O ódio se instala falando do amor

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O ódio se instala falando do amor

Em momentos de polarização extrema, todos corremos o risco de nos tornar intolerantes, mesmo quando nos colocamos a serviço da luta contra a intolerância


5 de novembro de 2019 - 14h00

(Crédito: Marcelo Hernandez/ GettyImages)

A afirmação-título desse artigo é de Alex Gibney, documentarista premiado com o Oscar, em 2007, que dividiu com Steven Spielberg a produção executiva da série Por que Odiamos?, dirigida por Geeta Gandbhir e Sam Pollard e lançada este mês no Museu da Tolerância em Los Angeles. A série se propõe a levantar hipóteses sobre o que nos separa e o que nos leva a odiar o outro a ponto de reconhecê-lo como inimigo. Cada um de seus seis episódios é conduzido por um especialista em alguma área da ciência do comportamento como Brian Hare, antropólogo evolucionista que pesquisa a evolução da cognição por meio do estudo das espécies com maior proximidade genética com os humanos; Laurie Santos, psicóloga e especialista em ciências cognitivas que estuda o tribalismo e a tendência humana à categorização e à divisão em grupos; Jelani Cobb, educador e professor de jornalismo na Columbia University que investiga as táticas e ferramentas de manipulação que espalham o medo e a desinformação e Sasha Havlicek, CEO do ISD – Institute for Strategic Dialogue, organização global dedicada a fortalecer soluções de combate ao extremismo e à polarização.

Nem todos os episódios estão disponíveis, mas assisti-los buscando relacionar os fatos colocados com a realidade que conhecemos é absolutamente necessário a qualquer profissional responsável pela construção de narrativas distribuídas em escala e pelo controle das ferramentas de categorização e organização das pessoas em grupos.

A ideia de que não somos definidos apenas por nossas características e por nossa psicologia individual, mas também pelo comportamento, orientação e aprovação de grupos e de que isso pode ter consequências perversas e gerar polarização e violência quando a identidade do indivíduo é substituída pela identidade do grupo é uma das perspectivas colocadas pela série.

Observe as atuais organizações políticas. Elas estão se tornando cada vez mais tribais em consequência de um processo de polarização crescente alimentado pela intolerância, que aumenta a desconfiança e a busca por lugares, pessoas e narrativas que despertem em nós a sensação de que estamos sendo reconhecidos, ouvidos e protegidos do outro, do inimigo que pensa diferente de nós e que ameaça nossa sobrevivência. Vimos isso acontecer na eleição de Donald Trump, na onda populista de direita que levou à ascensão de líderes como Viktor Orbán na Hungria, Rodrigo Duterte nas Filipinas e Jair Bolsonaro no Brasil e estamos vendo acontecer no Brexit.

Em momentos de polarização extrema, todos corremos o risco de nos tornar intolerantes, mesmo quando nos colocamos a serviço da luta contra a intolerância. Um risco que fica cada vez mais forte quando vemos nosso acesso à diferença de perspectivas e opiniões ser reduzido em busca da aparente segurança de grupos que pensam igual, anulam divergências e sustentam o ódio por inimigos comuns e por um tipo de percepção psicológica de vítima que se torna presente, inclusive, nos grupos de maior poder financeiro e político.

Em novembro de 2018, acompanhada pela fotógrafa Julia Pontes, tomei a decisão de acompanhar a apuração da eleição presidencial na Ocupação 9 de Julho, prédio ocupado pelo MSTC – Movimento Sem Teto do Centro, onde vivem cerca de 124 famílias, um dos símbolos da luta pela moradia na cidade de São Paulo e depois seguir para a comemoração dos apoiadores de Jair Bolsonaro na avenida Paulista. Um dos momentos mais marcantes dessa experiência foi a fala, registrada por nós em vídeo, de um jovem de aparentes 35 anos: “Isso aqui representa um grito entalado na garganta de deixa eu pensar, não me rotula porque eu penso diferente, eu tenho o direito de pensar, eu não quero ser rotulado de homofóbico, ou de racista porque eu sou contra a cota racial. As pessoas têm o direito de pensar. Nós vivemos um período negro economicamente, mas o mais grave foi sermos impedidos de pensar e agora isso acabou. Nós não somos opressores, somos oprimidos.” Em uma realidade dominada pela polarização, a percepção psicológica de vítima é uma consequência natural da percepção de injustiça, da falta de diálogo e do medo.

Outra perspectiva colocada pelo documentário aborda nossa relação ancestral com a injustiça. Tendemos a reagir com ódio e violência quando nos sentimos injustiçados ou seja, todas as vezes em que nos vemos em situações nas quais sentimos que não estamos recebendo o que merecemos, como acontece quando não recebemos liberdade, educação, saúde, alimentação, respeito e oportunidades iguais de desenvolvimento. A desigualdade estrutural favorece o crescimento do ódio e da violência.

Na última semana, uma foto tirada em uma das manifestações do povo chileno nas ruas de Santiago mostrava um jovem carregando uma faixa onde estava escrito: ”Nos quitaron tanto que nos quitaron hasta el miedo” (nos tiraram tanto que nos tiraram até o medo). Essa poderia ser também uma frase nas mãos de manifestantes no Equador, Reino Unido, na Catalunha, em Hong Kong, Paris. Desigualdade, polarização, desconfiança e injustiça é um quadro que tende a se agravar com a crise climática e com o crescimento do desemprego. Para quem percebe nessas colocações qualquer distopia, um alerta: o otimismo não pode prescindir de nossa capacidade de nos relacionar com a realidade, identificar e resolver problemas.

Neste momento, em todo o mundo, diferentes narrativas, tanto aquelas sustentadas por interesses econômicos e políticos quanto aquelas construídas como uma forma de reagir a eles, estão disputando espaço. E toda narrativa tem conteúdos psicológicos dirigidos a legitimar, influenciar, alimentar crenças e posições. Toda narrativa, incluindo as publicitárias. Somos corresponsáveis pela realidade que estamos buscando mudar e a consciência disso nos coloca em um lugar de grande responsabilidade, um lugar que nos pede para discutir, do ponto de vista da psicologia cognitiva, o resíduo que geramos enquanto criamos, influenciamos e legitimamos pautas sociais.

A crença de que os fins justificam os meios, que nos torna escravos da busca por um tipo de eficácia que ignora os danos causados pelo caminho, não se justifica mais, nem mesmo quando estamos a serviço das melhores causas e a consciência disso está fazendo aflorar no mundo todo o poder mediador das narrativas construídas por meio da arte. Neste momento, músicos, poetas, cantores, performistas, fotógrafos, coreógrafos, roteiristas, diretores, produtores estão se mobilizando no mundo todo e estão visíveis nas ruas do Chile usando arte tanto como protesto quanto como convite para o sonho como esperança ativa, uma das mais ponderosas armas contra a falta de perspectiva. Neste momento, nenhuma inspiração poderia ser mais bem-vinda.

*Crédito da foto no topo: Tookapic/Pexels

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