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Cambridge Analytica e a inocência perdida

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Cambridge Analytica e a inocência perdida

É necessário, mais do que nunca, valorizar o papel que os profissionais de comunicação desempenham na construção de uma comunidade mais e melhor informada


12 de abril de 2018 - 7h00

Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images

No último dia 21 de março, em uma entrevista à CNN, Mark Zuckerberg admitiu, em resposta à pergunta da especialista em tecnologia Laurie Segall, que o Facebook tinha violado a privacidade de seus usuários. Poucos dias antes, havia eclodido o escândalo — após a publicação, em veículos de prestígio, entre eles o New York Times —, de que a empresa de consultoria Cambridge Analytica obteve, de forma irregular, dados de milhões de usuários do Facebook e que os havia utilizado buscando manipular as decisões de eleitores durante a campanha presidencial dos Estados Unidos que levaram Donald Trump a assumir a Casa Branca.

Zuckerberg compartilhou, também, seu espanto em relação à dimensão que seu projeto havia tomado, desde que o Facebook foi concebido, em fevereiro de 2004, em uma pequena sala em Harvard. Algo que ele havia criado “quando era praticamente um garoto, com 19 anos”, tornou-se um ator relevante nos processos eleitorais de todo o planeta.

No Brasil, 443 mil usuários tiveram seus dados acessados pela Cambrigde Analytica, o oitavo país do mundo mais atingido pela violação.

Os usuários perderam dados, mas o que o Facebook perdeu? Como foi afetado? Além da queda significativa de suas ações na Bolsa de Valores e das possíveis multas que deve enfrentar, terá que gerenciar uma perda mais sensível e estratégica, algo mais delicado e valioso: a confiança. Na nova economia, nascida como filha da transformação digital e, portanto, tendo o Facebook como um de seus pais, a confiança é o Santo Graal, o ativo no qual o valor das empresas é baseado.Mark Zuckerberg sabe disso, e de tal forma que declarou em sua primeira resposta à Laurie Segall:— “Laurie Segall: Eu vou começar com apenas uma pergunta básica, Mark, o que aconteceu? O que deu errado?— Mark Zuckerberg: Então, essa foi uma grande quebra de confiança e lamento muito que isto tenha acontecido”

É necessário, mais do que nunca, valorizar o papel que os profissionais de comunicação desempenham na construção de uma comunidade mais e melhor informada, mais preparada, com relações entre grupos e pessoas baseadas na confiança, na honestidade e na inteligência

Direcionando o olhar ao nosso setor, devemos refletir e nos perguntar: perdemos algo com esse escândalo planetário? Na página principal de seu site, a Cambridge Analytica se define como uma empresa que “usa dados para mudar o comportamento do público”. E… Algo mais que dados. Em um vídeo transmitido pelo canal britânico Channel 4, Alex Nix, ex-CEO da CA, e Alex Tayler, chefe do escritório de dados, admitiram que buscavam enganar candidatos políticos para influenciar os processos eleitorais. No vídeo, eles citam casos específicos dessas práticas no México e na Malásia. O caso da Cambridge Analytica se soma, no setor, a outro recente escândalo encabeçado pela Bell Pottinger. Fundada em 1998, e sendo uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, a companhia entrou em colapso em meados de 2017, depois que suas práticas irregulares de incitamento ao ódio racial na África do Sul, mediante campanhas de desinformação e favoráveis ​​a certos interesses políticos, vieram à tona.

Esses casos têm uma enorme relevância para nós, como profissionais de comunicação. Usamos nossa reputação e apostamos a confiança da sociedade em nosso papel como atores legítimos nas relações entre comunidades, empresas e pessoas. E essa confiança é um ativo delicado, frágil e valioso que deve ser cuidado, protegido e defendido com determinação.

É necessário defender com persistência que nossa profissão, bem exercida, serve para melhorar a sociedade. Geramos confiança, auxiliamos na comunicação entre pessoas, instituições empresariais e facilitamos a interação e a compreensão. Zelamos pela reputação de nossos clientes e, às vezes, tentamos influenciar a opinião de terceiros ou mobilizá-los em favor de determinadas abordagens, produtos ou serviços. Quando esse é o nosso trabalho, fazemos isso com honestidade e transparência, com fatos e opiniões verdadeiras, sem erros ou artifícios e sem violar os espaços reservados para o que é confidencial ou privado. Trabalhamos para melhorar a reputação de nossos clientes ou as causas que defendemos, promovemos seus pontos positivos e buscamos meios para ampliar seu protagonismo na sociedade. Nossa matéria-prima é a comunicação, e não os dados privados. Nossa bússola irrevogável é a ética, e não o fim a qualquer custo. E a verdade e os fatos são matéria-prima insubstituíveis.

É necessário, mais do que nunca, valorizar o papel que os profissionais de comunicação desempenham na construção de uma comunidade mais e melhor informada, mais preparada, com relações entre grupos e pessoas baseadas na confiança, na honestidade e na inteligência. Com orgulho, temos que explicar que somos parte da solução para os problemas do nosso tempo e é por isso que nosso dever é reagir com rapidez e contundência, condenando ações como aquelas adotadas pela Cambridge Analytica e empresas similares.

A sociedade hiperconectada é hipervulnerável, assim como os indivíduos. E vamos salientar aqui, todos nós somos, porque devemos estar cientes de que os profissionais são protagonistas, mas também sujeitos dessa vulnerabilidade. Somos, também, hipervulneráveis ​​e devemos tomar precauções.

Temos vivido, com certa inocência, o nascimento da internet, do mundo digital, das redes sociais, nas quais nos lançamos a comunicar, ouvir, compartilhar, publicar, povoar os novos territórios digitais. Foi apenas nos últimos tempos que começamos a nos dar conta de que o anonimato nas redes causa problemas, que as máfias se aproveitam de nossa liberdade e que, em última análise, podemos ser objetos de manobras maliciosas, usadas para manipular e influenciar. Fake news, Brexit, eleições nos EUA, Catalunha, os interesses russos manipulando processos eleitorais… São muitos os exemplos lançados à mesa.A idade da inocência acabou e aprendemos que é importante saber escolher em quem confiar. Empresas sérias, responsáveis ​​e éticas serão as vencedoras dos próximos tempos que se avizinham e, para isso, a confiança torna-se um intangível de grande valor. Os comunicadores não podem estar em um momento mais decisivo e desafiador.

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