OPINIÃO: LICA BUENO

Empresas crescem quando as conversas difíceis acontecem

O excesso de diplomacia pode ser tão nocivo quanto a falta dela

Lica Bueno

Presidente da Talent 16 de outubro de 2026 - 14h35

(Crédito: Unsplash)

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Existe uma crença silenciosa que ronda muitas organizações: a de que um ambiente saudável é aquele onde há pouco conflito. Onde as pessoas concordam, as reuniões terminam rapidamente e os problemas parecem sempre administráveis. Na prática, porém, nem sempre é assim.

Ao longo da minha carreira, vi empresas crescerem por causa de times excepcionais e boas oportunidades. Mas também vi organizações cheias de talento e potencial avançarem menos do que poderiam porque evitavam discutir temas que precisavam ser enfrentados.

O excesso de diplomacia pode ser tão nocivo quanto a falta dela.

Quando uma equipe deixa de trazer uma discordância relevante para a mesa para não gerar desconforto, uma decisão importante pode ficar comprometida. Quando um líder evita dar um feedback honesto para preservar uma relação, abre espaço para que um problema se repita. Quando uma organização escolhe não enfrentar prioridades conflitantes, cria uma sensação de alinhamento que existe apenas na superfície. O custo dessas omissões costuma ser invisível no curto prazo, mas é assim que decisões perdem qualidade e desalinhamentos começam a se acumular.

As organizações mais maduras que conheci não são aquelas onde todos pensam igual. São aquelas onde as divergências conseguem existir sem comprometer as relações. Onde uma pessoa pode discordar de uma ideia sem ser vista como desleal. Onde fazer uma pergunta difícil é compreendido como um sinal de compromisso com o resultado, não como uma ameaça.

Nem toda conversa difícil é um problema. Muitas vezes, ela é justamente o caminho para resolver um.

Os processos de transformação mais relevantes normalmente começam assim, com alguém levantando uma questão que ninguém queria abordar, com uma equipe reconhecendo que determinada estratégia não está funcionando, com líderes admitindo que precisam rever uma decisão, uma estrutura ou até uma convicção.

Toda mudança real passa por algum nível de desconforto.

Talvez por isso um dos maiores desafios da liderança seja criar espaços onde a franqueza não seja confundida com agressividade e onde a cordialidade não seja usada como ferramenta para evitar a verdade.

Muitas empresas vivem hoje um cenário de negócios cada vez mais complexo. Novas tecnologias, mudanças de comportamento, transformações nos modelos de trabalho e pressão constante por resultados aumentam a velocidade das decisões. Nesse contexto, não podemos nos dar ao luxo de gastar energia protegendo consensos artificiais.

Quanto mais complexo o ambiente, mais importante se torna a capacidade de debater ideias, prioridades e discordâncias de forma aberta, porque inovação depende de questionamento. Estratégia depende de escolhas. E escolhas quase nunca são confortáveis.