Filosofando em Gramado
Participei no último final de semana de mais um júri de propaganda. Desta vez estive com mais 18 colegas julgando o Festival Mundial de Gramado, na cidade sulista que dá nome ao Festival.
Pode-se dizer que foi uma maratona, pois ficamos trancados no sábado das dez da manhã até a uma da madrugada de domingo. Mesmo assim foi uma experiência agradável e enriquecedora, presidida pelo sempre competente e coerente Guga Ketzer, ex-membro da minha equipe na Escala e hoje Sócio e Diretor de Criação na Loducca.
Eu, é claro, estava do lado de Gramado, e estou careca de ir até a cidade que fica a duas horas de carro da minha casa. Mas fiquei com pena do pessoal que veio de São Paulo e de Curitiba julgar e que acabou nem conseguindo aproveitar as atrações (?) de Gramado.
O Festival de Gramado tem algumas peculiaridades. Uma delas é a origem das peças, que pela abrangência absurda do Festival (que como diz o nome, é mundial) e pela relativa divulgação do mesmo, acaba sendo um pouco bizarra. Tínhamos muitas peças brasileiras, muitas peças gaúchas (para entender porque as peças gaúchas não entram na contagem das brasileiras, consulte http://www.obairrista.com/), algumas coisas do Uruguai e do México, e até mesmo campanhas de telefonia de Moçambique.
Como falei acima, a experiência foi agradável porque o clima foi de alto-astral o tempo todo, e enriquecedora pelas discussões que surgiram durante o processo. Vale lembrar que o tema de todo o festival deste ano (que acontece nestas próximas quinta e sexta, 04 e 05 de setembro) será “Onde está a ideia”. E daí veio a provocação do Guga para nós jurados, de premiar ideias, independente de plataforma ou formato.
Sem entregar o resultado do júri, queria trazer aqui aquela que acho que foi uma das discussões mais interessantes. Duas das campanhas de TV eram campanhas de depoimentos. Uma delas inclusive trazia apenas isso – 3 filmes de plano único, com um depoimento em cada um. Mas, meu amigo… cada depoimento melhor que o outro.
Surgiu a ponderação que aquelas duas campanhas, pela força do depoimento, pela beleza das imagens e pela simplicidade dos conceitos, talvez fossem as duas campanhas que mais eficientemente passavam sua mensagem ao público. Uma delas não me sai da cabeça até agora.
No entanto, não são peças, por assim dizer, criativas. Não há inovação formal. Não há frase de efeito. Não há jogos de imagem, de palavras, de nada. E o festival ali, perguntando em cada cartaz; “Onde está a ideia”?
Na busca dessa tão desejada ideia, vimos muitas peças boas no festival, mas certamente a maior parte (como em qualquer certame) é de sacadas forçadas, antigas, que não funcionam, que não agregam, que mais nos afastam da peça do que nos aproximam de uma solução.
Bem, independente da conclusão do júri sobre essas peças (e que o mundo só vai ficar sabendo no final dessa semana), o olhar que eu queria levantar é o seguinte: será que não é também uma grande ideia achar alguém que, com seu depoimento realista e matador, consiga passar perfeitamente o que se quer dizer?
Será que não é uma maestria aplaudível não apenas realizar um comercial de depoimento que transpira verdade, mas não deixar que a nossa ânsia pela inovação, pelo diferente, pelo único, por aquilo que convencionou-se chamar de ideia sobressaia, interponha-se como necessidade e venha a estragar algo tão simples e eficiente?
Talvez não seja o papel de um Festival premiar formatos conhecidos e já tão visitados como o depoimento simples.
Ou talvez seja o papel de um Festival dar a volta por cima e considerar que a resposta à pergunta-tema do festival seja essa mesma – as vezes a melhor ideia está ali, na vida da gente. E merece prêmio quem dá espaço para ela aparecer e brilhar por si.
Eduardo Axelrud é diretor nacional de criação da Escala