A preferida do Abílio
Não há confirmação da família Diniz, mas tudo indica que essa fábula infantil era a preferida do pequeno Abilio quando criança.
“A chuva era considerável. Forte o suficiente para apavorar o escorpião ilhado sobre uma folha de médio porte fadada a afundar. Próximo dele havia um sapo de ar plácido, absolutamente encantado com o espetáculo da natureza.
O escorpião assustado, na medida de um escorpião, chama o sapo insistentemente. Na verdade está ali uma carona providencial até a margem do pequeno rio para evitar, na sua perspectiva, um mal maior. A sua morte.
O sapo se faz de surdo como todo o sapo, mas o escorpião é insistente, afinal seu tempo está para acabar e a chuva está para aumentar. Tanto esforço pela atenção do sapo dá resultado e, sem perda de tempo, o escorpião pede a cobiçada carona.
O sapo descarta a possibilidade afirmando nunca ter ouvido caso similar, um sapo ajudar um escorpião, mas a luta pela sobrevivência produz estranhas reações e o peçonhento jura gratidão eterna pelo ato de suprema bondade do réptil.
Depois de uma emocionada negociação o sapo se rende aos argumentos do escorpião e aceita ajudá-lo a alcançar a margem e a tão sonhada sobrevivência. E lá se vão os dois recentes companheiros. O resgatado e o salvador.
Já bem próximo da margem, o suficiente para que o escorpião não corresse mais nenhum risco, aconteceu o inevitável, a mordida fatal que levaria, em segundos, o sapo à morte.
Entre assustado e resignado com seu destino, o sapo pergunta para o escorpião o porque de tanta maldade para quem o havia salvo a vida. Entre assustado e resignado, o escorpião responde: `é a minha natureza.”
* André Porto Alegre é sócio-diretor da Mobz