas diárias. Um e-mail bem escrito, uma decisão coerente, uma reunião mais objetiva, um feedback honesto, um processo ajustado, uma política atualizada. Gestão é, em essência, cuidar do presente com a consciência de que ele vai mudar de nome.

No fim, vale a provocação: se o futuro for apenas a continuidade do que fazemos hoje, estamos satisfeitos com o que veremos?

Se a resposta for “não completamente”, isso não é um problema, é um convite. Convite para ajustar ações, conversas, políticas e processos. Porque, quando “o futuro” finalmente chegar, vamos descobrir que ele tem exatamente o tamanho das escolhas que estamos fazendo agora.